• Marcus Vinícius Beck

Que peça de teatro, o quê? Bora beber e ver o Coríntia

Amigo cachaceiro, se for assistir jogo algum do teu time, não leves a mulher ao bar, nem provoques aquele mala com camisa verde, vai dar merda com certeza. É mais ou menos isso que discutimos calorosamente nos botecos pés-sujos de Goiânia.

Um perigo, bate na mesa Godofredo, profissional na arte de enxugar copos, vila-novense e sofredor nato. “O futebol desgraça a vida do ser humano”, afirma ele, enchendo o americano e bebendo levemente um trago. “Podia estar fazendo outra coisa mais produtiva, mas estou vendo campeonato inglês”.

É a ciência do boteco e seus ensinamentos divinos, tudo bem, seu Leandro, traz mais uma, e passa a régua, por favor.

Eis que saí o tento do Barcelona de Guayaquil... Gooolllll.

O amigo palmeirense, que estava ao meu lado, compreensivelmente deu uma pancada na mesa: “Meu time é horrível, ruim, jogar esse futebol à lá Cuca é a pior coisa que poderia acontecer. O que adianta o elenco gastar milhões, e jogar isso?”.

Quanto sofrimento. Mas futebol é assim. Enfarta-se, obviamente, mas tudo bem, segue a peleja, mais uma seu garçom, hoje vou ficar até mais tarde, ah, vê aquele bolinho de carne também.

Até hoje toda espécie de gourmetização e ostentação me incomoda, me ofende, sempre fui um apreciador do popularismo alcoólico, devo-te mais uma titio Nelson, padrinho espiritual desta reles coluna, sou besta de colar em gente que não presta?

Amigo, não posso deixar de citar os heróis futebolísticos que me marcaram a boemia tradicional pós-jogo do meio e final de semana. Ora, um sujeito, um proletário tem de molhar a palavra após sair da firma, é lei federal.

Sim, de preferência o pobre diabo deve sentar-se naquela espelunca da esquina de casa, sabe? Aquela porcaria que possui cadeiras de plástico de alguma marca de cerveja.

Você, amigo chique, tens de parar num boteco para assistir uma partida de futebol, deixes tua camiseta de Real Madrid e Barcelona de lado, vivas o Goiás x Vila, Fla x Flu e Corinthians x Palmeiras (ops, a secação honesta funcionou, meus caros, hahahaha, quem sabe o ano que vem, né).

Dane-se, amigo sensível à poesia popular, o futebol se confunde com a história repleta de etnocentrismo e exploração de nosso continente. Apenas nas quatro linhas fomos melhores do que o pessoal do velho continente.

O resto é o coro dos desgraçados após a derrota ou triunfo do time do coração, desculpe García Marquez, todo clubista é um energúmeno irracional prestes a soltar palavrões aos borbotões.

Hei de ver o Timão ganhar, seu Odinir, nem que seja a última coisa que faça nessa vida de meu Deus, mesmo tendo de ouvir as lamentações alviverdes, as arrogâncias tricolores e, acima de tudo, torcendo loucamente pelo clube da Democracia Corintiana! Mesmo não compreendendo nunca, jamais, como uma criança pode vestir uma camisa com o nome de Cristiano Ronaldo, sendo que Ronaldo, Romário e Ronaldinho Gaúcho – só para ficar esses três – desfilaram pelos campos do mundo todo o molejo brazuca, e à casa tornaram no final de suas carreiras.

Para findar com chave de ouro: parabéns aos boêmios futebolísticos, porque proletário não tem, não, dinheiro para assistir concertos e sonolentas peças teatrais. Haja saco, e paciência! Que teatro, o quê? Bora beber e ver o Coríntia!