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Foi-se o mestre

Atualizado: Mai 12

Luto


Escritor Sérgio Sant´Anna morreu neste domingo (10), no Rio de Janeiro, em decorrência da Covid-19. Sua obra entra para o panteão dos clássicos da nossa literatura


Escritor Sérgio Sant´Anna retratou a cultura brasileira com singularidade – Foto: Ricardo Borges/ Folhapress/ Reprodução


Marcus Vinícius Beck


Futebol e literatura andam de mãos dadas. São como dois namorados embriagados nas esquinas da paixão. Escalar o time dos gênios das palavras que, eventualmente, ou em todo momento de suas criações verbais, flertaram com o ludopédio é uma tarefa difícil, bota difícil: Eduardo Galeano, Vinícius de Moraes, Ferreira Gullar, Glauco Mattoso, Nelson Rodrigues e Arnando Nogueira são alguns dos estilistas do texto que narraram saborosas histórias, seja no conto, na poesia, na crônica ou no romance, sobre o esporte mais popular do planeta. O mais singular deles, todavia, é Sérgio Sant´Anna, figura central de nossa literatura.


Sant´Anna era torcedor fanático do Fluminense, clube para o qual dedicou seu último conto publicado na semana retrasada no caderno Ilustríssima, da Folha de São Paulo. O escritor estreara na literatura em 1969 com o livro de histórias curtas “O Sobrevivente”, obra que o levou aos States após conseguir bolsa no Internacional Writing Program da Universidade de Iowa. Mas Sant´Anna firmou-se como um dos grandes da literatura brasileira contemporânea com “Notas de Mafredo Rangem, Repórter” (1973). Na obra, afunilou as características que se fariam presentes em sua produção: a diversidade de forma, tema, extensão e estilo.


Sant´Anna mudou a cara do conto brasileiro na década de 1970 - Foto: Daniel Marenco/ Folhapress/ Reprodução



Como poucos artistas do verbo, Sant´Anna escreveu sobre futebol captando com singularidade o espírito do ludopédio para a cultura de nosso País. “Machista, inseguro, o brasileiro, em geral, acha o suprassumo da humilhação levar uma bola “entre as pernas” num jogo de futebol”, atesta o escritor no conto “Na Boca do Túnel”, texto que integra a coletânea “Literatura e Futebol”, da extinta Revista Bravo! Ao ler sua obra, o leitor encontra um mestre da narrativa curta, do gabarito do paranaense Dalton Trevisan e do mineiro Rubem Fonseca, com certeza um autor que fez tudo o que é possível com as palavras.


“Para assistir a treinos só vêm mesmo os fanáticos, alguns sócios, a garotada matando aula, alguns desocupados daqui de Laranjeiras. Meu posto é privilegiado, não só pela posição que ocupo no gramado, como pelo fato de estar defendendo a baliza defendida pelo Castilho, o maior goleiro do Brasil. Isso nem se discute”, escreve o escritor em “Das Memórias de Uma Trave de Futebol”, seu último conto. “Castilho treina entre os reservas, para ser mais exigido pelo ataque titular. Nada menos que Telê, Didi, Valdo, Átis e Escurinho. Mas Didi é meia armador e um exímio cobrador de faltas, que bate com sua famosa folha seca”.


Em sua obra, Sant´Anna também dialogou com as artes plásticas, o teatro e o cinema. Tinha um estilo único. Promovia uma mistura de gêneros a fim de dar um carácter sui generis à sua literatura. Seus livros mais famosos são “Confissões de Ralfo” (1975), “Um Crime Delicado” (1997), “O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro” (1983). Os textos foram publicados pela Companhia das Letras. O escritor dizia que “gostava de gostar” da literatura brasileira. Antes de morrer, tinha terminado uma novela e dois contos, ambos publicados durante a pandemia na Folha de S. Paulo e na Época. Em 2017, lançou seu último livro, “Anjo Noturno”.


Escritor Eric Napomuceno entrevista mestre do conto Sérgio Sant´Anna - Imagens: Programação Sangue Latino/ Reprodução


Embora tenha vivido por 12 anos em Belo Horizonte (MG), Sérgio Sant´Anna é dono de uma obra genuinamente carioca. Seus textos eram experimentais, com a genética do contista, porém não lhe faltava humor. Produziu, produziu e produziu nos últimos tempos. O escritor, guiado pela ideia da morte, debruçou-se sobre o desejo carnal, o amor e a solidão. No entanto, essas palavras transgressoras não ficaram restritas apenas ao mundo literário, ganhando as telas do cinema no longa-metragem “Bossa Nova”, do cineasta Bruno Barreto, e em “Um Romance de Uma Geração”, filme de David França Mendes, de 2008.


Nos últimos tempos, como todo sujeito temeroso com o revivel fardado, Sant´Anna via com maus olhos a disseminação do autoritarismo promovido por aquele ex-capitão atirado para fora do quartel por maluquice. “O Brasil é um filme de terror”, disse o escritor em seu Facebook, pouco antes de morrer. Neste filme, cujo roteiro distópico é previsível, a partida do nosso maior contista não será exaltada, tal como foi a do MC Reaça, desprezível ‘cantor’ e ‘compositor’, pelo inquilino do Alvorada. Nascido em 30 de outubro de 1941, o falecimento de Sant´Anna mostra que ninguém está a salvo do coronavírus. Adeus, estilista do texto!


Conheça três livros essenciais de Sérgio Sant´Anna


‘O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro’ (1983)


Esta obra, que laureou o escritor com o prêmio Jabuti, reúnem os melhores contos do autor. Os textos mesclam o pop e o erudito numa fluidez profana, coisa de mestre.


‘O Voo da Madrugada’ (2003)


Aqui o leitor se depara com histórias humanas repletas de erotismo e com a paranoia da morte percorrendo todas as páginas. Sant´Anna estava no auge, em sua melhor forma, dando aula de conto para quem quissesse ver e ler.


‘Amazon’ (2019)


Publicado originalmente em 1986, o romance chocou o público por retratar, com linguagem transgressora, a libertação da mulher. Também abordava a questão da política no Brasil, que caminhava em direção à transição democrática.

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