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  • Gabriella Campos

Na rua de Salvador


Afrescos da Alma

Foi naquela rua de ladeira, inclinada, montada por pedras e ladrilhos, que fica na Bahia, onde encontrei a moça Sandrinha, dona do comércio instalado na rua da igreja do pastorzinho Miguel, o homem baixinho, porém grande de fé.

De domingo a domingo batendo tijolo pra levantar o pequeno templo, já naquela idade, queria colaborar com tudo, sem nem lhe importar com as limitações que lhe causam a velhice. O pastorzinho sempre fora rodeado de fiéis, mas pra falar a verdade, seu devotado companheiro era o falecido Molico, que deus o tenha!, que vivia com a corda no pescoço, esse o acompanhava pra cima e pra baixo.

Seu Miguel não largava o cabrito nem por um segundo, que por fim, veio a defuntar um ano depois por complicações da velha idade. Na vendinha de Sandrinha, Molico era bem recebido, lugar que, por sua vez, é muito frequentado, vem gente de todo canto para provar os pratos da dona moça, vatapá, abará, beiju, caruru, arroz de polvo, mugunzá, sarapatel; fora os doces, cocada, doce de mamão verde, aluá, quindim, e mais um bocado. Em fevereiro, mês de carnaval, andando pela rua enfeitada de sorrisos e divertimento, pulsava o coração as batucadas e o pandeiro.

A barriga também zumbia, o cheiro lá de dentro veio aguçado, de onde também veio ela, que me serviu uma enriquecedora moqueca baiana. Me sentei na mesa de fora, onde a calçada se fazia camarote para as harmoniosas e extravagantes exibições. Enquanto contemplava a festa, também não desfiz de notá-la. Vestido cheio de cor, com flores brancas no tecido amarelo, e na cabeça um pano envolto, cor do mar, tão bonita, parecia ter sido pronta num pincel.

Perambulava de um lado e outro, atendendo a todos com a mesma simpatia e afeição, a unha pintada de amarelo casava com o vestido, e pulseiras douradas ornamentavam os punhos. E eu, de precatas e blusa lisa, de cor cinza, feito céu clamando por chuva, me vi em completo desajeito. Lancei um batom vermelho na boca, como quem quisera se aparecer pra ela, martelando na cabeça não ser boa com isso, e que bobagem a minha, nessa rua cheia de gente festiva, alegre, até parece que me notaria.

Daí a pouco entra um menino, acompanhado de outro menor em tamanho, “Sandrinha, me vê dois pães desse aqui”, apontou a criança mais velha para o pão doce, enquanto o irmão corria pelo terreno fazendo bolhas de espumas, “pegue aqui, meu amado, a mamãe tá boa?”, consentiu ele que sim, balançando com a cabeça enquanto pegava o embrulho. Uma voz serena e cheia de encanto tinha Sandrinha, essa época do ano há de deixar as pessoas cheias de magia.

Em certo instante me senti deslumbrada, como se a vida me tivesse tomado por encanto, me veio até uma certa euforia que não sabia porque vinha, talvez fosse o brilho do sol queimante lá fora, a chuva de enfeites coloridos circundando a avenida, os bondes movidos por alegria, ou talvez, fosse o sorriso de Sandrinha. Em meio aos meus devaneios, me volto a atenção para o estabelecimento, onde num rompante, adentrou um rapaz, uns 15 anos eu daria pra ele, se não fosse o bigode, este se apresenta cantarolando numa agitação bem familiar, e em seguida, a abraçou de maneira muito afetuosa, que logo lhe disse “ei maninho, cuide daqui, que agora é minha vez de bambolear”, e saiu por de traz do balcão, mostrando que ainda há de caber mais beleza numa pessoa.

Passou por mim pulando feita criança em roda de ciranda, o vento até me sacolejou os cabelos, rodava a saia e cantava junto a música de Martinho da Vila, como era iluminada, dava pra ver a alegria no sorriso, parecia também ser muito querida.

A cerveja se foi no último gole, me sujeitando a ir até o irmão de Sandrinha, “pode me trazer outra dessa?”, perguntei, “claro, mas me diga, o que há de tão ruim pra deixar a moça triste?”, perguntou ele, respondi embasbacada “Eu? Não estou triste, só... estou feliz com o coração, gosto de observar”, e num tom festivo ele retrucou “aqui está! Mas olhe, só não observe demais para não lhe faltar tempo de cair na dança!”. Sorri, mas no fundo sabia que daquelas pernas não sairia um bate-chinela decente.

Voltando para a mesa, já bem perto, veio Sandrinha, que se sentou bem rápido, de modo que quase desabou na cadeira, ofegante e sorrindo, como quem tivera dançado demais.

