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  • Victor Hidalgo

Pseudociência em tempos de pandemia

Entrevista

"Ciência não faz verdades absolutas, nós procuramos chegar o mais próximo possível da verdade", afirma biomédica com especialização em Psicobiologia


Imagem: David Roberts

Victor Hidalgo


E se eu te contar que tenho a resposta para todos os seus problemas e a cura para todos os seus males? Sei que sua preocupação vai ser algo do tipo: “Como isso é possível? Quem é você para saber de tudo isso? Existe alguma comprovação científica que respalde o que você está falando?” Ora, mas é claro que sim! Pelo método Hidalgo quântico de terapia intensiva astral, vou te ensinar a resolver todos os seus problemas via alguns passos simples e com coisas do cotidiano tão ordinárias que não vão te causar estranheza! Diversos estudos de renomados doutores em diversas áreas já provaram a eficácia dessa terapia, mas os globalistas e grandes corporações não querem que você saiba disto! Tudo o que você precisa fazer é comprar meus livros, ir em minhas palestras e acessar meu site onde tudo o que você precisa ter para começar a sua nova vida na minha seit... digo, grupo de pessoas iluminadas, está a apenas um clique de distância!


Talvez você já tenha se deparado com algo parecido com o texto acima em algum lugar. Seja em livrarias que deixam em destaque livros que levam a palavra quântico na capa, mas que não tem nenhuma relação com física de partículas, a coachs que dizem que com a força do pensamento você é capaz de mudar até a cor dos seus olhos (o que é claro, não é possível). São pseudociências, costumam ser práticas que não tem nenhum respaldo dentro do meio científico mas que mesmo assim usam termos dele para tentar se validar como algo confiável.


E em tempos como os atuais, quais vivemos no meio de uma das piores pandemias da história, não é raro ver circulando em redes sociais fórmulas mágicas que dizem ser capazes de curar o covid-19, como o recente caso de uma senhora que foi até o cercadinho presidência informar ao mesmo que enxofre era a cura da doença, que essa resposta tinha lhe vindo em um sonho em que Deus a fez essa revelação. Em outros tempos poderíamos rir da ingenuidade da senhora, porém, o presidente resolveu dar ouvidos e reservar um horário para ela com a equipe do Ministério da Saúde.

Gráfico explica a diferença entre ciência e pseudociência - reprodução


Nos últimos anos o obscurantismo acabou tomando conta do Brasil e do mundo, o que levou a essas práticas citadas acima a se proliferarem. Um dos exemplos mais recentes, e absurdos, é a volta da crença de que a terra é plana. Por mais absurdo que isso pareça, existem milhares de pessoas hoje que acreditam nisso. Eles sequestram termos científicos e fazem experimentos para provar sua “teoria”, mas descartam todos os resultados negativos deles como sendo interferências dos terrabolistas (como eles chamam aqueles que não acreditam na suas “teorias”), o documentário da Netflix Behind The Curve mostra como esse movimento vem ganhando força e acompanha um dos principais disseminadores dele, Mark Sargent, um Youtuber americano.


O Youtube se tornou um dos responsáveis pela disseminação de desinformação na rede. Um estudo recente levantado pela parceria de três entidades de pesquisa, descobriu que vídeos com desinformação sobre o coronavírus eram três vezes mais vistos do que outros. O documento chamado: Ciência Contaminada - Analisando o Contágio de Desinformação Sobre Coronavírus via YouTube. Foi um trabalho conjunto entre o Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (Cepedisa) da USP, o Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (LAUT) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), da Universidade Federal da Bahia.


“Existe forte rejeição a conteúdo científico em muitas redes, e as eventuais referências à ciência ocorrem de formas que distorcem a produção científica, focando arbitrariamente em pontos que os interessam e ignorando outros que os contradizem. É comum, nessas redes, o uso enviesado de dados científicos para fomentar o entendimento do grupo (como a minimização da COVID-19, teorias da conspiração, entre outros)”, aponta o trabalho.


Para entendermos melhor sobre esse assunto, conversamos com a cientista em biomedicina e divulgadora científica do Pint of Science Brasil, Letícia Pichinin. Ela nos conta um pouco sobre como podemos mudar esse quadro e como elas acabam influenciando em nossas vidas.


Metamorfose: Primeiro nos conte sobre você! Quem você é, com o que trabalha, quais áreas é formada.

Letícia: Meu nome é Letícia, eu sou biomédica e tenho especialização em Patologia Clínica e Psicobiologia. Como nenhuma dessas palavras diz muita coisa, vou traduzir: Biologia estuda todas as formas de vida, certo? A biomedicina é voltada ao estudo tão somente da vida e da saúde humana. É uma profissão que não existe nem há um século ainda, mas foi criada para ensinar médicos e fazer exames laboratoriais (patologia clínica) basicamente. Agora, estamos aptos a tomar parte de mais de 30 cargos/áreas das ciências da saúde.


