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Não nos animemos muito

Educação


Saída de ministro gerou comemorações nas redes sociais, mas o cenário não prevê mudanças

Foto: Dida Sampaio / Estadão Conteúdo


Lays Vieira


No último dia 18, foi confirmada a saída do então Ministro da Educação Abraham Weintraub. O dia começou conturbado com a notícia da publicação na portaria do Ministério da Educação (MEC) supostamente revogando políticas de inclusão nas pós-graduações. O que na verdade se mostrou mais uma cortina de fumaça do governo, tendo em vista que a base legal das ações afirmativas são as decisões autônomas das próprias universidades. O que não fez a medida deixar de ser um desincentivo as políticas, uma forma de racismo simbólico e motivo de uma onda de críticas nas redes sociais. Poucas horas depois, o próprio Weintraub voltou atrás na portaria e, no mesmo dia, houve o anuncio oficial de sua saída do cargo.


Para quem acompanha as notícias diárias sobre o governo, já ficou bem claro que a atitude do presidente foi uma tentativa de apaziguamento com o Supremo Tribunal Federal, especialmente na figura dos ministros Alexandre de Moraes e Celso de Mello, após várias falas (e ameaças públicas da base bolsonarista aos ministros e seus familiares) de Weintraub ameaçando o órgão, a exemplo do que vimos no vídeo da reunião ministerial, divulgado no dia 22 de maio.


O presidente não é bobo nem nada, ele sabe que precisa de certo nível de governabilidade para se manter e, inclusive, como já demonstrou ser sua vontade, tentar reeleição. Fato bastante elucidativo disso foi a recriação do ministério das comunicações, colocando no cargo de chefia o deputado Fábio Faria, representante do chamado “centrão” (em um claro movimento de aproximação que o governo vem promovendo em direção a essa ala do espectro político) e genro do megaempresário midiático Silvio Santos.


No dia do anuncio da saída de Weintraub, houve certo tom de comemoração em alguns espaços, entendendo a sua saída como uma vitória. Será que foi mesmo uma vitória? Para além de pensar se o cargo vago agora será dado a um outro militar (já que esse é o governo com maior número de militares na história do país) ou alguém do centrão, o foco deve ser que, independentemente de quem entrar, o projeto de educação de até então, ou melhor, de desmonte da educação, que, na verdade, vem desde o governo Temer, a exemplo da PEC do Teto de Gastos, irá continuar. Esse projeto está fortemente ligado a ala ideológica do governo Bolsonaro e eles não desistiram tão fácil. Prova disso é a notícia que saiu hoje, em jornais como o Correio Braziliense, de que o provável substituo será o secretário nacional de Alfabetização, Carlos Nadalim. Também seguidor de Olavo de Carvalho, Nadalim é um forte defensor do ensino domiciliar e sua indicação, seja para ocupar o cargo temporária ou definitivamente, não geraria atritos com a base bolsonarista e nem com a ala ideológica.


Weintrub, desgastado e investigado no inquérito das fake news, em vídeo junto ao presidente, falou da indicação para a direção do Banco Mundial. Entretanto, sua aprovação depende da sanção de um grupo de mais oito países e que um eventual mandato terminaria em outubro, quando uma nova indicação teria que ser feita. Mas, a oportunidade levaria o agora ex-ministro a se mudar para Washington, o que geraria lentidão no inquérito no qual é investigado. No fim, nós não ganhamos, Weintrub e o governo saíram com a vantagem.

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