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Efeito político-judicial

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Em novo livro, escritor Cristovão Tezza situa bolsonarismo como pano de fundo de uma história racional e emotiva

Escritor Cristovão Tezza em sua casa em Curitiba (PR), no ano de 2018 - Foto: Denis Ferreira Netto/ Agência Estado/ Reprodução


Marcus Vinícius Beck


Cristovão Tezza, 67, tinha um eixo narrativo: um pirateiro da internet que baixa filmes para a mãe, de 80 anos, assistir. Trata-se de um perfil intrigante: um professor de química, nerdão da informática, filho adotado, com um casamento fracassado. O sujeito apaixona-se por uma mulher. Mas, sendo a escrita um ofício sobretudo de lapidação, a história foi ganhando contornos próprios. “As figuras foram surgindo, e a partir de uma brincadeira de uma aluna sobre a legalidade de baixar filmes da internet, abriu-se súbito o mundo político-jurídico contemporâneo para eu explorar no romance”, diz Tezza ao Jornal Metamofose.


Em “A Tensão Superficial do Tempo”, publicado pela Todavia, as distintas fases da vida do protagonista professor de química – acostumado, digamos, com a racionalidade das reações moleculares – percorrem o enredo. Cândido vive em Curitiba, cidade cujos efeitos das operações policiais e judiciais se fazem sentir, e tem participação societária num cursinho pré-vestibular. “Eu senti que esse de fato seria o pano de fundo da história”, confessa o autor. De certo modo, revela Tezza, foi um livro feito “em tempo real”. “Escrevi de janeiro a dezembro de 2019, e o noticiário cotidiano acabou entrando por osmose em cada página”.


Acomodado em um banco de parque, sem dar o ar de sua graça há dias, Cândido assiste as pontas de sua vida se encontrarem e os nós se desatarem. Em 15 minutos - o resto é uma digressão emotiva e racional-, o personagem vê tudo passar em sua frente: o fim do antigo casamento, as pretensões profissionais esmagadas, o novo afeito negado, a vida se dissolvendo a partir da espetacularização da guerra política e social. Tezza, demonstrando toda sua habilidade como ficcionista, usa a turbulência recente do País para investigar os pontos de contato entre público e privado, entre política e intimidade, entre desejo e solidão.


“Processos cotidianos que se identificavam com lazer, com limites claros, por exemplo, ou espaços naturais de isolamento, ou trabalho profissional específico no tempo e no espaço, tudo isso virou uma barafunda universal, e frequentemente violenta”, afirma. Tezza comenta ainda que o conceito de privacidade, “que é tipicamente analógico — eu aqui, você ali”, diz referindo-se ao repórter, “embaralhou-se em nossa sociedade”. “Parece que para o mundo contemporâneo a definição da própria personalidade depende desta ausência de privacidade. É muita coisa ao mesmo tempo acontecendo, não só pela quantidade de informação mas pela sua simultaneidade”, reflete o autor.


Numa das cenas do romance, um colega de Cândido diz que a situação política brasileira está tão maluca ao ponto levá-lo a ter uma “paralisia argumentativa”. Mas Tezza deixa claro na entrevista que esse tema não é o foco do livro. “O bolsonarismo é um pano de fundo do romance, não o seu tema central”. Ainda assim, a obra detém o título de ser uma das primeiras a abordar com propriedade o Brasil fardado. Para o escritor, no entanto, a razão pela qual elegeu-se um saudosista da caserna para a presidência é uma questão que “vai permanecer em aberto por muito anos”. “Entramos num silêncio paralisante. E isso em plena pandemia, com índices de mortes que nos envergonham todos os dias”.


“Ao meu ver, um modo equivocado de entender o presente momento é vê-lo como um embate tradicional entre direita e esquerda, entre um ideário privatizante e outro, digamos, social ou socializante”, sentencia Tezza. Nas tragédias clássicas, continua o escritor, o destino é inexorável e inescapável. “Mas felizmente, é minha esperança, nada é inexorável na vida política de um país”, arremata. Um dos mais célebres escritores da literatura brasileira contemporânea, o catarinense de Lage, Cristovão Tezza, mostra por que abocanhou os prêmios Jabuti e Portugal Telecom. Sua literatura, hoje mais do que nunca, é necessária. É um alento em dias tortuosos, eu diria.


Ficha Técnica

'A Tensão Superficial do Tempo'

Autor: Cristovão Tezza

Editora: Todavia

Gênero: Romance