Psicobiologia, área do meu mestrado, é o estudo dos componentes biológicos do comportamento humano, também chamada de neurociência comportamental. A minha área de pesquisa especificamente trata sobre o álcool enquanto droga de abuso. Minha pergunta de pesquisa é: como dar PT na adolescência impacta seu consumo de álcool, seu comportamento e seu cérebro durante a vida?

Metamorfose: O que são Pseudociências? 

Letícia: Pseudociências são coisas fantasiadas de ciência. Usam nomes e termos técnicos, mas não são baseadas em conceitos científicos, e a construção de seu conhecimento não se dá através do método científico e evidências. Algumas já partem de premissas iniciais falsas ou distorcidas. Se não pode ser testado, reproduzido, avaliado por outros, não está seguindo método científico. Ciência não faz verdades absolutas, nós procuramos chegar o mais próximo possível da verdade, dado o conhecimento que temos e a tecnologia que temos.

Metamorfose: Como elas influenciam nossas vidas?

Letícia: O problema das pseudociências é principalmente quando elas estão atreladas a saúde e hábitos de vida. Um exemplo popular e adorado é a homeopatia. Médicos homeopatas fazem uma análise muito cuidadosa da vida, das reclamações e problemas de seus pacientes, dão muita atenção para o paciente. Então prescrevem água ou bolinhas de açúcar personalizados para você, e fazem um fiel acompanhamento. E daí funciona para a sua ansiedade. Até aí tudo bem, certo?


Mas daí você descobre um câncer. Você pode até tentar tratar com homeopatia. Mas dessa vez, os 30% de efeito que o placebo causa e o viés de confirmação (se você procurou homeopatia, você provavelmente acredita que ela funciona), não são mais suficientes. O efeito acalentador que o cuidado médico e o placebo das bolinhas te deram, não irá diminuir a taxa de crescimento do tumor, e nem impedir que ele tome órgãos, você precisa de uma eficácia que vai além do seu credo e do placebo.

Metamorfose: Por que o público costuma cair nelas? Costuma ser por vontade própria ou falta de instrução sobre determinado assunto? Como por exemplo os coachs quânticos?

Letícia: Uma característica comum das pseudociências é serem soluções rápidas, indolor, às vezes podem ser feitas em casa, não precisam de um profissional. Das dietas detox, aos ovos Yoni eggs, homeopatia e coachs: todos oferecem soluções incríveis para problemas reais. Quem não gostaria de reprogramar o DNA para o sucesso? Ensinar o cérebro a “pensar magro”? São muito atraentes, e justamente por usar termos técnicos, elas parecem opções válidas aos olhos de muitos. Mas se nossa educação nos desse mais autonomia para saber cuidar da saúde, pensamento científico, pensamento crítico e tudo isso, o problema poderia ser menor.

Metamorfose: Nesse momento de pandemia, por que as pessoas acabam negando a ciência e os dados para notícias falsas sobre supostos tratamentos? 

Letícia: Com a covid-19 entra em jogo uma característica parte da ciência que é linda pra uns e feia pra outros: ela muda. A ciência está sempre em construção, então quando uma nova descoberta chega, nós analisamos e as vezes acabamos excluindo outra que se mostra incoerente diante do novo saber. E isso pode ser visto como incerteza, fraqueza. Então você propor um tratamento que traz “forças sagradas” e afins, é bastante atraente. E tem claro, o negacionismo perpetuado pelos políticos de cá e de lá. Para quem nega anos de pesquisa sobre mudanças climáticas, negar um vírus não parece um passo tão brusco.

Metamorfose: O medo pode ser um fator para que isso aconteça? Medo daquilo que desconhece ou que pode ir contra aquilo que o indivíduo acredita? 

Letícia: Sim! Algumas teorias científicas sobre porque criamos e acreditamos em teorias da conspiração, apontam bastante para esse caminho. É muito importante para o ser humano saber e entender o que acontece ao seu redor. Porém, às vezes o arcabouço de conhecimento que você tem e aquele que está sendo passado para você, não batem. E daí fica difícil você consolidar os dois e aceitar a possibilidade de que você não entende bem o que está acontecendo, e que as coisas estão mudando. Então criar uma teoria em que você sabe e entende, é muito mais fácil. Nós gostamos de culpados claros para as tragédias que passamos. Como você vai culpar a evolução pelo novo coronavírus? Talvez você já nem acredite em evolução. Aí acreditar que foi feito pela indústria farmacêutica chinesa comunista fica muito mais fácil. Nosso cérebro tem muita facilidade de assimilar conteúdos que condizem com aquilo que a gente acredita, mesmo que não seja real.

