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Sem lirismo

Botequim Literário


Em meio à crise provocada pelo coronavírus, presidente pediu para as pessoas saírem do isolamento - Foto: Reprodução


Marcus Vinícius Beck


Cadê o lirismo do louco amor da minha crônica? As sílabas impressas pelas tintas do delírio bolsonarista, ops, me desculpem, levaram para longe. Cadê o escárnio vagabundo debochado sem compromisso com esta terra em transe (des) governada pelo molambo ensandecido que se faz presidente? Virou ração para alimentar a fúria do ex-capitão no cercadinho da humilhação. Cadê.... bem, deixa pra lá, deixa vai...


Você diria que não é tempo de crônicas do louco amor, jovem cronista? Sempre é, caríssima leitora e estimado leitor que me pergunta via zap na quarentena, mas somente os gênios, à guisa da náusea jornalística do noticiário, conseguem extrair um lirismo apaixonante em meio à crise política, sanitária e de sanidade (mental, é bom acrescentar) à qual estamos passando desde que o energúmeno-mor subiu a rampa do Palácio do Planalto.


Penso com meus botões, será que o grande desafio do cronista é ignorar a pandemia que esfrega na nossa cara a falência do sistema público de saúde defendida pelos amigos de chicagos do Guedes? No tempo do jornal de papel, as notícias chegavam apenas no outro dia, havia uma croniquinha aqui e ali, pra arejar as declarações dos idiotas irremediáveis que ditam os rumos da humanidade.


Que era mais fácil suportar o mal-estar da civilização, era...


Hoje os cadáveres, quer dizer, as estatísticas das secretarias de saúde, gritam na tela, on-line, em letras garrafais na home do site, não dá tempo sequer pra gente refletir sobre a pandemia ou tirar as crianças da sala antes do dito cujo ir à tevê ou ao rádio fazer seu admirável pronunciamento ‘oficial’.


Pá, púm, não tem jeito: é o cara abrir a boca, o Twitter chia, o Facebook estremce, o Zap vibra, a porra toda surta com tanta serenidade política num momento de crise.


Quem aguenta? Qual desgraçado dá conta de ler tanta notícia, meu caro Caetano? Qual desgraçado tem a fisiologia gástrica adequada para tanto absurdo, hein?


É, não tem jeito: só a crônica salva, só ela, não há outra saída.


Não fui, e não sou, essa é a bem da verdade, capaz de argumentar com coerência nesta situação: as aterrorizantes medidas contra a ‘gripezinha’ e o ‘resfriadinho’ se fizeram ouvir nos jornais do Velho Mundo e dos States (o paraíso preferido da elite brasileira pra torrar grana). Uma tragédia que provavelmente o tio Nelson Rodrigues, com seu pomposo currículo reacionário, teria se negado a escrever, de tão medíocre.


Mas, sendo os apoiadores do ex-capitão pouco dados à prática da leitura, talvez não faça o menor sentido comparar um milico exemplar - expulso do quartel após tentar explodir tudo numa grave por melhores salários, ah, bobagem esse tipo de coisa, quem nunca? - com o maior dramaturgo brasileiro, não é?


Não faz, de fato.


Imbatível Nelsão, tenha dó do meu fracasso literário, tenha.


Agora, porém, peço-lhe licença para evocar o cronista do amor, Antônio Maria, que morreu em decorrência das dores da paixão. Sim, nestas quase seis décadas depois que tu partiste, vencemos uma ditadura, selamos a democracia com a Carta Magna de 88, vimos a ascensão do neoliberalismo na década de 1990, a chegada do ex-operário à presidência e, pasme, assistimos incólume a ascensão de um saudosista da barbárie.


Não tenho conseguido dobrar a esquina atrás do lirismo da crônica do louco amor. Os botecos estão fechados, as livrarias, as casas de show, as galerias de arte, os teatros, as escolas... Repare no bafo do telejornal do plim-plim. Repare no teor irresponsável e criminoso do homem-forte do País. Quanta maldade. Um homem despreparado, cercado por apreciadores da bíblia, da bala e do mercado.


Coisas de cidadãos de bem, né?


E assim, de olho no plantão da treta da vez, se perde o itinerário do lirismo da crônica do louco amor de Antônio Maria e Charles Bukowski. Desisto, mas só por hoje.


Marcus Vinícius Beck, jornalista e escritor. Autor do livro-reportagem ‘Diário Subversivo’

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