E tu é filho de quem?

August 22, 2017

 

O sobrenome nascimento é bem comum no Brasil e até de alguns ilustres como Edson Arantes do Nascimento, Abdias do Nascimento, Milton é Nascimento. Mas o que poucos sabem é a sua origem popular e como tal se mantém até hoje. 

Em um período não tão distante - como sempre gosto de me referir a escravidão, várias crianças que nasciam em meio as senzalas começaram a receber o sobrenome "nascimento". Pois, quando a mulher engravidava pelo "senhor" em alguns dos comuns estupros  - chamados de miscigenação - essa criança não poderia receber o nome daquela família, então logo ela veio "do nascimento", tá aqui, não dá pra fazer nada mais. Além disso dava uma boa confusão pois a referência que traziam pra não ficar "feio" era da família nascimento de Portugal, ou até diziam que recebiam esse nome pois nasciam no natal, dia do nascimento de Jesus Cristo para o cristianismo. 

O sobrenome é o que abre as portas, pois ele diz de onde você veio, e tem espaço em algum lugar pra alguém que venha do simples ato de nascer? O ato de identificação colocou cada um no seu lugar, as grandes famílias portuguesas em espaços de privilégios que não dependem de qualquer interferência, ao lado daquele Nascimento, Silva, Santos, etc.
 

 

Lembro bem que quando comecei a fotografar ou até mesmo falar, em alguns lugares a pergunta que eu sempre ouvia, hoje até menos, era: "Você é filho de quem? Seus pais fazem o que?" Era recorrente, e sempre brochavam quando eu dizia: "Minha mãe é diarista na casa da dona fulana e meu pai é caminhoneiro" acabava geralmente ali qualquer oportunidade, pois quando viam o meu trabalho sempre buscavam saber se era mais um que veio do nascimento ou se realmente é alguém de verdade. 

E quando se fala de meritocracia, você pode ter feito a universidade mais disputada, ter o melhor currículo, se alguém tiver o sobrenome interessante para aquele espaço, a vaga é dele. E não sou eu que digo isso, uma pesquisa do Instituto Ethos e do BID mostrou que até 2016, as 500 maiores empresas do Brasil só possuíam 4,7% de funcionários negros em cargos executivos. E quando se trata da questão do sobrenome e origem uma pesquisa nos EUA do The National Bureau of Economic Research, diz que pessoas com nomes considerados “negros” têm chances 50% maiores de ficar sem resposta no envio do currículo as empresas.  Pessoas com nomes Emily e Greg considerados mais brancos precisam enviar cerca de 10 currículos para receber uma resposta, já para nomes que soam negros, como Lakisha e Jamal tem que mandar no mínimo 15 currículos para receber uma resposta. 

As empresas não querem ver "neguim nem pintado de ouro", são poucas vezes que vamos estar em lugares onde o que dizemos realmente importa. Na última semana, estive no Facebook Brasil, a convite da Feira Preta, Mandacaru e a Cia de Talentos para falarmos da diversidade racial nas empresas, e propostas como essa fazem toda diferença, pois não adianta ler esse artigo e contratar um funcionário negro amanhã, pois não é só contratar, é reconhecer o espaço racial, que não somos todos iguais e que até quem veio "do nascimento" tem o seu lugar, sua cultura, seu conhecimento e isso só é compreensível vivendo o outro e estando aberto pra ser vivido também. 

 

O sonho de alguém que veio "do nascimento" quase sempre é existir um dia, pois todos os dias ter que fazer em dobro,  se superar, levar o seu e a dos ancestrais que tentaram também. Pois a única superação que eles querem ver é a troca de capitão do mato, que é no máximo sair das drogas pra ir pra chibata do pastor.

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