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“E daí? Lamento. Quer que eu faça o que?”

Yanomami

Comunidades indígenas sofrem com o descaso do Governo Federal, e Fórum de Lideranças Yanomami e Ye'kwana continuam a campanha contra o genocídio de sua população

Novo vídeo da campanha #ForaGarimpoForaCovid


Júlia Aguiar


“E daí?”, afirma o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à imprensa em frente ao Palácio da Alvorada, no último dia 28 de abril. “Lamento. Quer que eu faça o que? Eu sou Messias, mas não faço milagres”, continuou o Presidente. Na ocasião, o Brasil tinha perdido mais de 5 mil pessoas para o novo coronavírus, passando o número de mortos da China, país de origem do vírus. Hoje, em meados de agosto, temos mais de 101 mil mortos pela doença.


A frase é tema de slogan do novo filme da campanha “Fora Garimpo, Fora Covid”, uma iniciativa do Fórum de Lideranças Yanomami e Ye'kwana em parceria com as organizações: Hutukara Associação Yanomami (HAY), Associação Wanasseduume Ye'kwana (SEDUUME), Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK), Texoli Associação Ninam do Estado de Roraima (TANER) e Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (AYRCA).


O filme “E Daí?”, lançado na última terça-feira (11), reintegra a necessidade de atuação do estado para salvar as vidas indígenas. "E daí que só uma coisa pode nos salvar: desintrusão já!", afirma Dário Kopenawa Yanomami no vídeo.


Tendo em vista a necessidade de pressionar as autoridades do Estado Brasileiro, a campanha #ForaGarimpoForaCovid criou uma petição pela desintrusão do garimpo ilegal no território Yanomami, tendo mais de 360 mil assinaturas, porém ainda é necessário 135.420 assinaturas para a petição ser enviada as autoridades.

Assine a petição: https://www.foragarimpoforacovid.org/

Garimpo

Imagem retirada do estudo feito pelo ISA


Com uma população de 27.398 indígenas, em 331 comunidades - incluindo os grupos isolados, a Terra Indígena Yanomami (TIY) possui área de 9,6 milhões de hectares entre o Amazonas e Roraima, sendo a maior reserva indígena do planeta. Segundo estudo feito pelo Instituto Socioambiental (ISA), em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e revisão da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), estima-se que 13.889 indígenas (50,7% da população da TIY) residem a menos de cinco quilômetros das áreas de invasão garimpeira, que já soma em 20 mil garimpeiros.


Os garimpos são instalados ilegalmente em acampamentos, e em algumas regiões os garimpeiros mantém serviços permanentes de abastecimento e até mesmo comunicação via satélite. Segundo a pesquisa feita pelo ISA, o aumento da cotação internacional do ouro e o enfraquecimento das políticas públicas de preservação ambiental são os principais motivos para a nova corrida do ouro em Terras Indígenas Yanomami (TIY). O instituto Socioambiental monitora o avanço do garimpo ilegal por meio de imagens de satélite, e a partir do sistema batizado “Sirad”, foi possível a identificação do garimpo ao longo dos rios, “com a chegada de satélites de alta resolução espacial, essas imagens têm mostrado a enorme destruição que o garimpo ilegal tem causado no interior da TIY”, afirma o estudo.


A pesquisa mostra que 1.925,8 hectares de florestas já foram degradados pelo garimpo ilegal. O motivo é a complexa rede de financiadores articulados nacional e internacionalmente, que continuam a fornecer insumos, como mercúrio, alimentação, combustível, etc e equipamentos tais como barcos, balsas, avião e helicópteros aos garimpeiros.


Nos últimos dez anos, operações conjuntas da Polícia Federal (PF), Ministério Público Federal (MPF) e Exército avançaram na investigação da cadeia do ouro em Roraima. As operações Xawara (2013), Warari Koxi (2015) e Tori (2018) investigaram o trajeto do ouro extraído ilegalmente das TIY. No final de 2019, a operação Hespérides denunciou uma organização criminosa responsável pela comercialização do ouro ilegal extraído no Brasil e na Venezuela. Porém, grande parte dos processos que resultaram dessas investigações seguem inconclusos e sem julgamento, o que acaba estimulando a continuidade da atividade ilegal, já que ninguém é punido pelo caso.


Em 2018, houve o fechamento de quatro Bases de Proteção Etnoambiental (BAPEs) da Funai, tendo um aumento inédito do garimpo desde 1990. Entretanto, no dia 17 de junho de 2020, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) acatou pedido do Ministério Público Federal (MPF), determinando a reabertura imediata das BAPEs em Terras Indígenas Yanomami. No parecer, a desembargadora federal Daniele Maranhão determinou, inclusive, que a União, o estado de Roraima e a Fundação Nacional do Índio (Funai) sejam obrigadas a realizar ações de fiscalização e repressão ao garimpo ilegal.


Coronavírus


O controle da pandemia é um desafio global. E, o acompanhamento dos casos de covid-19 em Terras Indígenas Yanomami (TIY) passa por desafios complexos, pois poderiam ser evitados caso houvesse maior engajamento do Governo Federal. Embora exista um enorme esforço da Rede Pró Yanomami e Ye'kwana para manter um número extra-oficial que informe a dinâmica de notificação, os relatórios não refletem necessariamente a extensão da pandemia nas TIY.


Afinal, existe uma enorme ausência de dados sobre a população indígena, dados esses que deveriam ser coletados pelo estado. É recorrente que terras indígenas ainda não homologadas não entre na base de dados, o que inclui citadinos e populações que aguardam a finalização do longo processo de demarcação de suas terras.


Segundo a campanha “Fora Garimpo, Fora Covid”, as comunidades mais próximas às zonas garimpeiras já registram um aumento de 30% no contágio da doença, comparado com os dados do estado de Roraima, um dos mais infectados no Brasil.


No contexto das comunidades indígenas, o cenário é de que uma vez que a covid-19 chegue e se propague dentro da comunidade, a taxa de transmissão pode se tornar muito alta. O isolamento social é a principal forma de prevenir o novo coronavírus, tendo em vista que essas comunidades culturalmente compartilham não somente utensílios, como casas comunais circulares chamadas de “yanos” ou “shabonos”, os estudos indicam que uma pessoa pode contaminar toda a comunidade rapidamente.


Segundo o estudo feito pelo Instituto Socioambiental, se nada for feito cerca de “40,3% da população Yanomami atendida nos 14 polos base em regiões de garimpo, de risco crítico, estariam infectadas. Se a letalidade for duas vezes maior do que a população não indígena, teremos entre 207 a 896 óbitos, adotando as taxas dos Estados de Roraima e Amazonas, respectivamente”, afirma estudo divulgado em junho deste ano.


Na terça-feira, os dados divulgados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) demonstram que já são 23.712 casos confirmados da doença, 658 óbitos e são 148 povos afetados.

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