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Entre fato e ficção

Cinema

Obra ‘Novas Fronteiras do documentário: Entre Factualidade e Ficcionalidade’ discute tendência contemporânea de romper com a divisão entre ficção e realidade

Documentarista Patricio Guzmán é um dos maiores nomes do cinema de não-ficção da América Latina - Foto: Reprodução


Marcus Vinícius Beck


“Um país que carece de documentário é como uma família que carece de um álbum de fotografias”, disse o documentarista chileno Patricio Guzmán. Autor de filmes com pegada histórica, Guzmán tornou-se especialista na ditadura civil e militar de Augusto Pinochet ao conceber a trilogia “La Batalla de Chile” (“A Batalha do Chile”, em português), com a qual retratara o último ano de Salvador Allende à frente do Palácio La Moneda. A obra, segundo a revista Cineaste, figura entre as dez melhores películas políticas do mundo. É dividida em três partes: “A Insurreição da Burguesia” (1975), “O Golpe de Estado” (1976) e “O Poder Popular” (1979).


A referência ao cinema documental de Guzmán abre o livro “Novas Fronteiras do Documentário: Entre a Factualidade e Ficcionalidade”, lançado durante a pandemia de coronavírus pelo especialista em Cinema Documentário e mestre em Educação, Arte e Histórica da Cultura, Piero Sbragia. Com depoimentos de cineastas da área, a obra discute a tendência contemporânea de romper a divisão entre o que é considerado ficção e o que é fato. Em suas 484 páginas, o texto preocupa-se em tecer um panorama da produção audiovisual ao longo do século 21 por meio de análise sobre a convergência de gêneros cinematográficos.


Sbragia realizou entrevistas inéditas e exclusivas, entre janeiro e março deste ano, com 10 documentaristas brasileiros que possuem reconhecimento mundial. “Penso que o cinema documental brasileiro hoje é vanguarda no mundo! Tanto do ponto de vista estético, com novos filmes que provocam na forma, quanto nas subjetividades e temas”, diz o estudioso, por e-mail, ao Jornal Metamorfose. O Brasil, continua ele, possui jovens cineastas dispostos a produzir, mesmo com os achaques que o audiovisual sofre por causa de um governo que não acredita no cinema brasileiro, patrocinando políticas de “apagamento” da memória audiovisual.


“As leis de incentivo hoje são praticamente inexistentes. Existem pequenas iniciativas locais, geralmente de prefeituras, estados ou empresas, mas me parece não ser suficiente para suprir a demanda”, lamenta Sbragia, que migrou do telejornalismo para o cinema documental há sete anos. Ainda assim, ele não tem dúvida: esse cenário adverso é incapaz de frear a produção do documentário brasileiro, e o raciocínio faz sentido. Em Goiás, por exemplo, o longa “Parque Oeste”, de Fabiana Assis, obra que reconstitui a desocupação do Parque Oeste Industrial, venceu a Mostra Olhos Livres, no Festival de Tiradentes, em janeiro do ano passado.


“Os jovens me parecem ter absorvido aquela máxima de Gláuber Rocha, que vale uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Fazer documentário hoje no Brasil é resistir!”, diz o pesquisador. Sbragia argumenta ainda que é importante não apenas fazer documentários, mas também pensar o gênero cinematográfico. “Durante esses sete anos em sala de aula, como professor universitário, sempre ouvi de minhas alunas e meus alunos sérios questionamentos sobre a produção literária a respeito dos documentários. As alunas e os alunos têm razão ao dizer para mim que há poucos livros que debatam esse gênero de cinema”, relata.


Pós-verdade


Em tempos onde o fato tem menos relevância que apelos emocionais e crenças pessoais, a delimitação entre factualidade e ficcionalidade torna-se, por vezes, espinhosa. Como analisar, por exemplo, “o genocídio negro cometido pelas forças policiais no Brasil”? Para o professor Piero Sbragia, autor da obra “Novas Fronteiras do Documentário: Entre a Factualidade e Ficcionalidade”, é preciso ir além dos números, ouvir familiares, compreender o contexto e, sobretudo, reconhecer privilégios. Ele questiona: “Quem conta as histórias que ouvimos? É claro que os privilegiados que detém o poder e se aproveitam desse cenário.”


Sbragia crê também que o fato em si, na contemporaneidade, está desprovido de sentido. “Por isso eu acredito fortemente no trabalho dos jornalistas. E o documentário brasileiro tem uma origem no jornalismo, Eduardo Coutinho é o grande exemplo de jornalista que migrou para o cinema documental. É claro que essas fronteiras cada vez mais ínfimas entre fato e ficção podem ser usadas para o bem ou para o mal”, explica. Por quê? Ora, ele diz, “eu jamais faria um documentário sobre o conceito estúpido da Terra Plana, a não ser que seja para contestá-lo. Penso que os documentaristas deveriam ter essa responsabilidade, como se fosse um lastro, um equilíbrio”.


“Novas Fronteiras do Documentário: Entre a Factualidade e Ficcionalidade” – além de auxiliar estudantes de cinema e jornalismo que curtem a narrativa de não-ficção – é divido em três partes: as duas primeiras partem da dissertação de mestrado “Andarilho: Cao Guimarães e o Documentário Entre Factualidade e Ficcionalidade”. Sbragia, que tem em seu currículo a realização dos curtas-metragens “Descobrir: Os Criadores de Saci” (2014), “Em Refúgio, Um Documentário Sobre Possibilidades” (2018), em parceira com a ONU, e “Uma Bala” (2018), sobre o assassinato de Marielle Franco, revela que não teve pretensão, na obra, de mergulhar na história do documentário brasileiro. “Carlos Alberto Mattos já fez isso muito bem”, resume.


Ficha Técnica


Novas Fronteiras do Documentário: Entre a Factualidade e Ficcionalidade’


Autor: Piero Sbragia

Gênero: Não-Ficção

Editora: Chiado Books

Preço: R$46


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