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  • Victor Hidalgo

A carta inesperada do baralho da sociedade


Crítica - Coringa

Na tela uma reflexão suja e feia da sociedade, e os extremos que levam pessoas a se transformarem em monstros

Foto: Reprodução

Podia ser São Paulo, a cada esquina transbordando de lixo para o metrô abarrotado de gente, o desdém diária que sofremos de cada um que nos cerca e de nós mesmo para com os outros, quantos já ignoramos na rua que precisavam de nossa ajuda? Quantos viramos o rosto para continuar nossa vida cotidiana? Quantas mãos deixamos de estender para com o próximo que está em aflito por não suportarmos a realidade em que vivemos ou por mero desprezo? Qual o papel do estado na negligência dessas pessoas? E da mídia que transforma o sofrimento alheio em piada nacional? Essas são questões que o filme Coringa estrelado por Joaquin Phoenix levanta, e mostram na tela uma reflexão suja e feia da sociedade, e os extremos que levam pessoas a se transformarem em monstros.

O primeiro frame do filme contempla um personagem quebrado, atormentado, que se vislumbra no espelho. Arthur Fleck sofreu sua vida inteira e para se sustentar, ele veste uma fantasia de palhaço, que o obriga a colocar um sorriso no rosto, mesmo que por dentro ele esteja destruído. É nesse momento que ele força uma risada, enfiando seus dois dedos indicadores na boca enquanto uma lágrima escorre por sua bochecha, manchando a maquiagem de palhaço. Esse é o tom do filme, ele quer te jogar no chão, te fazer sentir o que o protagonista está sentindo, a cada gargalhada involuntária que ele dá, você se sente nervoso e tenso como espectador, ele ri mas no seu rosto está uma expressão de dor.

Em todo o momento do filme você torce para que o personagem de Joaquim não se transforme no Coringa. Ao descobrir cada vez mais a vida e o passado dele, mais pena e frustração com sua condição você sente, ele não tem controle sobre nenhum aspecto da vida, as pessoas são cruéis com ele, é negligenciado por sua família, pelo estado, pela população de Gotham como apenas um excluído, um palhaço. Em certo momento, um colega da agência qual trabalha oferece uma arma para Arthur poder se defender nas ruas, mas não como uma ação visando o seu bem, mas um plano articulado para poder cobrar um favor dele no futuro ou ter algo para usar contra ele. No final, a arma é um dos gatilhos para sua transformação.

Arthur a todo o momento do filme demonstra uma fisionomia de alguém que está carregando o mundo nas costas. Os ombros para baixo, mancando, olhar triste. Quando ele se defende pela primeira vez das figuras dominantes, quando é atacado no metrô por três investidores das empresas Wayne, é quando a transformação começa. A cena é brutal e impactante, o tiro vem de forma inesperada e você como espectador já tinha esquecido da arma por debaixo da roupa colorida de palhaço, ele mata os dois primeiros como legítima defesa, mas o terceiro tenta fugir na estação seguinte, ele o persegue até a escadaria e o executa atirando nas suas costas, sem demonstrar remorso.

É nesse momento que ele recupera momentaneamente algum tipo de poder na sua vida, isso fica aparente na mudança da sua postura, como se o peso que o encurvava para ver o mundo de baixo para cima tenha sido retirado momentaneamente, e nesse momento ele olha para o mundo como igual, firme, autoconfiante.

Ele foge da estação, correndo com seus sapatos de palhaço, eufórico, e se tranca em um banheiro que encontra na rua. Aqui que uma das cenas mais bonitas e tristes do filme se desenrola. A música começa a tocar, uma sinfonia melancólica de violoncelo, como se estivéssemos presenciando a morte da inocência de uma criança, e o nascimento de algo diferente, cruel. Ela não está enaltecendo a ascensão e os feitos de Arthur, mas sim a morte dele. A cada nota tocada, Joaquin Phoenix entrega um majestoso balé, seus braços se estendem por toda a tela, como se estivesse alçando voo, e se encara no espelho. Nesse momento, o abismo olha de volta.

A morte dos três personagens causa um levante da população de Gotham, que está cansada de ser tratada como palhaços pelo governo, pela minoria mais rica, e tomam como símbolo o palhaço para seus protestos. Arthur se vê nesse momento pela primeira vez em sua vida como uma pessoa, como reconhecido, ele se questionava sobre sua própria existência, mas agora ela tinha sido validada, para ele as manifestações não eram importantes por conta da causa, mas sim por darem a afirmação de sua existência e que suas ações tinham impacto. O que contrasta com uma de suas últimas frases, já transformado no personagem que conhecemos, quando assume que foi ele quem matou aquelas pessoas, em rede nacional no talk show do personagem de Robert De Niro, Murray Franklin, que se fosse ele na rua morto, as pessoas passariam por cima como se nada tivesse acontecido.

Arthur Fleck só queria ser reconhecido, ele mesmo tinha dúvida se existia. O estado não se importava com pessoas como ele e cortou a verba para seus medicamentos e acompanhamento psicológico. Os políticos desdenharam de pessoas como ele, chamando-as de palhaços. A mídia o ridicularizou, usando sua apresentação de stand up qual mal conseguia falar por conta da sua doença, ironizando sua condição. Era espancado e abusado pelo namorado de sua mãe na infância e acaba descobrindo que é adotado. Sua vida foi uma sucessão de dias ruins, e quando no final do filme ele finalmente é reconhecido pela população, que está causando o caos na cidade, não é por ele ser Arthur Fleck, o comediante com problemas psicológicos fracassado, mas sim como o Coringa. Aqui a música volta a tocar, triste e melancólica enquanto vemos ele dançar para o público caótico de Gotham, que aplaude e vibra com cada movimento do palhaço, nós fazemos o mesmo na poltrona do cinema, estamos ali no meio daquela multidão olhando a dança macabra, enquanto ele sorri por finalmente ter a atenção que sempre quis. Mas a qual preço?

O filme te deixa desconfortável, te faz questionar o que é certo e o que é errado, ele mostra a queda na loucura de uma pessoa e quais extremos ela pode tomar para devolver ao mundo toda a dor que ele infligiu nela, e isso incomoda. Ele serve como um espelho qual ressoa diferente com cada um de nós, acabamos vendo coisas que não gostamos de admitir que estão dentro de nós, mas não justifica as ações tomadas pelo vilão, mas te faz compreender o porque ele toma elas. Não queremos admitir, mas no final estamos andando lado a lado com o Coringa, porque nós mesmo somos cartas no jogo de baralho do mundo, e sabemos que ele é manipulado, mas não sabemos quando o Coringa vai aparecer para mudar o jogo.

Uma curiosidade, enquanto a origem do nome em inglês de Joker é uma brincadeira com a palavra joke (piada), em português ela tem origem na língua africana de Angola, o Kimbundu. Nela, Coringa é derivada da palavra Kuringa, que significa matar.

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