Metamorfose: No Brasil esse quadro é pior?

Letícia: Parece que sim. Um estudo da OMS mostrou que o Brasil é o país que mais compartilha notícias falsas sobre o coronavírus, seguido pelo nosso querido colonizador. Mas outros países também estão com grandes problemas nesse sentido, os Estados Unidos e o Reino Unido por exemplo.

Metamorfose: Com mais investimentos em pesquisa científica e educação, esse quadro poderia ser diferente?

Letícia: Sim! A educação precisa ser repensada em todos os seus níveis, desde a educação básica até a universidade. Devemos ensinar as crianças ao pensar científico mais do que decorar nomes de bactérias. Entender a metodologia que torna a ciência, ciência é entender o que perpassa a saúde humana e do nosso ambiente. E nas universidades, se não banir o ensino de homeopatia e terapias alternativas, deve-se pautar no fato de que são práticas que não tem evidências científicas. E articular melhor a comunidade científica para comunicar-se com a população.

Metamorfose: Esses movimentos negacionistas também podem ocorrer por conta da necessidade de se fazer parte de algum grupo que teria um conhecimento especial que ninguém mais tem?

Letícia: Sim! Grupos negacionistas e conspiracionistas oferecem uma retro-alimentação para a sua própria opinião: todo mundo fala exatamente o que você pensa, o que te dá mais certeza sobre isso. E você tem chance de brilhar no movimento, criar raízes, criar um pensamento coletivo e agir pelo grupo. Tem também a sensação de saber um segredo universal e ter que defendê-lo de todos, governo, familiares, empresas. Você se torna um herói da comunidade.

Metamorfose: O que podemos fazer para mudar esse quadro?

Letícia: A internet dá aos conspiracionistas ferramentas essenciais para que continuem, é como o oxigênio para uma chama. Não precisamos cortar a internet deles, mas negar continuamente suas informações, se recusar a repassar ou tratar como “dois lados de uma moeda”. Não se deve chamar um físico e um terraplanista, porque para fatos não há dois lados. Um “lado” é conhecimento e o outro é opinião infundada. A terra é redonda, sabemos disso há 500 anos e não devemos dar espaço para esse tipo de debate que trata ambos os lados como iguais. Fortaleça os fatos, não repasse incertezas. Debata com negacionistas, não exclua eles da sua bolha. Exponha a verdade sempre que possível. É muito improvável que Estados Unidos, Rússia, China e até o Marcos Pontes estejam sendo pagos pela NASA para esconder o fato de que você vive em uma doma em cima de uma coisa plana, e só o Tio Zé descobriu. E seu primo João precisa saber disso, para não cair no papo do Tio Zé.

Metamorfose: Só para finalizar, qual sua visão do quadro atual do Brasil em relação a esse assunto e a pandemia?

Letícia: O Brasil está no pódio para ambas as coisas: casos e mortes por COVID19, desinformação e pseudociências. E infelizmente, a tendência não parece ser melhorar. Alguns canais de TV aberta parecem estar fazendo um bom trabalho, quase todos os dias têm cientista ou médico na TV falando sobre tudo o que se sabe até o momento sobre o coronavírus. A gente já está decorando o nome do diretor da OMS, e isso é muito legal. Mas o país segue sem Ministro da Saúde, e o Ministro da Ciência, Marcos Pontes, não tem dado muitas novidades sobre como andam os 17 testes que ele está fazendo com a “arma secreta” contra a COVID19. É de responsabilidade dele também, as comunicações e inovações tecnológicas que poderiam estar sendo utilizadas para combater ativamente a desinformação. Na minha opinião, falta envolvimento do WhatsApp, enquanto empresa, no combate a disseminação de notícias falsas e robôs. Limitar o encaminhamento de mensagens diminuiu, mas não resolveu o problema. O Instagram tira do ar stories com conteúdo falso, o WhatsApp poderia fazer o mesmo, e combater de fato contas de robôs.


Para ajudar a descontaminar os canais de informações falsas ou manipuladas, diversos cientistas acabaram criando canais no Youtube. Vamos deixar alguns links para eles para que vocês, leitores, possam conferir.


Canal da Phd em Física Teórica de Partículas Gabriela Bailas;


Canal do Mestre em Física teórica Caio Gomes;


Canal do Doutor em Virologia Atila Iamarino;


Canal do Paulo Mirando Nascimento (O Pirula) Mestre em Zoologia.