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O país da lamúria

Doce Viagem

Caetité, Bahia, janeiro de 2020.


Lee Aguiar


Estamos desolados. Estou, pelo menos, vivendo na inércia de quem assiste as esperanças de um mundo sem barbárie com o peso da ilusão destruída pelo fascismo ascendente.


Os corpos exaustos pelo confronto cotidiano, o racismo estrutural continua matando jovens negros nas ruas em plena luz do dia, mulheres continuam sofrendo violência doméstica, estupros a cada 15 minutos ocorrem no país da desigualdade agressiva. Assistimos à tudo com o ódio profundo de quem vê, mesmo assim, a popularidade do governo Bolsonaro crescer entre a população mais pobre e desempregada.


Começo a semana sem resiliência, de nada me serve o gosto ilusório de um mundo que parece completamente destruído. O ar está cada vez mais denso, e meus caros, essa frase não é uma metáfora super intelectual para refletir o fardo diário de respirar no país capturado pelo fascismo tropical, os ares estão densos de poluição. Estamos enfrentando o próprio apocalipse climático enquanto habitamos no agora desse planeta que um dia já foi azul.


Sim, lhe escrevo hoje, com o pesar de acordar na realidade cruel que nos é imposta. Quero que minhas irmãs parem de morrer a cada aborto ilegal, cada criança que nasce fruto de estupro ou simplesmente não desejada. Sinto o gosto do sangue amargo pulsando em meu estômago pelos 100 mil mortos, as frases maníacas ainda rondam minha mente. "E daí? Não sou coveiro".


Mais de 23 mil indígenas foram contaminados pelo novo coronavírus. 20 mil garimpeiros ilegais continuam desmatando a Amazônia e terras de reserva ambiental indígena. A polícia militar continua matando e morrendo. Nós continuamos sem reação, porque não existe força para reagir à tanta desgraça.


Fico por aqui, com essa foto que acredito representar meu espírito nessa semana que acabamos de adentrar. Me sinto cansada, desolada e principalmente irritada.


Até semana que vem.


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