Eis a dor de um boêmio

August 4, 2017

Amigo boêmio, por obséquio, é o seguinte: outro dia, eu estava no bar e um colega jornalista, vilanovense e boêmio profissional bateu na mesa. “Um sujeito apaixonado é um tremendo otário”, bradou.

 

Boa, pensei. Ainda mais quando a moça que amamos nos pede algo, eita sensação maravilhosa da porra, o ‘não’ praticamente some de nossas línguas nestas situações. Um simples “alcance aquele copo pra mim” carrega conotações sensuais que fariam da temporada no inferno, com licença William Blake, uma jornada sensualmente maravilhosa no céu.

 

Seu Leandro, meu filho, traz mais uma, a coisa vai ficar feia daqui a pouco, e marca na minha conta, por gentileza, um dia lhe pagarei, prometo. “Eu não sei o que acontece com a cabeça de um cara quando ele está apaixonado. Há uma menina aí, cujo nome não vou falar para preservá-la, que fodeu com minha cabeça. Cheguei até a fazer análises num psicanalista”, desabafa ele.

 

Ora, vejam vocês, boêmios também se apaixonam, e não apenas pela birita. Todavia, a dor, como já escrevi neste lúdico e alcoólico espaço, demora para curar-se e, delicada e terrivelmente, o infeliz chora lágrimas de condolências, ao som de Lupicínio Rodrigues.

Só Lupicínio salva.

 

Meu amigo, contudo, está descontrolado como o Sizenando de Rubem Braga, que viu a amada cair nos braços de um playboy, que dor, Jesus Santíssimo, tenha piedade de nós, please!

Pobre rapaz rodrigueno, talvez aquele Fagner das antigas irá lhe amenizar a ferida, ou aquela cerveja que tu bebes na bodega da esquina de segunda a segunda como se fosse um crente que não sossega enquanto não encontra um templo aberto para rezar.

 

Tá bom, seu cronista, tu precisas parar com tuas divagações, o leitor deve achá-lo um infeliz. Bem, meus caros, desculpem-me, às vezes o ofício da crônica é doloroso como aquela fita francesa do Truffaut, sabe?

 

Sim, a mulher do meu amigo tem um amante. Daqueles amantes que se encontram à noite num bar cuja bebida mais honesta não sai por menos que R$ 15. Como faz, amigo, diga-me?

 

O rapaz, minha gente, cogitou até a ideia de contratar um detetive particular, todavia a ideia maluca, depois de alguns minutos, pulou de sua cachola de boêmio rodruigueano.

 

O melhor que podes fazeres, respondi ao camarada em fúria, és sumir por alguns dias, digo, ficar sem falar com a moça, inventar uma viajem, o caralho, sei lá, qualquer coisa, e dar todo tempo do mundo ao desgraçado deste amante.

 

Tens de banalizá-la, compreendes?

 

“Depois de uns tempos, Beck, ela volta a falar comigo, diz que tá com saudades e tal. É foda. Inclusive, o nome dela está salvo em meu celular com ‘larga de ser imbecil’”, diz ele. “Quando eu vejo, porém, estou na casa dela, segurando sua mão, como um adolescente diante da primeira mulher”.

 

É duro, eu sei, doctor...

 

Deixem que durmam juntos e acordes juntos, colados, abraços, de conchinha. Antes de eu finalizar a última frase, José bebeu todo o pica-pau (pingo, mel e limão) que estava em sua frente.

 

A vida dos amantes só dura muito, asseguro, porque o filha da puta vive as surpresas e valoriza cada muito do relógio como se fosse um time que está com o placar em vantagem e faltam cinco minutos para o juiz apitar.

 

Faça o meio de campo, e não trave a partida, caralho! José, violência, neste caso, será uma péssima escolha, vai por mim. O amante, doutor, jamais entenderá o que é ter uma mulher no domínio da TPM.

 

José pegou a cerveja, ergueu e brindamos. Vilanovense, ele perguntou onde eu iria ver o jogo. “Não sei ainda”, respondi. “Porra, Beck, vamo um boteco ali, na Vila Nova”, sugeriu ele. Meneei a cabeça, concordando, sem oferecer a mínima recusa.

 

Futebol é fundamental na vida de um homem.

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