Primeira crônica

Eis que escreverei minha primeira crônica neste espaço.

 

Considero-me um escriba rodrigueano com pitada drummoniana. Na faculdade, dizem que bebo na fonte literária de Hunter Thompson – aquele demente, depravado, bêbado, drogado, perigoso, do jornalismo gonzo, sabe? Não? Então deixa para lá, e se segue o jogo – ou melhor o texto.

 

Serei cronista, haja assunto! Quando olho para meu lado, encontro Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond, Fernando Sabino e Otto Lara Resende. Os mestres, os gênios, os meus companheiros de crônicas, os imortais do nosso samba das letras, será que é possível denominar este gênero assim?

 

Quanta pergunta, seu cronista! O que houve contigo, você está bêbado? Acho que não. Pelo menos agora. Mas descobri que não sou um “homão da porra”, porque eu bebo e escrevo coisas que remetem a bares fuleiros com mesas de sinuca e bitucas de cigarro pelo chão.

 

Bem, até beberiquei uma Bavária para pôr estas linhas tortas e trôpegas no papel. Mas o que me consume mesmo, meu caro, é a possível falta de assunto que todo cronista convive.

 

Ué, você precisa abrir o jornal apenas. Coisa fácil, ainda mais para um estudante de jornalismo.

 

Beleza. Vamos ao que interessa: ciúmes, o inferno do amor possessivo, como naquele filmaço francês.

 

Ciúmes, como naquela canção antiguíssima, que embalou inúmeros brindes às 4h, com o garçom querendo lhe matar, olhos lacrimejando de tanto chorar, cotovelo escorado no balcão, nobre Lupicínio, a voz embargada, de bêbado.

 

Sim, já vi quase tudo nesta vida, sobretudo à noite. Vi, vivi outras e confesso que cheguei a quebrar alguns controles remotos e outros utensílios em meu quarto, como um climatizador... encarolei-me, suor, sapato e cerveja espalhado pelo chão. Burro.

 

Cadê ela, Jorge Ben jor?

 

Mas, romantismo barato à parte, nunca vi nada igual ao ciúme do nosso Maria, digo, Antônio Maria, pernambucano, letrista, radialista, narrador de futebol, bêbado e melhor cronista sobre amor de todos os tempos. Dizem que o homem morreu de amor, acredita?

 

O leitor atento deve estar esbravejando vocábulos impronunciáveis a este cronista que vos escreve.

 

Calma lá.

 

Rubem Braga era grande, mas perdia, Maria não, abraçava às duas coisas que me mais nos interessa nesta vida – na minha e na dele: a boemia e as mulheres.

 

Já diria a sabedoria popular goiniense: trem bão é coisa boa, uai.

 

Nem se compara: Maria é mil vezes melhor que Braga, que pode ser um gênio, o maior da nossa crônica,

não contesto. Aliás, nem quero entrar nessas ondas erradíssimas de compará-los.

 

Como falei: Maria morreu de tanto amar.

 

De tanto amar.

 

Nunca se sabe por qual motivo uma mulher deixa um homem. A dor, todavia, é grande, e demora um tempo para o infeliz curar-se dela. É duro.

 

Ah, as dores do mundo, da paixão e da ressaca.

 

E o velho Maria morreu de quê?

 

Do coração, é lógico, o mais romântico dos músculos do corpo humano. E digo mais: só um amor de verdade mata um homem forte daqueles. Gordura, por causa de torresmos à milanesa, nunca matou

ninguém nessa vida, tampouco situações estranhas e alegres de qualquer tipo.

 

Mas o amor...

 

Assim é minha primeira crônica: dolorosa como as músicas do Odair José e leve como a Bavária temperada a Pica-pau (pinga do Sucupira, na Vila Nova).

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