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  • Metamorfose

Crônica da pandemia

Atualizado: Ago 8

Botequim Literário



Ilustração: Rabiscos e Escarros/ Heitor Vilela


Marcus Vinícius Beck


"Bolsonaro é a comprovação científica que a cloroquina cura", diz aquele jornalista que foi assessor de Figueiredo na Record Gourmet, vulgo CNN Brasil, mais nova porta-voz dos delírios mortíferos que ecoam a partir da delinquência retórica do inquilino do Palácio do Planalto.


Mortes por incompetência. Essa, sim, é a expressão apropriada para definir as intenções espúrias da trupe do coturno parida nos calabouços da tortura que, criminosamente, não faz nada para conter as vidas ceifadas pelo novo coronavírus. Afinal, o molambo que se faz presidente não é milagreiro, embora seja messias.


Sinto-me, em dadas ocasiões, desalentado a acompanhar o varejo e os varejistas da neocropolítica, pessoas asquerosas, feiíssimas, de uma estultice lastimável.


Há, todavia, momentos – como este em que a gente vive – que o desejo pela cura vence a resistência à realidade. Pensamos na boemia. Pensamos no lirismo. Pensamos no amor. Pensamos, ahhhhhhh, na vontade de beijar, de abraçar, de olhar nos olhos da pessoa amada.


Ainda assim, não faz parte de minha pretensão levar a sério o que diz Bolsonaro, já que ele próprio não se leva, no entanto venho lendo nos últimos meses notícias que me preocupam – e devem, pois, preocupar a todos aqueles compromissados com a vida.


Ou seja, reflito com o auxílio de Roberto Freire e sua sabedoria impressa em Paixão e Utopia, o que importa mesmo na harmonia perversa do capitalismo são as estradas trepidantes do trabalho. A doença, portanto, é um estigma. Na ótica bolsonarista, é preciso vocação para a incompetência – e, de preferência, talento para ser garoto propaganda de certos fármacos.


Vai ver, pela trajetória íngreme do capitão corona a labuta é, por assim dizer, um ato da mais acachapante dignidade.


Desculpem, eu sei, não é o caso de fazer piada ou ironia, muito menos ser sarcástico.


Além de chorar a perda dos geniais Aldir Blanc e Antônio Bivar, mentes inventivas que padeceram para a peste, fora tantos outros anônimos que não gozam de certos privilégios dos endinheirados que importaram o vírus para estas terras, tive de ouvir, quer dizer, ler nas redes anti-sociais, estrepitosas declarações do tipo: não adianta fazer nada, quem tiver que pegar, vai pegar.


Quem tiver que pegar, vai pegar, ar, ar, ar, ar, ar, ar, ar, ar, ar, ar, ar. O eco me segue pelos corredores da audição. A vontade é de radicalizar a porra toda, mandar o sujeito às favas.


Vocifero um “ai que preguiça de dialogar com essa gente asquerosa” em uma imaginária rede mental da treta. Uma rede que em alguns dias é meio Aldir Blanc (“acendo um cigarro molhado de chuva até os ossos”), em outros ruma à filosofia de Charles Baudelaire (“embriague-se de vinho, virtude ou poesia”) e noutros precisa explicar que o Coringão, meu Corinthians, teu Corinthians, não pertence aos que deveriam estar na lata de lixo da História.


Fecho a inquisição do Facebook. Deparo-me, no Instagram, com um debate poético e filosófico das atrizes Andréia Horta e Maria Ribeiro. O papo era um sublime passeio pelo pensamento de Camus e a falácia competitiva do ultraliberalismo cafona que querem nos meter goela abaixo.


O motorista uberexplorado do aplicativo puxa conversa:


"A galera não sacou que a parada é séria, tipo o que custa botar uma máscara pra sair nas ruas?", questionou, veementemente.


Ai que preguiça dessa gente, mas que raiva dessa gente, ao mesmo tempo...


"Tô trampando, amigo, porque senão não tenho o que comer", diz o motora. "Quem dá conta de confiar nos 600 mangos do Paulo Guedes?"

Andréia e Maria falam sobre a vida...


É, meu valente, a solução é o breque dos apps. Abaixo o delivery do coronavírus!


Dez, quinze minutos depois, o chofer estaciona em frente ao meu condomínio. Penso comigo: o ofício de preencher páginas na Galáxia de Gutenberg faz de mim um cara privilegiado. Mas todo nosso esforço não é nada diante dos proletas intermitentes.

A lista é enorme: diaristas, motoristas, camelôs, vigilantes e toda uma renca de trabalhadores que precisam ganhar o vintém do dia, afinal é desesperador confiar na retórica neoliberal do engravatado que se gaba de ter estudado todas as teorias econômicas, e no original, risos.

Explorados do mundo, uni-vos.


Em tempo: se eles têm a morte, nós temos a vida. Viva a vida!


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