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Dramaturgo que provoca

Contracultura brasileira


‘Camarim em Cena’ discute teatro brasileiro para além dos palcos e recebe neste sábado (22) em novo episódio Zé Celso


Dramaturgo Zé Celso marcou época na década de 1960 - Foto: Agência Ophélia/ Divulgação



Marcus Vinícius Beck


Em 17 de julho de 1968, minutos antes da meia-noite, a atriz Marília Pêra e o ator Rodrigo Santiago foram obrigados por integrantes do grupo paramilitar Comando de Caça aos Comunistas (CCC) a, sem roupas, saírem à rua. Armados até os dentes, com revólver e soco inglês, os invasores espancaram o elenco e destruíram o cenário. Sim, a arte incomoda. Incendiando o ambiente teatral daquele ano, o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa dirigiu o espetáculo “Roda Viva”, de Chico Buarque, no Rio de Janeiro, onde também houvera um atentado, mas dessa vez a bomba, no Teatro de Arena. Já prenunciava-se o horror que viria com o AI-5, sancionado em 13 de dezembro de 1968.


Partindo do ingênuo texto de Chico sobre a vida de um ídolo da música popular que é explorado pela indústria fonográfica e manipulado pela imprensa, o encenador criou um ritual furioso e provocador, onde os atores vão à platéia para incitá-la. Tudo o que os militares, por assim dizer, não gostavam. E combatiam, com seus métodos agressivos, truculentos e repressores. A peça, considerada um clássico que o crítico Anatol Rosenfeld definiu como “teatro agressivo”, transporta para o palco o sentimento de violência e desconforto em relação a uma situação política tensa e insustentável. Agora, essa história é rememorada.


O Itaú Cultural disponibiliza neste sábado (22) uma edição especial do projeto “Camarim em Cena”, com o diretor, dramaturgo e ator José Celso Martinez Corrêa. O programa tem conversas realizadas entre os anos de 2016 e 2019 na sede do instituto, contando com convidados da dança, do teatro e da música. Na conversa, Zé Celso relembra como era fazer arte nos tempos de repressão política. “Eu sou o teatro brasileiro, de vida o espelho verdadeiro, sambando nesse carnaval com a minha arte, que é imortal”, diz o artista, abrindo o bate-papo e citando o samba “Quatro Séculos de Paixão – História do Teatro Brasileiro”.


“Como diz Dionísio, eu acredito na potência do teatro, no poder da presença diante da presença do poder” - Zé Celso, dramaturgo

Em 2008, para comemorar os 50 anos de “Roda Viva”, Zé Celso remontou o clássico texto de Chico. “Nós compusemos mais músicas”, recorda-se o diretor sobre a nova versão da peça que despertou a fúria dos militares naquele ano que insiste em não terminar. “Então, agora, a versão é do Chico e de toda a Oficina Uzina Uzona. Começamos a reescrevê-la, porque uma série de coisas mudaram. Mas o teatro é assim. Você sempre traz a cada dia um público, a cada dia uma peça. É tudo vivo”, diz. O dramaturgo argumenta ainda que a peça tem uma essência forte, além de sua característica potência narrativa impulsionada pelas músicas do autor de “Ópera do Malandro”.


Um dos expoentes da Tropicália e nome indispensável da contracultura no Brasil, Zé Celso rememora ainda os tempos de prisão e tortura e da época em que viu-se obrigado a ir para o exílio, em Portugal e Moçambique. Do ímpeto da luta, ainda na entrevista concedida ao jornalista e crítico teatral Nelson de Sá, destaca a resistência para manter de portas abertas a sede do Teatro Oficina, em São Paulo, um dos pontos turísticos da cidade e berço da nossa cultura. “Como diz Dionísio, eu acredito na potência do teatro, no poder da presença diante da presença do poder”, ratifica o artista sobre sua companhia e sua atuação no teatro.


Outras obras


Além de consagrar-se com o espetáculo “Roda Viva”, no ano de 1968, o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa montou ainda a peça “As Três Irmãs”, do escritor Anton Tchekhov, na década de 1970. A encenação do espetáculo demonstra a força poética de Zé Celso. Em 1974, isolado pelo pessoal do teatro e buscando novos rumos para sua carreira, transforma seu grupo na comunidade Oficina-Samba, lançando o documento “S.O.S”. É preso pela polícia política da ditadura e vê-se obrigado a ir para o exílio. Em 1978, retorna a São Paulo e passa a atuar como agitador cultural, com projetos que misturavam linguagens artísticas.


Após fazer pequenos eventos anos 1980, retoma a cena com o espetáculo “As Boas”, de Jean Genet, em 1991. Quatro anos mais tarde, faz a leitura de “Mistérios Gozosos”, obra de Oswald de Andrade. E segue encenando gente do calibre de Antonin Artaud, Jean Genet, Nelson Rodrigues e Euclides da Cunha. Para o crítico Yan Michalski, Zé Celso é síntese da efervescência dos anos 60. “Foi o encenador mais aberto a idéias ousadas e sempre renovadas, e capaz de realizar, a partir delas, espetáculos surpreendentes, generosos, provocantes, excepcionalmente inventivos”, escreve Michalski, em “Pequena Enciclopédia do Teatro Brasileiro Contemporâneo”.

Serviço

‘Camarim em Cena’ com Zé Celso Martinez Corrêa

Mediação: Nelson de Sá

Quando: dia 22 de agosto (sábado)

Horário: a partir das 14h

Onde: www.itaucultural.org.br


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