• Rosângela Aguiar

Caminhar, uma forma de mobilidade urbana

A histórica foto que ilustra a capa do último disco gravado pelos Beatles, Abbey Road, se tornou, ao longo dos anos, em ícone quando se fala em priorizar o elo mais frágil e precioso da cadeia da mobilidade urbana. O clique feito de Paul, John, Ringo e George atravessando a faixa de segurança de um bairro residencial de Londres é emblemática por vários motivos e para muitos, de fãs e especialistas em trânsito. Organizações Não Governamentais, órgãos de trânsito, especialistas e pessoas, em especial as defensoras de um trânsito mais humano, tem usado esta foto feita pelo escocês Iain Macmillan para ostentar campanhas de educação de trânsito mundo a fora.


E para quem não sabe, o dia 8 de agosto é o Dia Mundial do Pedestre. Uma data celebrada pela Organização para as Nações Unidas – ONU – e várias entidades e governos porque os riscos à vida e a segurança dos pedestres são, na prática, riscos que atingem todas as pessoas que, em algum momento, saem de suas casas. Por que em algum momento andamos a pé, mesmo que tenhamos ido para nosso destino de carro, moto, ônibus, caminhão, trem, metrô... Ou seja, caminhar pela cidade é uma forma de mobilidade urbana e nós temos o direito e o dever também de andar em segurança.


E porque devemos nos espelhar nesta ação dos quatro garotos de Liverpool e procurar uma faixa para atravessar em segurança? Porque somos sim o elo mais frágil, porque o pedestre tem sido expulso e relegado a segundo plano na cadeia da mobilidade urbana, seja pela priorização dos carros e motos, ou dos ônibus; seja pela falta de calçadas ou calçadas irregulares existentes na maioria das cidades brasileiras. Sim, e no Brasil o caso é grave. Em Goiânia é uma situação crítica. Isso sem falar nos ciclistas que não são respeitados nem quando estão na ciclovia ou ciclo faixa.


A faixa de pedestres, tal qual conhecemos, foi criada na Inglaterra no final da década de quarenta. Inicialmente tinha as cores azul e amarela, e dois anos depois já figurava nas leis do trânsito do Reino Unido. No Brasil a Lei do Pedestre foi criada e entrou em vigor em 1990. No entanto, é mais uma lei pouco cumprida e muito desrespeitada. Segundo a Organização Mundial da Saúde o Brasil é o quinto país do mundo em mortes de trânsito, sendo que 18,2% das vítimas são pedestres.


E estimativa da OMS é que mais de cinco mil pessoas morram no trânsito por semana ocupando a posição de pedestre. Mortes que poderiam ser evitadas já que quem caminha não o faz em altas velocidades, não está exposto à possibilidade falha mecânica ou de perder o controle da condução e por isso mesmo não deveria ser uma atividade potencialmente fatal. Isso na teoria, porque temos que levar em conta a era tecnológica que vivemos e o uso de celulares. A máxima de dirigir e não falar ao celular e nem mandar mensagens vale também para o pedestre porque tira a atenção tanto ao caminhar quanto a dirigir.

Apesar desta ponderação, a morte de quem está caminhando pela cidade poderia ser evitada, poderíamos e devemos reduzir as estatísticas. Quem caminha não emite gás poluente, não causa engarrafamento, não precisa ocupar trechos de ruas e calçadas para estacionar, mas enfrenta cidades que não são “caminháveis”. Não temos calçadas seguras, confiáveis e acessíveis por todos, como ou sem dificuldades de locomoção.


E todos precisam respeitar o espaço do outro nas vias públicas. Em especial quem está de carro, moto ou caminhão, precisa ser mais responsável e lembrar que em algum momento do dia estará na posição de pedestre. E os governantes precisam oferecer calçadas e locais de travessia segura com passarelas sobre vias muito movimentadas ou rodovias. Todos devem se colocar na posição de quem caminha. E devem ter em mente qual é o espaço dos motoristas e qual o dos pedestres nas vias públicas. Sem o motorista consciente do importante papel como protetor do pedestre, não teremos um trânsito mais humano. Única e exclusivamente com o respeito ao outro que teremos um trânsito mais seguro, com menos mortes, porque somos todos pedestres.


05 dicas de travessia para os pedestres:


1) Segurança na travessia: Atravesse as ruas olhando para ambos os lados, respeite os sinais de trânsito e faixas para pedestres.


2) Comunicação com os motoristas: Antes de atravessar na frente dos veículos, faça contato visual com os motoristas para ter certeza de que eles te viram.


3) Travessia na faixa: Utilize a faixa de pedestres sempre que disponível. Quando não houver, procure outros locais seguros para atravessar, seja na esquina, em passarelas ou próximo a lombadas eletrônicas.


4) Pontos cegos: Não atravesse a rua por trás de carros, ônibus, árvores ou postes, pois a probabilidade de você não ser visto é grande.


5) Na contramão: Em estradas ou vias sem calçadas, caminhe de frente para o tráfego (no sentido contrário aos veículos).


05 dicas para motoristas evitarem atropelamentos:


1) Não induza o pedestre a atravessar mais rápido: Se caso o pedestre já tiver iniciado a travessia e, durante esse tempo o semáforo mudar, o pedestre tem a prioridade para concluir a travessia.


2) Dê a preferência: seja gentil e facilite a travessia. Quando houver faixa sem sinal luminoso, a preferência é do pedestre.


3) Atenção: Um atropelamento é sempre uma tragédia. Por isso, na proximidade de pedestres, reduza a velocidade e redobre a atenção.


4) Faixa de pedestres: Como o próprio nome já diz, a faixa é para a travessia dos pedestres. Não pare na faixa.


5) Buzina: Evite buzinar o tempo todo para pedestres. Isso só causa stress e sustos desnecessários, o que pode comprometer a segurança.