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  • Metamorfose

O braço armado do autoritarismo

História


Como as milícias legitimaram no século passado projetos de poder com viés sanguinário


Milícia alemã Sturmabteilung (SA) aterrorizava a população com métodos violentos - Foto: Reprodução



Marcus Vinícius Beck


Em 1917 a Primeira Guerra Mundial mergulhara o mundo numa trincheira de sangue com alemães de um lado, franceses de outro, cara a cara, digladiando-se para ver quem ganhava no quesito crueldade. A morte era certeira: tiros, bombas, gases tóxicos, pestes, frios e doenças contagiosas... Era um beco sem saída que custou a vida de milhares de jovens nos campos de batalha das Flanders, das Ardenas, da Somme. Nem ultra-reacionários como o poeta norte-americano Ezra Pound e o romancista francês Louis-Ferdinand Céline (este um notório antissemita) poupavam tamanha desgraça que acometia a humanidade.


Após assinar o armistício em novembro de 1918, o Kaiser abriu mão de ter um exército e estava claro que a sua autoridade tinha ficado para trás. Mas setores de direita, com sede de vingança e munidos de profissionais da morte, jogaram no colo do governo social-democrata alemão a desonra de assumir os horrores ocorridos no front. Como controlar a República de Weimer, proclamada em agosto de 1919? O desemprego? A hiperinflação de acachapantes 29,500% ao mês, ou de 20,9% ao ano? Então, um capitão medíocre, ops, quer dizer, um cabo, surgiu como um messias, um mito que ia salvar a Alemanha, essa coisa bem familiar.


Sturmabteilung fazia o trabalho extraoficial para Hitler - Foto: Reprodução


Para botar em prática seu projeto violento de poder, o milico frustrado e falastrão caricato, Adolf Hitler, contava com o serviço gentil de milicianos que eram responsáveis por fazer extraoficialmente o trabalho sujo. A função da SA, Sturmabteilung, ou Destacamento Tempestade, era bem simples: tocar o terror a todo custo. Os primeiros membros eram ex-soldados que lutaram contra a República de Weimer. Eric Rohm, a quem Führer admirava e rasgava elogios sempre que a ocasião lhe requisitasse, comandava a SA com métodos doentios, descontrolados e sádicos.


Rohm imaginava que caberia a si a missão de proteger eternamente Hitler, mas estava redondamente enganado: o líder do Partido Nazista não demorou muito para se sentir incomodado com a autonomia que a SA ganhara. E isso não poderia continuar assim, é claro. Na doentia cabeça do chefão, o miliciano lhe fazia sombra e algumas coisas estavam fora do seu devido lugar: o soldado era abertamente homossexual e poderia contaminar sua legião de seguidores com a perversão do milico do senhor. Ok, era preciso tomar as rédeas da situação. O sargento foi preso no dia 30 de junho para 1° de julho, na Noite das Longas Facas.



Miliciano Eric Rohm era o braço direito de Adolf Hitler - Foto: Reprodução



O Führer recrutou o marechal Hindenburg e assassinou as principais cabeças da SA. Hitler, então, ficou com o caminho livre para o precipício. Suas forças milicianas e militares foram dissolvidas apenas após a derrota da Alemanha Nazista na Segunda Guerra Mundial, em 1945. De fato, o roteiro da barbárie aparece que vem sendo reescrito, à maneira do ex-capitão, nove décadas depois da trágica experiência alemã. Mas talvez seja apenas uma impressão, ou uma preocupação demasiadamente exagerada, vai lá, uma vez que o dito cujo não é, digamos assim, um homem muito dado à prática da leitura.


Pelo mundo


No sul da Europa, o fascista Benito Mussolini (uma figura maldosamente caricata, verborrágica e histérica) cria, em Milão, na região norte da Itália, os primeiros esquadrões da morte. Chamado de "Fasci Italiani di Combattimento", o grupo paramilitar era a espinha dorsal do Partido Nacional Fascista. Os milicianos tinham um método semelhante ao adotado pela SA na Alemanha Nazista: intimidação, perseguição, terror, violência, sadismo, barbárie... Seus alvos preferenciais eram militantes comunistas, socialistas e anarquistas, bem como sindicalistas e grevistas. Em nome do socialismo que vigorava na Rússia, amém!


Os magnatas italianos se entusiasmaram com o projeto político de Mussolini, financiando as atividades do Partido Fascista a fim de combater os ideias revolucionários. E tudo com a camarada conivência da polícia, dos magistrados, do próprio governo e de setores da mídia, que fizeram de conta que o líder fascista não passava de um personagem irrelevante. Mas, mesmo com grana e simpatia do grande capital, o partido era inexpressivo: não conseguia angariar votos nas eleições. Apenas com os milicianos Mussolini ascendeu ao poder, deixando-o ao ser enforcado em praça pública, em 1943, nos estertores da Segunda Guerra.



O fascista Benito Mussolini durante a Marcha sobre Roma, em 1922 - Foto: Reprodução



Do outro lado do Atlântico, em 1973, o general Augusto Pinochet, com o apoio da CIA, dos conglomerados de comunicação e do poder econômico, instituiu como política de Estado o terror às pessoas contrárias à ditadura civil e militar. A ideia era tirar do Palácio La Moneda, não importava como, nem de que maneira, o então presidente Salvador Allende, eleito democraticamente três anos antes. Com o golpe, figuras como a do cantor Victor Jara (compositor popular e simpático ao pensamento de esquerda) padeceram diante das atrocidades cometidas pelo chefe da extrema-direita chilena e sua milícia.


Defensores contumazes da pátria, da família, da moral e dos bons costumes, os regimes autoritários vigoraram no século passado e contaram com seu braço armado para se sustentar no poder: a milícia. Sim, calar a população, amordaçá-la, persegui-la, aterrorizá-la era necessário... À esquerda, com o castrismo em Cuba e sua polícia política e com o stalinismo na União Soviética, à direita, com o nazismo, com o fascismo, com o franquismo, com o pinochetismo, não importa: as milícias foram necessárias para a consolidação de projetos autoritários, truculentos, bárbaros. Será que esse filme vai se repetir?


Saiba mais


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Conjunto de 29 cadernos de tipo escolar escritos por Antonio Gramsci no período em que esteve prisioneiro na Itália, entre 1926 e 1937. Gramsci foi preso pela polícia fascista.


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