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  • Metamorfose

Jovens do Brasil, transai-vos

Atualizado: Fev 4

Botequim Literário do Beck

Ilustração: Heitor Vilela/ Rabiscos e Escarros



Vamos recapitular: nas últimas semanas, a ministra Damares Alves vem tentando fazer a cabeça dos jovens para que eles parem de transar.


É exatamente isso que você leu: a Damares, aquela tia chata celibatária que ninguém quer conversar nos jantares de família, propôs a seca total de sexo.


Sem lesco-lesco no carnaval, no corredor da firma, no banheiro da balada, nas escadas da faculdade, no chão da sala de aula… nada disso! É seca, abstinência, tá determinado.


Jovens deste Brasil em vertigem, agora é a hora de evocar os ensinamentos do mestre Henry Miller, no singelo Sexus, o primeiro volune da trilogia de sacanagem-existencial A Crucificação Encarnada. “O sexo é uma das nove razões para a reencarnação - respondi. - As outras oito são de pouca importância”, diz o cara do Trópico de Câncer.


Ele conclama, desafia, é hora de tirar a roupa, de beijar na boca, de trocar carícias, de viajar pelo corpo da parceira, de transar sem culpa no cartório. Se o homem mais fodão da literatura no século XX falou, então tá falado.


Pode ser amor romântico, amor erótico ou o pacote completo. Só a transa nos salva dessa tragédia política, social, comportamental e cultural que ganha as páginas dos jornais, os minutos na televisão e no rádio. É por isso que repito mais uma oração subordinada aos celibatários de plantão:


Triste de quem encampa essa asneira da ministra virjona e evita o amor, cai no conto do vigário, na mais tosca blasfêmia, diz “tô fora, sexo é só depois do casamento”, tira onda dos transões de plantão, condena-os com meias verdades fabricadas para a ocasião, bando de gente sem alma, sem fé, que praguejam parafernálias que o cronista até esquece o prumo do texto.


Como se o amor fosse ‘pecado’ e a gente devesse satisfação ao cara do dízimo da igreja. Ora, pra esses pastores boto na mesa mais uma máxima do velho Miller: “só quem confessa seus pecados vive leve”. Boa parte dos homens da fé se escondem nos versículos da bíblia e caem na putaria mais louca que se possa imaginar, mas depois estão lá, condenando os transões.


É, meu caro William Reich, dizem que a energia orgástica é coisa do capiroto, vê se tem cabimento, não é possível que isso não seja uma grande balela tragicômica.


Triste de quem passa pela vida e não sabe o que é o amor, a palpitação no coração ao ver aquela pessoa que nos enche de tesão, pode ser na fila do banheiro ou na mesa do botequim. Eis a vida, senhoras e senhores: sem medo de ser, sem ser covarde.


Tudo bem se você sentir a dor de cotovelo, com a mesma maldita pessoa, e ir atrás dela depois querendo provar um pouco mais daquela sensação.


Se der errado, sempre há o velho Lupicínio Rodrigues e uma garrafa de Jack Daniel´s pronta para atenuar as feridas da paixão. O que não dá é para deixar de viver.


Pior do que encerrar o afeto, é botar na cuca essa maluquice de abstinência sexual, tem sentido?, agora transar virou um ato revolucionário.


Todos os homens e mulheres são criaturas com singularidades, características próprias, únicas, que os fazem ser apaixonantes. Cada vez que uma folha se mexe no universo a vida é diferente - desculpa, caro Xico Sá, mas esta frase caberia bem neste rabisco.


Homens e mulheres são novidades. Podem até ser piores, uns mais do que os outros, a depender dos fatores que são levados em consideração, mas há em cada olhar, em cada beijo, uma história, um desejo, uma utopia.


Já pensou quanta gente maravilhosa você estaria dispensando por essa causa errada?


E quem disse, afinal, que o sexo é errado?


Sexo é uma viagem corporal, prazerosa, excitante, como uma onda de ácido.


E tem mais: é a única vacina possível para suportar o cotidiano massacrante imposto pelo capital. Vai nessa, aconselho! Só a foda cura, liberta, salva. Mesmo que seja eterna enquanto dure, com licença Vinícius de Moraes, o nosso poetinha que entendia bem do assunto.


Às vezes a gente não vai encontrar o amor da vida, porém encontra um belo e delicioso amor da semana, da quinzena, que de tão intenso e quente acende a vontade de viver. Foi bonita a festa, pá e pronto.


Vale tudo, só não vale a lorota da ministra tiazona. Sai dessa, meus caros e minhas caras.

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