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O beque do poeta

Literatura


Há 50 anos Waly Salomão era preso por portar trouxas de maconha pelas ruas de São Paulo e cair numa blitz


Poeta Waly Salomão modificou a linguagem poética na década de 1970 - Foto: Divulgação



Marcus Vinícius Beck


Não tem jeito: poetas futricam os pilares da sociedade do espetáculo e do consumo. Pela ótica dos caretas, são seres perigosos, esquisitos, estranhos, muito perigosos, esquisitos, muito estranhos. Devem ser aniquilados. Na ditadura civil e militar que se dizia especial, mas não passava de um triste e bárbaro acidente de percurso de nossa História, era mais ou menos assim. E o poeta porra-louca inventivo, Waly Salomão, pagou o preço e sentiu na pele o celibatarismo fardado. Aos 26 anos, Salomão foi enjaulado no pavilhão dois do Carandiru, em São Paulo, por andar pelas ruas paulistanas com... baseados no bolso.


O ano era 1970. Vivia-se sob os desígnios do Ato-Institucional Número-5 (AI-5), o suprassumo da velhacaria que havia assaltado o poder em abril de 1964. Morria-se nos porões do regime sob a nota sinfônica do suplício humano. Gritava-se sob os choques da tortura, embora tal som fosse ‘atenuado’ por músicas e gargalhadas cruéis. O confinamento de Salomão durara 18 dias, de janeiro a fevereiro de 1970, rendendo-lhe, como apenas os mestres da linguagem são capazes de fazer, anotações febris que foram reunidas em “Me Segura Qu’Eu Vou Dar um Troço” (1972), livro clássico da contracultura.


Waly na década de 1970 - Foto: Autor Desconhecido



“Na cadeia tudo é proibido e tudo que é proibido tem. Criação=encaixar tudo e não se decidir por coisa alguma. E contudo não estou nem tão magnânimo que consigo aniquiliar o eu”, anotou Waly durante o enclausuramento. Em todo o escrito, a linguagem é experimental e deixara o polaco loco paca, Paulo Leminski, embasbacado com a mistura literária que perambula pelo mito do dilúvio, passando pelo ensaio, prosa poética, poema e diário. Se o começo tecia impressões da vida na cadeia, estes versos criam imagens poéticas sobre a rotina no Carandiru: “O cara estuprado por seis. O zinco. A cela forte que se enche d´água”.


A detenção de Waly pode ser interpretada como um exemplo da estrutural caretice que rege, e regia na época das fardados, a sociedade brasileira. “O episódio da prisão do Waly por maconha, a priori, é um estúpido episódio da arbitrariedade e da imposição, da segmentação & da guerra de classe, da estereotipização & redução à matéria prisional dos corpos que não negociam ou participam da engenhosa maquinaria de servidão voluntária normatizada pelo acúmulo e especialização de poderes brutais, burocráticos & mercantis”, crê o poeta IkaRO MaxX, autor da obra “Full Foda-se”, lançada no ano passado pela editora ProvokeATIVA.



Waly Salomão (à esquerda) e Paulo Leminski (à direita) - Foto: Claudomiro Teodoro/ Reprodução



Há cinco décadas as palavras cortantes de “Apontamentos do Pav Dois” nasciam como a base de sustentação da contracultura, que atingiria seu ápice na década de 1970 com a geração do desbunde do píer de Ipanema, no Rio de Janeiro. Escrita na adversidade do enjaulamento prisional e no frescor do puritanismo social, “Me Segura Qu’Eu Vou Dar um Troço” se muniu não apenas das experiências provocadas pela estrutura, sempre, sempre, pútrida do xilindró, mas também da mais solene tradição filosófica. Waly, morto em 2003 e um dos nomes mais importantes da poesia brasileira contemporânea, bebia na fonte da embriaguez dos sentidos.


Tempero


Os 18 dias enclausurados no presídio do Carandiru, em São Paulo, acrescentaram um tempero à obra do poeta Waly Salomão. “Os bicheiros escondendo comida cigarros. O filho do bicheiro que se entregou pra livrar o pai e estava morrendo de dor de garganta. O assaltante baleado que teve acessos violentos de dor. A descida ao inferno do poeta. Estou ouvindo Roberto Carlos, Ray Charles Georgia, Gil e Caet Charles anjo 45”, escreveu o poeta em “Oceano”, de “Me Segura Qu’Eu Vou Dar um Troço”. Após sair da cadeia, Waly se tornou um agitadores do desbunde ao lado de Jorge Salomão, Torquato Neto e José Simão.


Para o poeta IkaRO MaxX, o enjaulamento de Waly na penitenciária o levou a uma situação de risco social, mas sua criatividade valorizou o confinamento e a pressão “violenta” da convivência com perigosos inimigos – “alguns nem tão perigosos, como é muito comum na ‘justiça’ brasileira”. “Jean Genet, Marquês de Sade, Antônio Gramsci, Mikhail Bakunin, Gregory Corso são alguns destes poetas e escritores que souberam extrair do pesadelo do cárcere a potência de revirar o jogo, de se sobrepor às injustiças & tramar criativamente contra a hipócrita sociedade existente em prol de uma transformação humana genuína”, diz.



Capa da obra 'Me Segura Qu’Eu Vou Dar um Troço' - Foto: Reprodução/ Companhia das Letras



“Waly, como alegre torturado que extrai da dor a pluma de uma contínua superação, em seu sério deboche & sua Gaia Ciência nos alerta contra o sufocante panorama por meio de uma alteração assistemática de comportamentos & consciência por meio da provocação da linguagem”, analisa IkaRO, arrematando: “Dentre tantos atores fundamentais nesse período, Waly surge como um farol freak, verdadeiro detentor de um saber da dissidência que se expressa pela força irruptiva da distorção & incrementação suplementar do real pela degustação de uma autêntica simbiose significativa subversiva”.


Após esculhambar com as convenções da linguagem, da sociedade e da estética, o poeta Waly Salomão saiu de cena no dia 5 de maio de 2003, vítima de câncer no fígado. No entanto, seu legado para a cultura brasileira, ao contrário daqueles que lhe atiraram no xilindró, que lhe prenderam duas vezes, duas vezes, que lhe zombaram por ser um ‘malucão’ da contracultura, segue vivo, vivíssimo. Waly, de fato, é um dos maiores nomes da poesia brasileira, revolucionando os caducos versos de outrora, com fúria, densidade e ternura. Waly Salomão é a síntese da poesia brasileira contemporânea. É muita coisa.


Saiba mais


“Me Segura Qu’Eu Vou Dar um Troço” - 1972


Perambulando entre a prosa, a poesia e o ensaio, a obra visceral e revolucionária se tornou determinante para o movimento de contracultura que floresceu no Brasil, e virou uma bíblia para os movimentos de poetas que floresceram no País na década de 1970. O livro, que nocauteia o leitor por sua densidade e potência, está disponível no site da Companhia das Letras em sua forma avulsa, com cronologia inédita do autor. (Editora: Companhia das Letras; preço: R$ 27,90 (físico) e R$ 16,90 (E-book); gênero: poesia)


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