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Floresta do Camboatá é ameaçada

Meio Ambiente


Terreno pode virar autódromo, colocando em risco 82 espécies de árvores, 48 tipos de mamíferos e 92 de pássaros

Floresta Tropical no Brasil - Foto: Divulgação


Júlia Aguiar


Imagine um bioma de floresta tropical, que abrange o leste, sudeste e sul do Brasil, além do Paraguai e Argentina. Essa é a Mata Atlântica, uma das 34 áreas prioritárias de conservação ambiental no mundo, com alta biodiversidade e infelizmente, maior índice de ameaça ambiental. Com mais de 20 mil espécies de plantas, sendo oito mil espécies exclusivas desse bioma latino, com mais de 1,6 milhões de espécies de animais.

Último trecho plano de Mata Atlântica na cidade do Rio de Janeiro, localizada no bairro de Deodoro, Zona Norte, a Floresta de Camboatá é ameaçada por empreendimento milionário para a construção de um novo Autódromo.

Com cerca de 194 hectares, área equivalente a quase 200 campos de futebol, Camboatá também intercala três grandes montanhas: Tijuca, Pedra Branca e Mendanha Gericinó. São mais de 200 mil árvores ameaçadas, 48 tipos de mamíferos, 92 de pássaros, inúmeras espécies de répteis e micro-organismos. A floresta retém 1 milhão de metros cúbicos de chuva, se desmatada, bairros ao redor podem sofrer com futuras inundações.

Segundo o ambientalista Rogério Rocco, desmatar a Floresta de Comboatá pode provocar mudanças climáticas no subúrbio do Rio de Janeiro, onde a floresta está localizada. “Estamos falando de uma região que registra os maiores índices de temperatura na cidade, esses fragmentos florestais ajudam na diminuição do microclima local”, explica o ambientalista em entrevista ao Jornal Metamorfose.

Pesquisas do Jardim Botânico sobre a área indicam que a Floresta de Camboatá, por estar localizada entre três montanhas é um importante ponto de passagem para pássaros nativos que espalham sementes por toda região. Esse corredor representa um potencial imenso de manutenção natural para toda a fauna e flora do local.

A Floresta de Camboatá também tem espécies em extinção como o jacarandá-da-bahia e a garapa. Os estudos indicam que as florestas baixas praticamente desapareceram do município do Rio de Janeiro, sendo essa uma área que sobreviveu meio ao desenvolvimento urbano da Zona Norte da cidade.

O Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima), apresentado na Alerj em 13 de agosto, aponta que existem outras quatro alternativas para a construção do Autódromo em áreas que não tem cobertura florestal.

Os mapas do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) afirmam que a Floresta de Camboatá contém quatro áreas de preservação permanente, duas de margens de rios e duas de nascentes. “Apesar de constar no mapa do Inea, a equipe do estudo de impacto ambiental foi averiguar e não encontrou nenhuma nascente, portanto eles desconsideram as nascentes para desqualificar essas áreas de preservação. Acontece que eles não fizeram uma análise hidrológica do solo, não apontando a profundidade dos lençóis freáticos. Eles fizeram uma análise incompleta, falaciosa”, afirma Rocco.

O estudo de impacto ambiental é elaborado pelo empreendedor, que contrata uma equipe multidisciplinar que realiza o estudo. O objetivo é colocar os impactos positivos e negativos de um empreendimento, além de listar medidas mitigadoras e compensatórias, para minimizar e compensar impactos ambientais. Segundo o estudo feito sobre as áreas de preservação permanente (APP) de Camboatá, as margens de rios estão nas bordas da floresta, não sofrendo impacto com a construção do Autódromo, porém o ambientalista Rogério Rocco afirma que essa informação é falsa.

“A Lei Orgânica Municipal e o Plano Diretor Municipal, além da Constituição do Estado do Rio de Janeiro, definem que as florestas nas quais haja espécies ameaçadas de extinção são consideradas áreas de preservação permanente. Eles (empresa) mentem quando dizem que ali só há duas APP, pois pela lei toda a Floresta de Camboatá é considerada Área de Preservação Permanente (APP)”, explica Rocco em entrevista ao JM. As APPs admitem intervenções somente de interesse público, social ou baixo grau de impacto, sendo considerado ilegal a construção do Autódromo na região, segundo o ambientalista.

Autódromo

Em junho de 2018, o Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sugeriu ao prefeito do Rio de Janeiro, Marcello Crivella, que a Floresta de Camboatá seja usada para a construção de um novo autódromo, trazendo a GP do Brasil de Fórmula 1 para a cidade. O contrato com São Paulo, onde o campeonato ocorre atualmente, acaba em 2020.

O valor da proposta para o Rio é de aproximadamente 65 milhões de dólares, aproximadamente 353 milhões de reais, para que o torneio fique no Rio de Janeiro por 10 anos. Em dezembro de 2018, a Secretaria de Esporte do Rio de Janeiro aprovou projeto para captação de R$ 302 milhões em incentivos fiscais para que a cidade receba o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 em 2021 e 2022.

A licitação de construção do novo autódromo foi concedida ao consórcio Rio Motorpark. O projeto tem consultoria da Crown Consulting, com gestão esportiva da CSM, e projeto arquitetônico do alemão Hermann Tilke com as empresas B+ABR Backheuser e Riera, além da Tilke Engineers & Architects.

O Ministério Público Federal (MPF) aponta que o presidente da Rio Motorpark, José Antonio Soares Pereira Júnior, é sócio da Crown Assessoria, que ajudou a montar o edital. O MPF ainda cobrou da Rio Motorpark comprovantes de que a empresa possui 1% do valor estimado do empreendimento, ou seja, cerca de 6 milhões do investimento de 697 milhões orçados. Criada poucos dias antes da licitação, a Rio Motorpark declarou ter capital social de 100 mil reais. O MPF enviou notícia-crime para o Ministério Público do estado do Rio de Janeiro (MPRJ), que investiga o caso.

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