Dei a volta e sentei na outra cadeira, agora de frente pra ela, que logo me disse, “deixe-me apresentar, sou Sandra Helena, Sandrinha por causa do tamanho”.

Logo repliquei, “Ana! Na verdade, é Maria Ana! Mas me chamam pelo segundo nome”, enquanto à respondia, ela acenava para o irmão, este trouxe outro copo até a mesa, “olha, já temos um negócio em comum, dois nomes possamos dizer...”, falou sorrindo enquanto me servia mais um tanto, “posso acompanha-la?”, perguntou, “mas é claro! Uma honra embebedar com a autora dessas maravilhas” eu disse me referindo aos bolinhos.

“Fico agradecida”, concluiu Sandrinha, seguindo um silêncio mútuo de palavras que tomou conta, dando vez para o barulho das crianças, que corriam com máscara no rosto e esguichando água um nos outros numa brincadeira.

Os adultos, pintados a cara, uns com guarda-chuva cheio de cor, outros com fantasias sortidas, gente de trinta, quarenta, me arrisco dizer que vi gente de setenta ou mais em idade, e caindo na folia, era tudo muito espirituoso.

“Já foi num desses?”, me perguntou, se referindo ao grande evento de rua, observando-me como quem visualizasse uma criança descambando num escorregador de aventuras, “na verdade, não, não assim como este”, respondi quase que ao mesmo tempo.

Ela voltou-se o olhar para a multidão e exclamou, “venha, vamos nos juntar!” pegou em minha mão, me encorajando a ir até a avenida, e com o toque de Sandrinha, eu que tinha espanto em me fantasiar dançar em meio a muita gente, me esqueci de recusar.

Me vi no meio do povo, de precatas, blusa-tempestade e batom vermelho. Quisera eu voltar para o canto, na mesa, que me era cômodo e discreto, mas não podia fazer tal desfeita na altura do campeonato, além disso, sua companhia também era muito agradável, o que me assentou da escolha.

Pra não fazer feio, me arrisquei a desenrolar dois pra lá-dois pra cá, que na minha cabeça, pareciam adequados, de modo que aos poucos fui me desprendendo, ou melhor dizendo, percebi que não existia um compasso, a dança se fazia livre e cheia de autonomia. Sandrinha agarrou-me pela mão e percorremos por toda a rua, em cada passo saltitante e cheio de samba no pé, atentava-me à arte urbana que decorava comércios, esquinas, as construções, desde as mais simples às mais bem acabadas.

Só paramos então ao lado do carrinho da pipoca, onde esbaforida, olhei para cima na intenção de reparar o fôlego, vejo ali o arco florido e enorme sobre nossas cabeças, uma fita de papel seda, vinda lá de cima, pairou em meu cabelo e Sandrinha, num gesto generoso, se aproximou para alcançar. A mão tão próxima de meu rosto permitiu sentir o perfume, cheirava a pão doce, e na tentativa de camuflar minha queda, dei lhe um sorriso de canto, era pra agradecer.

Sua mão escorregou do cabelo até o meu queixo, feito criança descambando no brinquedo. Outra vez, Sandrinha me arrancou o fôlego, mas agora com um beijo, este que findou após alguns segundos, isso por causa do empurra-empurra dos foliões, “veja, fica ainda mais bonita de batom vermelho”, eu disse a ela.

Rimos e seguimos passeio, onde mais à frente estava a igreja, essa que o pastorzinho Miguel há de cuidar, foi quando o vi pela primeira vez. blusa de mangas compridas até os punhos, calça azul clara, olha só!, de precatas feito eu, estava ele na porta da igreja, trocando palavras e gestos mansos com outro que lhe fazia companhia.

Quem diria que lá, dois anos mais pra frente, fosse o lugar que iríamos matrimoniar, eu e Sandrinha, duas meninas cheias de amor, era o que dizia seu Miguel, homem de grande fé e ainda maior de afeto. Os convidados foram poucos, só gente mais de perto, falavam-se muito, uns bem, outros mal, mas pouco importava. Na noite do casamento corremos para a rua, o Rogério, irmão de Sandrinha, lançou fogos para cima, chuva de cor arranhava o céu, era para celebrar tudo que havia de bonito na vida.

Percorremos a rua repletas de animação, daí me lembrei do pipoqueiro, do arco florido, da música de Martinho e do sabor da cerveja do estabelecimento de Sandrinha. A celebração, as cores, o clima festivo, isso foi o que nos trouxe de encontro e fez nascer o amor. Foi bem lá, na rua encurvada, onde pedi a mão dela, naquele mesmo dia carnavalesco, quatro horas depois, na rua de Salvador.

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