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Fitzgerald ri de Hollywood em livro de contos

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Escritor narra desventuras de roteirista na indústria do cinema em meio ao fervor da Segunda Grande Guerra


Escritor Scott Fitzgerald marcou época na literatura produzida no século 20 - Foto: Reprodução


Marcus Vinícius Beck


Scott Fitzgerald aproveitou à beça a chamada “era do jazz”: festas, viagens e bebedeiras. Era bom de copo, o Scott – ao ponto de, em “Paris É Uma Festa”, Ernest Hemingway atestar, com aquela propriedade destinada aos bêbados experientes, a habilidade etílica do amigo. Ao longo de sua vida, a paixão de Fitzgerald por drinques – aliado ao olhar clínico e certeiro que tinha do estilo de vida norte-americano – embalou-o a conceber obras que tornaram-se clássicos da literatura produzida no século 20. “O Grande Gatsby” é um exemplo. “Suave É A Noite” é outro. Mas nenhuma dessas é tão hilária quanto “As Histórias de Pat Hobby”.


Com um ritmo textual fluído que é garantia de boas gargalhadas, Fitzgerald tirou vantagem de sua experiência, bastante turbulenta, na indústria hollywoodiana para narrar as agruras sem limites de um decadente operário do texto, que viveu o apogeu do cinema mudo (na década de 20) e, após os anos gloriosos à base de requintes financeiros, vive implorando por um trampo, por um drinque, por um flerte, todavia sem ser necessariamente nessa ordem, é importante ponderar. “Para pedir dinheiro emprestado com elegância, é preciso escolher o momento e o local”, aconselha Hobby, protagonista de “As Histórias de Pay Hobby”.


Publicadas originalmente na revista Esquire entre janeiro de 1940 e maio de 1941, as 17 histórias foram lançadas no Brasil neste ano pela editora Todavia. E passadas oito décadas e mais alguns anos da primeira vez em que elas foram impressas, os textos continuam a gerar risos, alegrando e divertindo – além, naturalmente, de proporcionar uma oportunidade para degustar da boa literatura. “As coisas andam difíceis”, afirma um produtor para o lamurioso roteirista, “não podemos pagar um salário para um sujeito a menos que ele tenha uma idéia”. Hobby, caboclo sagaz, emenda: “Como é que eu posso ter ideias sem receber salário?”.


Pat Hobby é, por assim dizer, o alter-ego de Fitzgerald, quase uma cópia ficcional do romancista americano. Além da relação abusiva a que ambos foram submetidos nos escritórios hollywoodiano, há em comum entre eles o gosto pelas mulheres e pelo álcool. Pat era funcionário da indústria cinematográfica desde os 30 anos – no livro o cara está com 49, e continua descapitalizado e desprovido de emprego. É, de certo modo, o caminho a ser trilhado por todos os proletários. Fitzgerald trabalhara com cinema nos anos 30 – um adendo: submeter-se ao ofício de lapidar roteiros também seduziu o escritor, William Faulkner.


Em “As Histórias de Pat Hobby”, o autor de “Contos da Era do Jazz” escancara sua vocação para recriar atmosferas de uma época que povoa o imaginário coletivo da sociedade ocidental. E como só os talentosos da escrita sabem fazer, Fitzgerald comprova a sua sensibilidade para expressar as nuances do fracasso humano no seio do capitalismo esquizofrênico, onde quanto mais embalado pelo bálsamo mal-cheiroso da falta de escrúpulos, melhor será, mais destaque se terá. Se em “O Grande Gatsby” ele consagrou-se como um gênio da narrativa, aqui mostra a desenvoltura com que maneja linguagem.


Nascido em 1896, Scott Fitzgerald é muito mais do que um expoente da chamada Geração Perdida: é um brilhante esculpidor de palavras. Em vida, como se tal marasmo fosse um clichê que não se cansa de repetir, penou para obter reconhecimento. Apenas na segunda edição de “O Grande Gatasby” é que começou a ganhar uma grana, mas fracassou solenemente em “Suave É A Noite”. “É certo que com Scott Fitzgerald aconteciam de fato coisas estranhas, mas dessa jamais consegui esquecer-me”, escreveu Hemingway, em “Paris É Uma Festa”, ao relatar uma cena com "pessoas inexpressivas". Por isso a obra de Fitzgerald é tão hilariante.


Ficha Técnica

‘As Histórias de Pat Hobby’

Autor: Scott Fitzgerald

Gênero: Ficção

Editora: Todavia

Preço: R$ 49,90 (impresso) e R$ 29,90 (E-book)



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