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O penacho literário do tri

O que ler?


Há 50 anos conquista do tricampeonato no México impulsionou uma safra de cronistas embevecidos pelo futebol-arte de Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson e companhia limitada

Pelé em jogo contra o Malmö FF, em 1960 (AFP/SCANPIX)


Marcus Vinícius Beck


“Pelé é tão perfeito que se não tivesse nascido gente, teria nascido bola”, profetizava o jornalista Armando Nogueira ao eternizar – munido da destreza que apenas os mestres têm - a beleza daquele time que abocanhou o tri no México há 50 anos. Liberal à moda clássica, do tipo que dava emprego para quem combatia a Globo durante o regime fardado da caserna e dos porões, ele era chamado pelos colegas de o “Machado de Assis da crônica esportiva”. Genial, o Armando. Faz-se necessário lembrar, pra começo de conversa, que o homem dirigiu a TV do doutor Roberto Marinho. Mas falemos do ludopédio literário, é isso que importa aqui.


Escalemos, por ora, o timaço de estilistas do texto que consolidou no imaginário popular o escrete de 70. Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, João Saldanha, Carlos Drummond de Andrade e mais uma penca de aristocratas das palavras que brilharam na imprensa e literatura. A cobertura que fizeram de conquistas memoráveis, sobretudo as de Copas do Mundo, e não me refiro aqui somente as do triunfo do tri, traz escritos primorosos, únicos, verdadeiras aulas de como escrevinhar a catarse do futebol. Também, sejamos justos, ora pois, essa tarefa não era lá uma das mais difíceis. Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson e Rivelino desfilavam em campo. Aí tudo ficou mais fácil.


Acredite, ficou de fora ainda uma lista de craques do nosso ludopédio: Garrincha, Nilton Santos, Didi, Zagalo, o jogador e, ok, ok, vai lá, o treinador também. Mas o triunfo da taça Jules Rimet, esse sim, que veio ao Brasil após acachapante vitória por 4 a 1 sob a Itália do catenaccio,foi agraciado por comentários de gigantes. Redigiu colunas sobre o lendário tri o ex-técnico da Seleção, João Saldanha, a quem a ditadura civil e militar via com apreensão pelo fato de ser, meu Deus do Céu!, um adepto da ideologia da foice e do martelo. Saldanha, aliás, achou um jeito de botar Pelé, Tostão, Gérson, Jairzinho e Rivellino para jogarem juntos. Deu no que deu.


Na edição do dia 22 de junho de O Globo, o dramaturgo Nelson Rodrigues abre sua crônica exaltando hiperbolicamente a vitória da Seleção. “Amigos, foi a mais bela vitória do futebol mundial em todos os tempos. Desta vez, não há desculpa, não há dúvida, não há sofisma. Desde o paraíso, jamais houve um futebol como o nosso. Vocês se lembram do que nossos “entendidos” diziam dos craques europeus”, atesta o escritor, prosseguindo: “Ao passo que nós éramos quase uns pernas de pau, quase uns cabeças de bagre. Se Napoleão tivesse sofrido as vaias que flagelaram o escrete, não ganharia nem batalhas de soldadinhos de chumbo”.


Nelson, como se não bastasse a contagiante verborragia da conquista, viria a retomar o assunto na coluna da edição seguinte, defendendo Zagalo das críticas que o atingiram antes do torneio – “era um bicampeão que merecia respeito”, escreveu o autor de “Vestido de Noiva”. Já Armando Nogueira, o cronista da alma futebolística, destacou que o “futebol, nossa vida, é o mais vibrante universo de paz que o homem é capaz de iluminar com uma bola, seu brinquedo fascinante”. “Por isso, recebam, amanhã, os heróis do Mundial de 70 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do pátio, onde brincavam”, pediu o jornalista, em O Globo.


Poeta aclamado, Carlos Drummond de Andrade – que se dizia um não entendedor de futebol – também agraciou o tricampeonato com seus versos no Jornal do Brasil. Na edição do dia 20 de junho, o dono de “Elegia 38” ressaltou o caráter de união que a vitória no México trouxe para a sociedade brasileira. “De repente o Brasil ficou unido/ contente de existir, trocando a morte/ o ódio, a pobreza, a doença, o atraso triste/ por um momento puro de grandeza e afirmação no esporte”, anotou Drummond, completando: “A Zagalo, zagal prudente/ e a seus homens de campo e bastidor/ fica devendo minha gente este minuto de felicidade”.


Nossos estilistas das letras (Arthur Dapieve, Luis Fernando Veríssimo e Juca Kfouri) saudaram também as vitórias nos mundiais de 94 e 2002, e derramaram lágrimas (Kfouri, em “Confesso Que Perdi, obra lançada em 2017 pela Companhia das Letras) pela tragédia do Sarriá, em 1982, quando o timaço romântico de Sócrates, Zico, Toninho Cerezo e Júnior foi eliminado pela Itália, seleção que viria a sagrar-se campeã daquela Copa. Mas nada se compara com o clima que tomou conta dos brasileiros em 70. E os motivos são fartos: naqueles tempos, sob a batuta dos militares e seus calabouços da tortura, houveram tentativas ufanistas de usurpar a conquista. Sorte que não rolou.


Saiba o que ler sobre a Copa de 70


‘A Pátria de Chuteiras Imortais’


Lançada pela Companhia das Letras em 2002, a obra reúne as melhores crônicas esportivas do dramaturgo Nelson Rodrigues. O livro é vasto: nele, o leitor vai se deparar com registros dos fracassos de 50, 54 e 66. Mas também vai se deliciar com as hipérboles rodrigueanas das vitórias de 58, 62 e 70. (Cia das Letras. Pág: 134. A partir de R$ 18 na Estante Virtual)



‘100 Melhores Crônicas Comentadas de João Saldanha’


Homem vanguardista, o jornalista João Saldanha foi o cara responsável por botar Pelé, Gérson, Jairzinho, Tostão e Rivellino para jogarem juntos. E deu certo, tão certo que a Seleção encantou o mundo na Copa de 1970 com um futebol-arte que ainda hoje impressiona. (Livrosdefutebol.com. Pág: 248. A partir de R$ 45 na Amazon)


‘Quando é Dia de Futebol’

Poeta expoente do modernismo, Carlos Drummond de Andrade passeia pelas conquistas e fracassos da Seleção Brasileira em Copas do Mundo. Aqui, naturalmente, o destaque vai para as crônicas e poemas onde Drummond reverencia o escrete do tri. (Record, Pág.271. R$ 44,90)


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