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  • Metamorfose

Cohen e a arte de amar


Cantor Leonard Cohen - Foto: Reprodução


“Oi, te liguei/ Deve tá ocupadinha/ Tudo bem, tá com outro contatinho”, canta Léo Santana, com a participação de Anitta, numa dessas músicas que tocam esquizofrenicamente nas rádios e estão no top dez das mais executadas nas plataformas de streaming.


Por Deus do Céu, não tem sentido, nenhum, nada, caralho, que coisa mais vulgar!


É a modernidade líquida e seus amores eternos que não duram uma música dos Ramones.


Por que especialmente nesta quinta-feira (20) a excelência da trilha sonora da casa chegou a um patamar altíssimo, seu Emivaldo? O que houve com aquele Ronnie Von psicodélico dos anos 70? Com aquele Odair José? Com o Belchior? Fagner?


Porra.


“É o cliente, é o cliente, é o cliente”, diz o cara. “É ele que manda.”


Hombre de diós, por obséquio, entenda uma coisa: não se faz mais homem apaixonado, ave Maria, como o poeticamente desgraçado do Leonard Cohen.


Atesto, certifico, em duas vias, e assino embaixo, com firma reconhecida em cartório: pé na bunda, passaralho na firma, cotovelo escorado no balcão, saudades da mina e Cohen tocando no último volume na vitrola... É um explosivo coquetel reparador da alma, reabilita que é uma beleza.


Cura todos os males do amor e da vida, ô se cura, rapaz, vai por mim… Por experiência empírica, já chorei com o coração partido e o cotovelo escorado no balcão, como um corintiano maloqueiro e sofredor que suplicou ao longo do ano passado por um time decente para disputar o Brasileirão nesta temporada.


Discorria sobre esses eficazes métodos de curar a dor provocada pelo amor no boteco. Mire-se no exemplo deste vagabundo sentimental que vos batuca delírios silábicos. Sim, temos de ouvir cada vez mais Cohen a partir de agora.


Ficou o legado, não tem jeito, resta-nos escutar.


O canadense é um autêntico trovador do miocárdio, sopra o cronista liricamente vagabundo e mestre deste escriba chinfrim: é óbvio, é claro, é lógico que me refiro ao Xico Sá e seu manifesto poético pró-Cohen, Método Leonard Cohen Para Aprender a Amar, publicado em novembro de 2016 no El Pais.


O cara é nosso guia, rapazes, para reaprender a amar. Necessário nestes tempos de homens tremendamente vacilões e sexualmente assépticos. Homens que fazem zilhões de ensaios, mentiras nem um pouco sinceras e, na hora agá, ruminam promessas de romance para colher nudes egoístas. Fraquíssimos!


Vale o sacrifício, ô se vale, faça sorrindo o que ela te pede chorando.


E se a moça quiser outra forma de amor, vista a máscara ou carapuça de um cavaleiro destemido. O importante é a lição do mr. Leonard Cohen. Dance, mesmo sendo uma verdadeira negação nesta arte, como este cronista, mas dance em situação de pânico amoroso diante de uma possível negativa ou sob a crença de uma promessa de felicidade.


À vitrola do youtube, amigo, com meu inglês singelamente goianiense: “Dance me to the end of love”. Ouça, assimile e convoque a dama para riscar o taco no salão improvisado da sala. “Dance me to the end of love/ Dance me to the end of love”.


Precisa falar mais alguma coisa?


E quando houver o temido adios, lembre-se da canção So Long Marianne, vá até a janela, ria, chore, pense nos bons momentos, nos maus, etecetera e tal e tal e coisa. Abra um vinho de no máximo de 20 reais, não cheire a rolha e jamais esqueça que a chama do amor não combina com essa frescura do mundo gourmet.


Fazer filho não é amor. Casar muito menos.


O amor é o entorpecimento, é se drogar juntos, sem necessariamente ser traficantes da paixão; amar é uma viagem de LSD ou cogumelo, sem ser tão delirante quanto o que tento falar; amar é, simplesmente, cruzar o paraíso; amar é desaparecer se a mina não estiver mais a fim, de boas?


Cohen sabe das coisas, não é?



Marcus Vinícius Beck, jornalista e escritor. Autor do livro-reportagem ‘Diário Subversivo’