Buscar
  • Metamorfose

Todas as épocas, todos os gostos

Cinema

Plataforma de streaming cria catálogo com filmes vencedores do tradicional Festival de Gramado. Obras ajudaram a moldar, ao longo dos anos, identidade do cinema brasileiro

Cena do longa ‘O Som Ao Redor’, de Kleber Mendonça Filho - Foto: Reprodução


Marcus Vinícius Beck


O cinema alimenta a alma. É uma espécie de combustível artístico que embevece a vida, que faz a gente sorrir, que faz a gente chorar, que faz a gente gritar, que faz a gente amar... Ainda mais numa época em que estamos trancados sem casa, em que evitamos a proliferação do coronavírus, em que sentimos o efeito do estresse nos consumir, em que... bem... O cinema nos salva, nos tira da dúvida – ou ao menos atenua-a. Sim, atenua: seja por meio da representação da realidade na qual nos identificamos, seja por meio do exercício da empatia, isto é, de colocar-se no lugar do outro, emergindo num espaço-tempo diferente do nosso.


Para entrar no clima do Festival de Gramado 2020, a ser realizado virtualmente entre os dias 14 e 30 de setembro, a plataforma digital Now, da Net, coloca a disposição do público filmes que saíram-se vencedores nas últimas edições do festival. A lista é gigantesca, com preciosidades de diferentes períodos, e totalmente sui generis: “Como Nossos Pais”, “Ferrugem”, “BR716”, “O Som Ao Redor”, “Vai Trabalhar Vagabundo”, “Jorge Mautner – O Filho do Holocausto”, “Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia” e mais um bocado de obras que ajudaram a moldar a identidade cinematográfica brasileira fazem parte do catálogo.


“Como Nossos Pais”, drama dirigido pela cineasta Laís Bodanzky e lançado em 2017, conta a história da jornalista Rosa (Maria Ribeiro). Filha de pais divorciados, ela chega a conclusão que é mais careta que eles, o que molda a convivência da personagem com as duas filhas, crianças próximas da adolescência. Mas a crise da personagem não limita-se apenas a isso. O matrimônio com o antropólogo Dado (Paulo Vilhena) pode ruir num estalo de dedos. Esquerdo-macho à moda século 21, o sujeito é do tipo que tenta melhorar o mundo, mas esquece-se de casa. Um desastre. Tem ainda a relação com a mãe (Clarisse Abujamra).


Depois provocar alarde com “Para Minha Amada Morta” (2016), o diretor Aly Muritiba concebeu um filme cuja narrativa é dividida em duas partes, uma opção que agrega nuances à história e evita aquele maniqueísmo chato entre vítima e algozes. À frente da trama de “Ferrugem”, há o sofrimento de Tati após imagens íntimas suas vazar, angariando uma discussão sobre até que ponto as redes sociais, de fato, são uma ferramenta democrática. Na segunda parte, desenrolam os efeitos de um caso que a protagonista teve com um garoto. Aqui a discussão centra no moralismo dos colegas de escola, e a culpa recai sobre os adultos (Enrique Diaz) pelas tragédias.


Último filme rodado pelo cineasta e escritor Domingos de Oliveira, “BR716” é um libelo a favor da arte: sua fotografia, com textura em preto e branco, representa a diluição da memória. Com Felipe (Caio Blat), Domingos retorna aos hedonistas anos de 1960, quando reunia os amigos em casa para ‘molhar’ a palavra e falar de arte e cultura. Ao contrário dos seus contemporâneos de cinema novo, o rei da comédia romântica à brasileira jamais enveredou por questões políticas em seus filmes. Dizem “BR716” segue a toada, porém discordo: há, nitidamente, uma certa preocupação com o contexto pré-golpe de 64. Sem spoiler.


Mergulho


Se a geração de cineastas do final dos anos 1990 foi responsável por recolocar Pernambuco no mapa cinematográfico, o longa “O Som Ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho, engatinhou o que viria a ser o despontar de uma nova geração de cineastas, com olhar e ambição próprios.O filme, que foi lançado em 2013, fala sobre a realidade do Recife: insegurança, intranquilidade, etc. O longa retrata a presença de uma milícia em uma rua de classe média na zona sul da capital pernambucana, que muda a vida das pessoas que moram na região. Em “Aquarius” e “Bacurau”, Kleber Mendonça seguiu pelo mesmo caminho do cinema com cunho social.


“Vai Trabalhar Vagabundo”, obra lançada em 1973 com grana da extinta Embrafilme, retrata a história do jogador de sinuca Dino (Hugo Carnava, que também dirige a fita). O filme de Carvana é uma sátira política, quase um escracho ao Brasil fardado da moral e dos bons costumes. No elenco, o supra-sumo da boemia: Babalu (Nelson Xavier) e Russo (Paulo César Pereio), além, naturalmente, de Dino. Na história, nada demais: Russo está internado num hospício, Babalu aposentou o taco ao casar-se com Vitória (Rosa Lacerda). O enredo gira em torno do tão cultuado certame de brilhar, com a música de mesmo nome.


Agora, por fim, dois coelhos numa cajadada só: o documentário “Jorge Mautner – O Filho do Holocausto”, longa que passa a limpo a vida dessa figura interessante da cultura brasileira. Mas, por tratar-se um filme de não-ficção, talvez se ache que a obra só tem depoimentos. Engano: há mais, Mautner até toca, embelezando o público com sua arte. De Hector Babenco, baseado no romance-reportagem “Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia”, a obra de mesmo nome traz o ator Reginaldo Faria no papel do personagem-título. “Lúcio Flávio” aborda o grupo que foi denominado pela crônica policial como Esquadrão da Morte. Pereio, lenda do cinema brasileiro, está no filme.


Serviço


O Melhor do Festival de Gramado

Quando: de 15 a 30 de novembro

Onde: Net Claro (streaming)

Preço: R$ 6,50


apoie
No Brasil de Jair Bolsonaro, com a ascensão da censura e ataques recorrentes à mídia, o jornalismo independente se torna mais importante do que nunca. Não podemos nos calar.
Para isso, precisamos de você! Apoie o Jornal Metamorfose, jornalismo combativo e independente.
 
APOIE O JM!