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O estilista da narrativa curta

Literatura


Aos 95 anos, escritor Dalton Trevisan figura sozinho no panteão dos gênios do conto brasileiro. Desde 1959, ano de sua estreia na literatura, publicou mais de 40 livros


Escritor Dalton Trevisan numa das raras vezes em que foi fotografado - Foto: Arquivo/AE



Marcus Vinícius Beck


Dalton Trevisan, mestre conhecido como Vampiro de Curitiba, chega aos 95 anos como o rei absoluto da literatura brasileira do século 20. “Primeira noite João fracassou. Em lágrimas que era rapaz virgem, o desastre de tanto amor”, anota o escritor, na abertura de “Trinta e Sete Noites de Paixão”, texto que faz parte da coletânea “Contos Eróticos”. Depois das recentes mortes de Rubem Fonseca e Sérgio Sant'anna, dois nomes importantes da narrativa curta em língua portuguesa, o autor paranaense figura como um dos últimos remanescentes do texto conciso, um artista dono de uma linguagem inconfundível, mas genial por dizer muito sem firulas, é pá-pum.


Trevisan, ao contrário de seus dois companheiros do ofício verbal até o fim da vida, parece ter se aposentado – pelo menos oficialmente. A amigos mais próximos revela que continua escrevendo, porém sem a pretensão de publicar. Sua última obra lançada foi “O Beijo na Nuca”, em 2014, pela Editora Record. O estilista do conto, todavia, é responsável por uma extensa produção literária. Desde 1959, ano em que estreara na literatura, publicou mais de 40 livros. De cara, passou a ser reverenciado por “Novelas Nada Exemplares”, seu clássico supremo. Até poucos anos atrás, o autor mantinha a publicação de quase um título por ano. Agora, isso mudou.



Trevisan pelas ruas de Curitiba - Foto: Autor Desconhecido



Os fãs deverão se contentar com a releitura dos textos do escritor. Trevisan, que já não dava entrevistas para a imprensa há anos, assim como Raduan Nassar e Thomas Pynchon, quer aproveitar os últimos suspiros em paz. Faz sentido. Foram mais de seis décadas dedicando-se a lapidar frases, palavras, parágrafos, textos – a cada relançamento, aliás, o Vampiro de Curitiba não raro mudava de cabo a rabo seus contos. Mesmo aparando com afinco as arestas da literatura, nunca abandonou Curitiba como cenário. Para ele, a cidade era mais do que um pano de fundo para as histórias que contava, muito mais: era a razão da existência em si.


Em sua obra, o Vampiro de Curitiba pegou a áurea da capital paranaense para criar um mundo próprio. A opção criativa se assemelha, com as devidas proporções, é claro, ao método adotado pelo escritor Gabriel García Márquez. Vai ver, se o contista tivesse escrito em língua inglesa já teria abocanhado há tempos o famigerado Nobel da Literatura. Acontece, no entanto, que Trevisan nunca foi um sujeito guiado pela fama. Pelo contrário: o escritor brilha justamente pelo fato de ser um recluso, de viver em estado permanente de isolamento social, adicionando ao projeto literário que seguiu um tempero mais saboroso do que se fosse um cara dos holofotes.


Trevisan, o ser humano, exemplificou em inumeráveis ocasiões que nunca foi um fã da vida em sociedade. Hoje em dia, tem poucos amigos, porém mesmo eles possuem acesso restrito a intimidade do escritor, que vive recluso na conhecida casa da rua Ubaldino do Amaral, no bairro Alto da Glória, a poucos minutos do centro da capital paranaense. Bem diferente de Paulo Leminski, a outra notória figura curitibana que está com o nome gravado na história da literatura brasileira. O poeta porra-louca da marginalidade curtia, digamos, cair na farra, bebendo vodca com vinho antes de ir para o trampo numa agência de publicidade qualquer.

Reclusão.


Vampiro de Curitiba perambulando pelas ruas da capital paranaense já idoso - Foto: Autor Desconhecido



Nada a ver com o Vampiro de Curitiba, né? Talvez o único período em que cultuou uma agitada vida social foi durante a época em que era estudante secundarista no tradicional Colégio Estadual do Paraná, onde criou a revista Joaquim, a qual editaria até 1948. Na publicação chegou a ser agraciado com a colaboração de gigantes como Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Vinícius de Moraes, além dos pintores modernistas Di Cavalcanti e Portinari, e críticos como Otto Mario Carpeaux. Carpeaux, aliás, pouco tempo depois se tornaria um desafeto de Trevisan por conta de um artigo de Temístocles Linha na revista.


Se a literatura brasileira enveredou pelo sexo, isso se deve graças à transgressão estética de Trevisan e Rubem Fonseca. “Mas os jovens não entenderam nada. Escrevem pornografia, quando deveriam se dedicar ao erotismo”, disse o Vampiro de Curitiba numa raríssima entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo, em 2004. Ele, vale lembrar, escreveu um dos romances mais excitantes da literatura brasileira, “A Polaquinha” – seu primeiro e único, por sinal. Sobre a vida financeira, sacramentou, sem rodeios: “Já ganhei muito dinheiro. Mas queimei tudo. Com uísque, baralho e mulher. Principalmente com mulher. Isso quando era casado. Hoje não”, revelou, no bate-papo.


Diplomado em Direito pela Faculdade de Direito do Paraná, Dalton Trevisan nasceu no dia 14 de junho de 1925. Fã de Machado de Assis, a quem lia e relia compulsivamente em 2004, o escritor editou seus primeiros contos, em 1945 ou 1946 - nem o Vampiro recorda-se ao certo a data, de acordo com a entrevista à Folha - nos folhetins que lembram a literatura de cordel. Consagrou-se, lá pela década de 1960, com "Cemitério de Elefantes" (1964), "Morte na Praça" (1964) e mais de duas dezenas de novos livros. Mas, para este subscrito, fã do estilo seco de Trevisan, um dos melhores é “111 Ais”, uma reunião de 111 minicontos lançados pela L&PM. Dalton Trevisan é genial, genial.

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