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Coutinho perfilado

Cinema

Biografia percorre vida e obra do documentarista Eduardo Coutinho

Cineasta Eduardo Coutinho - Foto: Reprodução


Eduardo Coutinho adorava a voz humana. E muito, como mostram seus filmes. Diretor do longa-metragem Cabra Marcado Para Morrer, de 1984, ele é considerado o documentarista mais original do cinema moderno brasileiro, criando magnificamente uma maneira nova de fazer filmes documentais, com atenção toda voltada às histórias que ouvia e via de seus personagens. Era um cinema sensível, empático, humano... Coutinho “era um personagem de si mesmo” e “ele era realmente fascinante no seu pessimismo extremamente produtivo”.


“Era também no humor que provinha de uma aparente ranzinzice e na forma como ele fazia filmes partindo do quase nada, sempre em busca da aventura que era sentar-se diante do outro e ouvi-lo”, diz ao Jornal Metamorfose o jornalista Carlos Alberto Mattos, autor da biografia Sete Faces de Eduardo Coutinho - a obra foi lançada em novembro do ano passado pela Boitempo. Tudo começou em 2004, no Festival de Cinema Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira, em Portugal. Encomendaram a Mattos um livro em homenagem ao documentarista.


Sem cogitar a possibilidade de dizer não ao convite, o jornalista preparou Eduardo Coutinho - O Homem que Caiu na Real, que teve pequena distribuição no Brasil. A partir de então, Mattos passou a buscar uma chance de lançar a edição brasileira do livro. “O tempo passou, Coutinho faleceu em 2014 e, no ano passado, fui convidado para fazer a cocuradoria, junto com a equipe do Instituto Itaú Cultural, do evento Ocupação Eduardo Coutinho, que compreendia uma exposição, uma mostra de filmes, um curso e um site”, relata.



Cenas dos documentários 'Cabra Marcado Para Morrer' e 'Jogo de Cena' - Foto: Reprodução


O Itaú Cultural aceitou a proposta de coeditar o livro em versão atualizada, e esse trabalho foi feito em conjunto com a editora Boitempo e o Instituto Moreira Salles. “Precisei, então, rever o que havia escrito em 2004, atualizar o restante da filmografia do Coutinho e as novas descobertas feitas durante a pesquisa para a Ocupação”, conta Mattos. E o resultado não poderia ser mais gratificante: é o primeiro estudo sobre a obra completa do cineasta, desde a época em que foi estudar cinema na Europa nos anos de 1950 até seu último longa.


“Nesse sentido, o mergulho nos arquivos pessoais de Coutinho, até então inéditos aos olhos de pesquisadores, foi fundamental para compor um perfil mais aguçado do realizador, que inclui seus projetos não realizados ou modificados no rumo dos filmes que conhecemos”, explica o biógrafo. Mas ainda havia mais dificuldade: como atualizar a filmografia sem a presença do biografado? “Recorri a seus principais colaboradores, às pesquisas e textos mais importantes já escritos sobre sua obra e principalmente ao acervo que ele conservou”.


Coutinho em si mesmo


Nem sempre autor e obra possuem o mesmo grau de interesse. Na maioria das vezes, não. Mas com Eduardo Coutinho a história é outra: sua figura e a potência dela, sempre com humor pessimista, quase ranzinza, cigarro entre os dedos, são tão interessantes quanto a grandeza de sua obra. Em Sete Faces de Eduardo Coutinho, o leitor é convidado a se encontrar com a pessoa, com a obra e com a biografia, acompanhando a trajetória de Coutinho cronologicamente, desde sua passagem pelo teatro até chegar ao cinema.


“Coutinho era um grande escutador, mas também era fascinante escutá-lo com sua cultura proverbial e um ceticismo absolutamente encantador”, diz o jornalista Carlos Alberto Mattos. O cineasta foi um dos responsáveis por reabilitar a entrevista, técnica semimorta ali pelos idos de 1980, e a tornou indispensável durante a concepção do material humano para um filme documental. “Foi alguém que trouxe a herança do cinema verdade à nossa realidade e estimulou o diálogo entre verdade e invenção, entre relato de vida e performance”.


Não era, porém, a entrevista como uma mera sondagem de informações. “Mas como lugar de produção de subjetividades surpreendentes, divertidas ou dramáticas”, afirma Mattos. Com o reconhecimento da qualidade de seus filmes, Coutinho encorajou jovens cineastas a trilharem o caminho do documentário. É o caso da documentarista Fabiana Assis: “Não interessava a ele se a pessoa estava contando uma história que era verdadeira, o que interessava era a maneira com ela é contada”, declara a cineasta.


Trailer do documentário 'Cabra Marcado Para Morrer' - Foto: Reprodução/ Youtube


Nascido no dia 11 de maio de 1933, na cidade de São Paulo, Eduardo Coutinho construiu uma obra humana e repaginou o documentário histórico brasileiro com Cabra Marcado Para Morrer. Mas foi no Globo Repórter que ele subverteu de vez as normas: em Teodorico, o Imperador do Sertão, ele deixou a nu um representante da classe dominante brasileira sem que ele percebesse. “Mais tarde, em filmes como Santo Forte, Edifício Master e O Fim e o Princípio, ele solidificou seu método de produzir condensados humanos insuperáveis”, explica Mattos.


Por fim, em Jogo de Cena, o cineasta acabou com inocência de que o estilo de documentário que fazia não se confundia com a realidade. Morto a facadas pelo próprio filho que sofria de esquizofrenia, em 2 de fevereiro de 2014, Coutinho deixou um legado enorme, mas o mais importante talvez seja aquilo que comumente passa batido pelo público: ele jamais deixou de se aceitar. “Eduardo Coutinho se entregava às suas loucuras”, avalia a documentarista Júlia Lee. E isso é tão necessário - principalmente nos tempos atuais.


Ficha Técnica

‘Sete Faces de Eduardo Coutinho’

Autor: Carlos Alberto Mattos

Gênero: Biografia

Editora: Boitempo

Páginas: 352

Preço: R$ 59,00



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