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  • Marcus Vinícius Beck

Haja dor de cotovelo!


Música

Lupicínio Rodrigues completaria 105 anos nesta semana; reveja seu legado musical

Foto: Lupicínio Rodrigues - Reprodução

“Foi quando eu fui noivo pela primeira vez e encontrei a minha noiva de braço com um cidadão e ela me disse que se casaria com o primeiro sujeito que ela encontrasse" - Lupicínio Rodrigues, em entrevista à TV Cultura, em 1972

Se você nunca se apaixonou na vida, por favor, pare de ler esta matéria agora mesmo! Mas se você já chorou as dores do amor está na página certa do jornal. E, por gentileza, antes de mais nada, seja bem-vindo à genialidade musical do cantor e compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914-1974), que completaria nesta semana – caso fosse vivo – 105 anos. Tim-tim, viva a boemia nossa de cada dia, haja coração, se abanque, meu velho!

Pois bem, para rememorar, vamos lá: suas canções embalaram encontros, desencontros, despedidas, paixões e traições que ajudaram a disseminar o termo música ‘dor de cotovelo’. Lupa, como era conhecido desde a infância, teve vários sucessos imortalizados nas vozes de nomes consagradíssimos da Música Popular Brasileira (MPB), como Elza Soares, Paulinho da Viola, Gal Costa, Marisa Monte, Gilberto Gil, Caetano Veloso e tantos outros.

Contudo, nem só de sofrência vivia Lupicínio. Fanático por futebol – era torcedor fervoroso do Grêmio –, foi responsável pela autoria do hino da equipe porto-alegrense. Além disso, compôs célebres marchinhas carnavalescas. Todas as criações eram inspiradas pela paixão à vida noturna, o que levou seu pai a lhe obrigar a se alistar no Exército, quando ainda era adolescente. Mas os esforços não foram suficientes para que o mestre abandonasse a vida ‘mardita’.

No quartel, compôs a famosa marchinha “Carnaval”, que fora escrita para o cordão carnavalesco Prediletos. Lupicínio, no entanto, insistia que não era compositor, nem nada disso. Apenas boêmio. Chegou a ser proprietário de bares e churrascarias na capital gaúcha. Atribuía à vida noturna seu lado sentimental e a inspiração para canções do calibre de “Vingança”, “Felicidade”, “Loucura” e “Volta”. Nesta época, as rádios veiculavam músicas feitas no eixo Rio-São Paulo.

É claro que a força lírica de Lupicínio Rodrigues não merecia ficar enclausurada no sul do País. Com o passar dos anos, sua música passou a fazer sucesso nas rádios e a ser reconhecida como clássicos do samba. Em entrevista à TV Cultura, em 1972, o gaúcho disse que a inspiração vinha da própria vida que levava. “Foi quando eu fui noivo pela primeira vez e encontrei a minha noiva de braço com um cidadão e ela me disse que se casaria com o primeiro sujeito que ela encontrasse", relatou ele.

Com vocês, o mestre Lupicínio: "Você sabe o que é ter um amor, meu senhor/ Ter loucura por uma mulher/ E depois encontrar esse amor, meu senhor/ Nos braços de um tipo qualquer", canta o gênio, enquanto este escriba faz um esforço danado para homenagear aquele que é um papa sentimental dos cornos de norte a sul deste Brasilzão. “Depois de encontrá-lo em um braço/ Que nem um pedaço do seu pode ser/ Há pessoas de nervos de aço”, lamuria-se, em “Nervos de Aço”.

Aff, senhoras e senhores: Lupicínio saiu de cena em 1974, após complicações cardíacas, mas seu legado perpetua até hoje no samba brasileiro. Não há uma viva alma, nunca, jamais existirá, tão educadora amorosamente neste planeta que tenha sentido as dores do amor. Com um trago de uísque, a música do gênio do samba gaúcho ecoa pelo alto-falante e nos humaniza. Os homens ‘precisamos’ da dor de cotovelo para seguir em frente.

Foto: Sambista gaúcho foi um dos responsáveis por modernizar e popularizar o gênero

Bom boêmio

Ao longo de sua carreira, exerce o cargo de representante da Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores. Seus sambas se filiam à música de Noel Rosa (1910-1937), porém apresentam novas modulações, que nos direcionam para a moderna música popular brasileira. Tanto que o samba “Último Desejo”, de autoria de Noel Rosa, é uma referência para Lupicínio.

Entre as décadas de 1950 e 1960, o compositor sai de cena. Eram tempos em que a bossa-nova e o rock começavam a despontar no cenário musical, mas o sambista nunca abandonara seu roteiro boêmio. No início da década de 1960, escreve toda semana no jornal “Última Hora”, onde narra suas histórias pelos botecos de Porto Alegre. Também comenta no espaço suas músicas.

Na década seguinte, foi descoberto pelos tropicalistas, ao gravar os discos “Dor de Cotovelo”, de 1973, pelo selo Rosicler/Chatecler, “Lupicínio Rodrigues”, no ano seguinte, que saiu pela gravadora Copacabana. Nestes dois discos, interpretou clássicos, como “Vingança, Nunca, Felicidade”, além de canções inéditas. Fez shows no Rio de Janeiro, no Teatro Opinião, em outubro de 1973.

Box

As quatro canções essenciais para conhecer Lupicínio Rodrigues

Nervos de Aço

Nem precisa dizer muito: “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?/ Ter loucura por uma mulher/ E depois encontrar esse amor, meu senhor/ Nos braços de um tipo qualquer?” Sem mais.

Vingança

Considerado um dos maiores sucessos do músico gaúcho, a canção é praticamente obrigatório para quem ainda não conhece a obra de Lupicínio. Um clássico!

Se acaso você chegasse

Com vocês, o mestre da ‘dor de cotovelo’: “Aquela mulher que você gostou/ Será que tinha coragem de trocar a nossa amizade/ Por ela que já lhe abandonou”.

Judiária

Outro hino do sentimentalismo boêmio cujos versos falam por si só. Veja: Agora você vai ouvir aquilo que merece/ As coisas ficam muito boas quando a gente esquece/ Mas acontece que eu não esqueci a sua covardia, a sua ingratidão”.

Foto: Disco é reconhecido como um dos maiores clássicos da chamada música de sofrência

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