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  • Júlia Lee e Victor Hidalgo

Do fogo ao pó, o Brasil nas mãos de um incendiário


Opinião

O governo de Jair Bolsonaro representa o ápice do desserviço capitalista, entreguista e incendiário

Foto: Reprodução

Existe uma insatisfação no ar, o clima está pesado, cansado, escuro. Ele pode ser traduzido no sentimento de revolta que não atinge somente a população brasileira, mas a do mundo todo. Essa, que surge da gestão dos líderes políticos que parecem não ter nenhum esmero pela vida humana e pela preservação do meio ambiente.

E assim, na sexta-feira (20) de setembro, o mundo entrou na Greve Global pelo Clima. Porém, ao participar do movimento que levou uma população tímida de manifestantes para o vão do Museu de Arte de São Paulo (MASP) no meio da Avenida Paulista, pude perceber uma mistura confusa de motivos e sentimentos, que acabaram por levar uma marcha fúnebre até os pés das escadas da praça Roosevelt - nomeada em homenagem ao presidente estadunidense que ajudou a enfrentar o Eixo durante a segunda guerra mundial - numa vaga esperança de combater o fascismo que agora começa a assombrar o alvorecer do século XXI.

O movimento Fridays For Future (sextas pelo futuro, em tradução livre), liderado pela jovem sueca Greta Thunberg, levou milhares de pessoas às ruas em 160 países no último dia 20 para protestar contra as queimadas e o colapso ambiental. Em seu discurso na Cúpula da Ação Climática das Nações Unidas na última segunda-feira (23), Greta questionou os líderes mundiais: “Pessoas estão sofrendo e morrendo, ecossistemas inteiros estão colapsando, estamos no começo de uma extinção em massa e tudo o que vocês [líderes mundiais] sabem falar é de dinheiro e o conto de fadas do eterno crescimento econômico. Como ousam?”.

No Brasil, entre Agathas e Marielles, a revolta popular sofre com os impactos diários do governo entreguista e autoritário de Jair Bolsonaro (PSL). Os donos do capitalismo estão investindo cada vez mais na derrocada da democracia brasileira, o ano de 2019 vem sendo um teste de resistência para os povos que lutam pela liberdade, e nós estamos lutando internamente por força e união. Apesar da onda fúnebre que assola os movimentos sociais, a necessidade de radicalização precisa do ódio para incendiar os corações contra as queimadas, o colapso ecológico, as mortes e opressão.

Bolsonaro aproveitou o momento cedido para ele na ONU para jogar mais fogo na queimada moral e física que o país está vivendo desde o começo do ano. Se havia alguma esperança de o discurso ser uma reconciliação com os países aliados e a população brasileira, ela virou cinzas assim que começou a falar no microfone. Foi uma das maiores vergonhas que passamos como país, em seu discurso só faltou menção a "terra-plana" e sobre os homens lagartos que junto com a nova ordem mundial, maquinam os rumos das nações por debaixo dos panos.

A mentira e a paranoia se sobressaíram em sua narrativa fantasiosa sobre o Brasil de 2019. Sim, ele foi na frente do mundo inteiro e mentiu. Ele diz que o país esteve “á beira do socialismo”, ao se referir ao programa Mais Médicos, implementado no primeiro mandato da ex-presidenta Dilma Rousseff. Dizendo que os médicos cubanos não tinham nenhuma comprovação profissional. O que é uma informação falsa, os Dados do Tribunal de Contas da União de 2017 mostrou que, dos 18.240 médicos participantes do programa, 5.274 eram formados no Brasil, 1.537 tinham diplomas do exterior e 11.429 eram cubanos e faziam parte do acordo de cooperação com a Opas. A Lei 12.871/2013, que instituiu o programa Mais Médicos, os profissionais precisavam apresentar documentação que comprovasse formação em curso superior de medicina e autorização para exercício da profissão no exterior. Segundo a agência Aos Fatos de checagem. Os comentários foram tão absurdos, que a comissão de Cuba se retirou do discurso de Bolsonaro.

Ele também atacou o líder indígena nomeado ao Nobel da paz, Raoni Metuktire, 86 anos, acusando ele de ser apenas mais um fantoche usado por governos de outros países. Ele também informou que não vai aumentar a demarcação de terras indígenas, aumentando para 20% do território nacional, hoje ela corresponde à 14%. Também usou o momento para criticar o presidente francês, Emmanuel Macron e à premiê alemã, Angela Merkel.

Não acredito que as alegações feitas pelo nosso “líder” venham de uma pessoa ignorante, na verdade acredito que ele seja muito inteligente, e que suas ações são todas calculadas para surtirem exatamente o efeito que estamos vivenciando. Uma coisa que temos que aprender é não subestimar as pessoas, e ao analisar o cenário global e observar as particularidades da nossa situação, negando que os incêndios causados na amazônia foram criminosas, uma ameaça comunista que nunca existiu, que mudanças climáticas não estão acontecendo, enfim. George Orwell escreveu em sua obra profética 1984, às seguintes palavras:

"GUERRA É PAZ

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

IGNORÂNCIA É FORÇA"

E vendo o desempenho e as falas inflamadas de nosso presidente, não consigo me distanciar dessa narrativa pós-apocalíptica, porque cada dia que passa ela se torna nossa realidade, qual a mentira repetida vezes o suficiente se torna a verdade, e segundo o mantra preferido de Jair, que inclusive usou para encerrar sua participação na ONU, “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!” A questão é que a verdade nesse caso, é a dele.

Protestos pelo clima começaram em 2019 com a crescente absurda de queimadas na Amazônia, que desencadeou uma crise internacional com foco no colapso ambiental.

Foto: Victor Hidalgo

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