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Triste semelhança

Perseguição às artes


Na década de 1930, Adolf Hitler perseguiu artistas sob a desculpa de defender a sociedade alemã da “arte degenerada”

Casa da Arte, em Munique, onde ocorreu a grande exposição da arte alemã - Foto: Reprodução

No dia 2 de dezembro de 1936, o escritor Thomas Mann vira que seu nome e de familiares estavam na lista de expatriados publicada no jornal Völkischer Beobachter (Observador Popular, em tradução livre). Era mais um episódio da perseguição deflagrada pelos nazistas aos artistas que se opunham ao regime. Seis anos antes, Mann fez um discurso em Berlim onde pedira para que a população rejeitasse o fanatismo fascista, e a partir de então os arapongas de Adolf Hitler tentaram lhe aniquilar da história alemã. “Eu já havia percebido há muito quem e o que subia ao poder”, desabafou o romancista.


Mais de oito décadas depois, do outro lado do atlântico, o secretário da cultura, Roberto Alvim, passou gel no cabelo, se meteu num paletó antiquado, botou para tocar a ópera “Lohengrin”, de Richard Wagner, e discursou: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”, disse. Minutos após o vídeo ser veiculado nas redes sociais, o site Jornalistas Livres detectou uma similaridade bem esquisita.


Não era para menos: Alvim plagiou descaradamente o pronunciamento de uma das figuras mais desprezíveis do regime nazista, o ministro da propaganda Joseph Goebbels. “A arte alemã da próxima década será heróica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”, ruminou o ministro em 8 de maio de 1933 diante de uma plateia formada por diretores de teatro, de acordo com o livro Joseph Goebbels: uma Biografia, do historiador Peter Longerich, publicado no Brasil pela editora Objetiva.


Da esquerda à direita: Roberto Alvim e Joseph Goebbels - Foto: Reprodução


Como todo mundo sabe, o secretário de cultura caiu e a sociedade civil repudiou seu discurso nazista. Mas o que o acende sinal de alerta é que a arte nunca foi de fato prioridade para gente com inclinações autoritárias: Hitler quando chegou ao poder, em 1933, tratou logo de deflagrar perseguição aos artistas modernistas sob o pretexto de defender a “pátria, a moral, a religião e os bons costumes”. O líder nazista, na verdade, era um pintor frustrado. Ao se sentar no trono do poder, decidiu freudianamente qual tipo de arte deveria ser glorificada pela sociedade e qual era degenerada e deveria ser banida.


Óbvio que a “verdadeira” obra de arte era aquela ao seu estilo: com paisagens insignificantes, cenas pastorais de quinta categoria e escultura greco-romanas, que, segundo o Führer, não eram contaminadas por judeus ou comunistas - qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, hein. A nudez era permitida, mas só se fosse a “clássica”. Pablo Picasso, Kandinsky, Paul Klee, Otto Dix, Marx Ernst… Sem distinção: do cubismo ao surrealismo, todos eram considerados pela Câmara de Cultura do Terceiro Reich “degenerados”. Mais de mil pinturas e quase 4 mil aquarelas, desenhos e gravuras foram destruídas, em 1939.


É proibido


“Modernismo agora é proibido”, deu o jornal norte-americano The New York Times na edição de 25 de julho de 1937. E era. Tanto que não foi apenas as artes visuais que sofreram com a mordaça imposta pelos nazistas: a literatura também sentiu os efeitos da ditadura de Adolf Hitler. Walter Benjamin, Theodor Adorno, Thomas Mann, Ernest Hemingway, Fitzgerald, entre outros, tiveram suas obras destruídas pelo regime. Exposições foram fechadas e livros queimados com a participação da polícia, e os artistas passaram a ser atacados publicamente por representantes do governo. A caça às bruxas estava a solta.


“Não é missão da arte chafurdar na sujeira pela sujeira, pintar o ser humano apenas em estado de putrefação… Ou apresentar idiotas deformados como representantes da força masculina”, afirmou Hitler, em um discurso realizado em 1935. Para mostrar que seu ponto de vista estava certo, o ditador acabou sendo convencido pelo homem forte da propaganda nazista, Joseph Goebbels, a colocar em cartaz duas exposições: uma com as chamadas obras “degeneradas” e outra com a arte “boa”. Ambas as exposições foram inauguradas em Munique e atrocidades foram cometidas, e obras de artistas judeus foram confiscadas.



Da esquerda à direita: Saxofonistas de jazz eram alvos do nazismo e cartaz da exposição da grande arte alemã - Fotos: Reprodução


Nem o jazz escapou do “crivo” dos nazistas. No começo da década de 1930, o diretor do Teatro Nacional de Weimar, Hans Severus Ziegler, um fervoroso admirador de Hitler, disse que o gênero musical representava a vitória da “cultura negra ajudeuzada sob aos arianos”. Até o saxofone, eternizado pela prosa de Scott Fitzgerald em Contos da Era do Jazz e pela técnica de John Coltrane, era visto pelos nazistas como um “instrumento musical negro”. “É uma verdadeira festa das bruxas, uma imagem da arrogância judaica e uma completa imbecilização espiritual", afirmou Ziegler numa exposição que depreciava o gênero.


No Brasil também há ‘especialistas’ em arte dizendo o que é bom ou o que é ruim. Como se esquecer dos fundamentalistas que pediram a retirada do ar do episódio do Porta dos Fundos que representa Jesus como homossexual? Como tapar os olhos para exposições que foram censuradas com a justificativa de serem “degeneradas”, a exemplo do Queermuseu, em 2017? Como não lembrar do embargo econômico que impediu a estreia do filme “Marighella”, no ano passado? Extremistas, em toda parte do mundo, independentemente da época que seja, vêm nos artistas um inimigo que precisa ser aniquilado.


Se os nazistas e sua arte “boa” foram parar na latrina da história, por que duvidar que isso não acontecerá por aqui. Afinal, Pablo Picasso, Kandinsky e tantos outros que tiveram suas obras aprisionadas por arapongas de Hitler - como mostra o documentário Hitler Contra Picasso e os Outros, de 2018 - são reverenciados até hoje como gênios vanguardistas que transformaram a estética no século passado. E Hitler? Goebbels? Mussolini? Franco? Salazar? Bem, eles ocupam um espaço que lhes é de direito: o lixo da história.


Trailer do documentário 'Hitler Contra os Outros', do diretor italiano Claudio Poli

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