• Marcus Vinícius Beck

Investigação jornalística num prostíbulo de Goiânia


Muito prazer, bem-vindo, estou sentado na cadeira de um puteiro, sou Vinícius de Moraes do Cerrado, amante incorrigível, autor do soneto da felicidade, escriba de quinta, jornalista gutenbergiano e aqui começa mais uma reles crônica.

São muitas ereções.... O importante é que eu as vivi.

Estamos conversando à beira do bar num dos maiores prostíbulos de Goiânia. A conversa está leve, linda, bela. *Amanda é mulherão da porra, e eu até hoje não consegui compreender com fidelidade como ela faz para tocar a vida... mulheres, eu as amo incondicionalmente.

Levanto e vou buscar mais uma cerveja. O preço é salgado, e não há nada que eu possa fazer - a não ser pôr a mão no bolso e tirar mais uma cédula do meu mísero salário de escravo do lead e sublead, que chora as pitangas ante a beleza feminina.

“Eu gosto de ser puta, gosto de dar, e não há nada que a família tradicional brasileira possa fazer... eu vou continuar dando, porque eu gosto disso”, afirma Amanda, que é formada em Direto na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO).

Com vocês, amigo leitor, Amanda: “O difícil mesmo é ter de aturar aqueles velhos barrigudos que ganham a vida passando a perna nos outros, esses daqui são foda porque eles acham que podem tudo com alguma grana no bolso e, no final, nem te comem direito”, sopra-me ela.

Vou tirar você desse lugar, Amanda. Aquiete-se... jornalista não pode se envolver com o personagem da matéria.

Eu vivo esse momento lindo, mesmo com a cabeça exalando pensamentos e poemas de Vinícius de Moraes, o poetinha, o rei dos versos românticos. Penso em Antônio Maria, melhor cronista de amor de todos os tempos – como já escrevi neste espaço. Vem-me ao cocuruto literário o primeiro parágrafo de sua crônica “Mulher dos outros”.

“Dia claro. Primeiras horas do dia claro. Havíamos bebido e procurávamos um café aberto, para uma média, com pão-canoa. Quase todos estavam fechados ou não tinham ainda leite ou pão. Fomos parar em Ipanema, num cafezinho, cujo dono era um português e nos conhecia de nome de notícia. Propôs-nos, em vez de café, um vinho maduro, que recebera de sua terra, "uma terrinha (como disse) ao pé de Braga". Não se recusa um vinho maduro, sejam quais forem as circunstâncias. Aceitamo-lo. Nossa grata homenagem a José Manuel Pereira, que nos deu seu vinho”.

Maria e Vinícius eram amigos e, três anos antes de morrer, o poetinha, em entrevista a Otto Lara Rezende, na Globo – difícil imaginar que a tevê já teve boas entrevistas em seu horário nobre, né? -, contou que ambos estavam perambulando por Copacabana, no raiar do dia, quando se depararam com um cara fazendo teste de cooper.

“Acho a maior perda de tempo as pessoas fazerem qualquer tipo de exercício físico”, sacramentou o poetinha.

Verdade. Sim, pois não há nada mais sórdido, ridículo, cretino e horrível do que sentar-se em aparelhos de academia para testar o organismo e sair de lá pronto para exibir braços musculosos pelas ruas.

Prefiro o amor. Amar, amigo, irá lhe acrescentar alguns anos de vida, tenha certeza. Só o amor salva.

Cá estou: levemente bêbado, olhando para uma morena maravilhosa, cultura e puta. Sim, puta! Chego próximo a ela, e pergunto: “sexo ou amor?”. Ela me olha. “Sexo... o amor fica para outra hora”.

Ora, eu iria lhe dizer que sou um amante invertebrado, todavia puxei as palavras para minha boca. Uma mulher, atesto, não vai querer tolerar um jornalista boêmio – ou um boêmio jornalista? – que tenha discursos ensaiados à ponta da língua.

Encaro Amanda, aperto aquela mão direita, fina e delicada. A mulher que eleva o ego dos homens, dando-lhes sensação de que são bons de cama, em tempos de frescurinhas. A professora sentimental, a Madame Bovary das massas, das iniciações sexuais de adolescentes que imaginam que o clitóris seja alguma música que toca nas paradas de sucesso... Amo-lhe, carajo!

O importante é que ereções eu vivi...

Amanda está me olhando e eu a olho como se estivesse diante de um quadro naturalista de Gustave Cobert.

Evoco Vinícius, e passo-lhe a bola. Vai, poetinha, vai:

“Que o meu peito me dói como em doença

E quanto mais me seja a dor intensa

Mais cresce na minha alma teu encanto”

O que seríamos de nós sem Vinícius? Amanda, preciso saber mais da tua vida!

O que querem as mulheres, Amanda, me diga? Nunca saberemos, contudo temos de desvendá-las como um soneto escrito na mesa do bar às 3h da madrugada, me diz ela.

Homem que é homem, bem se sabe, fica feito louco diante de uma mulher que lhe pede o impossível, como bem disse Otto Lara Rezende, aquele que o tio Nelson parafraseou no título de Bonitinha, mas ordinária... talvez, responde ela, secamente.

Eita, quanta incógnita, mujer!

Chove lá fora, e eu, o Vinícius de Moraes do Cerrado, recebo um convite de Amanda. “Vamos pro quarto, meu bem”, ordena ela. Acatei em nome do jornalismo investigativo, é claro.

É preciso entrar na intimidade das pessoas para descrevê-las, como ensinou Tom Wolfe e Gay Talese.

Como fica o resto, o leitor deve estar se perguntando? Bem, meu chapa, respondo-lhe, o resto fica na imaginação, pois se eu contar aqui, neste espaço sério, é capaz de ficar com meus textos apenas na memória do computador.

Chove lá fora...

E haja piadas na mente do leitor. Hahahahahaha. E haja piadas incorretas sobre a seriedade e decência deste escriba de quinta, escravo da retranca de cada dia, do lead e do sublead.

Uma coisa, porém, é certa: é tudo em nome do jornalismo literário, vibe o doctor Hunter Thompson.

* (Amanda é nome fictício. A personagem, de fato, existe, mas sua identidade foi preservada)