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‘Martin Eden’ narra jornada de escritor pobre

Cinema

Longa-metragem tem como pano de fundo fortalecimento do fascismo na década de 1930 e consciência de classe

Ator Luca Marinelli em cena do filme 'Martin Eden' - Foto: 8 ½ Festa do Cinema Italiano


Marcus Vinícius Beck


“Martin Eden” não dá nada mastigado para o espectador. Faz mais: convida-o a desatar os nós da narrativa. Em seu enredo livremente adaptado da novela menos conhecida do escritor Jack London, assiste-se ao esforço do protagonista em suprir sua formação deficiente, tornar-se mais culto e desenvolver uma carreira como escritor. De certo modo, trata-se de uma obra convencional dentro do registro ficcional. Ainda assim, é possível encontrar nas agruras de Martin (o escritor) uma poesia que ele extrai dos confrontos com a burguesia. O que um pé-rapado, desprovido de recursos financeiros, quer ao escrever coisas pesadas, cruas?


É preciso, dizem, arrumar um sustento. Ao conhecer o mundo dos endinheirados, ele descobre como os escritores são vistos pelos aristocratas. Enquanto tenta publicar uma obra de sucesso e emplacar contos em revistas para levantar uma grana e sobreviver, Martin começa a questionar-se sobre o mercado literário, a sociedade e sua própria natureza enquanto criador. Ok, pode-se dizer que a premissa base do enredo não tem nada demais, porém insisto: ainda está a légua de distância do cinema contemporâneo atual, especialmente no registro de um drama existencial (como virar um escritor?) com pano de fundo sócio-político-histórico.


Situado na cidade de Nápoles na década de 1930, com a consolidação do fascismo e da consciência de classe dos operários nas fábricas, o filme dialoga com a realidade brasileira e italiana. Era um tempo em que a sociedade dividia-se entre socialistas convictos e os que temiam a ideologia da foice e do martelo de uma maneira, digamos, quase irracional. Resguardadas as devidas diferenças de espaço tempo, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Logo, ora pois, Martin tenta encontrar-se nesse celeuma, refletindo sua recém-conquistada instrução e uma formação política que estava se consolidando.


O imbróglio atrapalha a relação do escritor com a aristocrata Elena Orsini (Jessica Cressy) – quem ele acredita ser o amor de sua vida – e frustra sua busca por levar uma vida mais saudável numa sociedade polarizada, já que naqueles dias essa patologia chamada intolerância dava suas caras – como diz o velho Marx: a história primeiro acontece como tragédia, depois repete-se como farsa. E depois... bem... depois... é calamitoso. “Martin Eden”, vejam vocês, fala sobretudo dos nossos dias, da nossa polarização política, da nossa sociedade por vezes maluca. Dessa forma o filme é conduzido, esses são os nós a serem desatados pelo espectador.


Dirigido por Pietro Marcello, considerado o maior nome a seguir no cinema italiano neste século, “Martin Eden” impressiona pela sua narrativa livre, o que talvez seja facilmente confundido com mau roteiro. Coloquemos os pingos nos is, portanto: “Martin Eden” goza de eclipses complexas, ousadas, não seria exagero – por exemplo – deferir-se a elas no superlativo. No entanto, como conceber uma obra cinematográfica perfeita é uma tarefa por vezes inglória, o filme tem seus defeitos, mas seguramente é dos melhores a ser exibidos na 8 ½ Festa do Cinema Italiano. Não é à toa que o oscarizado Bong Joon-ho disse que Marcello vai surpreender o mundo nos próximos anos.


Serviço


‘Martin Eden’

Diretor: Pietro Marcello

Gênero: drama existencial

Disponível em http://www.festadocinemaitaliano.com.br/

8 ½ Festa do Cinema Italiano

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