Goiânia Noise por um olhar incomum

August 26, 2017

Parei no primeiro bar que encontrei. “A senhora troca R$ 50?”, perguntei para a proprietária do estabelecimento. Ela acenou negativamente, e disse algo relacionado a poucas cédulas no caixa. Tudo bem. Mirei as garrafas de destilado que haviam no balcão. Apontei para o Red Label, e perguntei o preço. “10 reais”, falou ela. Pedi uma dose, bebi e abri uma cerveja. Agora sim!

 

Fumei uns dois cigarros e observei o estereótipo do público. Primeiro passou por mim um cara com feição fechada, vestido todo de preto e com uma lata de Heineken em suas. Olhei para o outro lado. Um casal descia em direção a entrada. Encarei-os e cheguei à conclusão de que é evidente uma espécie de elitização do público pelo Goiânia Noise: todos que estavam lá deveriam ser algum burocrata durante a semana que gritam insanamente quando vai a um show de rock. À minha esquerda, porém, passou três mulheres, sorrindo e gritando coisas impublicáveis sobre a vida e a porra toda.

 

Legal. Evidentemente, o mundo se transformou, e nós ainda estamos com a cabeça nas décadas de 1960. Eu, reconheço, estou com a cabeça afundado nas insanidades do jornalismo gonzo, mas é a única coisa que sei fazer: contar histórias desvairadas, alucinadas, lunáticas e depravadas sobre o mundo. Puro jornalismo gonzo, doctor Hunter S. Thompson!

 

Sim, meu negócio é perambular pelo submundo e extrair a melhor história de tudo isso. Chega de publicar a burocracia do lead e sublead. Viva a anarquia verbal.

 

Olhei em meu relógio: eram 22h30. Findei minha lata de cerveja e me apresentei para o segurança. “Sou repórter do site Metamorfose, e estou fazendo uma matéria sobre o Goiânia Noise...” O sujeito não me deixou terminar, e emendou: “Olha, imprensa é com esse cara ao lado, tá?”.

 

Meneei a cabeça. Tudo dentro dos conformes. Coloquei meu crachá. “De qual veículo o senhor é?”, interrogou o recepcionista. “Sou de Metamorfose, amigo”, respondi, educadamente e bocejando.

 

Ele riscou meu nome da lista. Senti-me o jornalista mais importante de Goiás: meu nome estava numa lista de figuras ilustres da cena underground da cidade. Agora sim! Eu estava em meio ao suprassumo da esquisitice roqueira. Inegavelmente, os organizadores do evento sentem-se parte de alguma organização secreta que os leva ao status de celebridade: criticam o próprio evento se for necessário nas redes sociais. Foda-se. Tudo certo. Também considero-me altamente esquisito, mas não sou estrela – ao menos ninguém nunca me falara isso.

 

Acendi um cigarro. Comprei três fichas de Heineken por R$ 6. Bebi a primeira latinha andando pelo local, mas não encontrei rigorosamente nada para fazer.

 

Fui até a entrada, e pedi para sair. O cara balançou a cabeça, dizendo que era sossegado pitar um cigarro do lado de fora – desde que não demorasse muito. Foi o que fiz. Enquanto bebia e pensava no texto que teria de redigir e no Camisa de Vênus, percebi um cara sentado sozinho, no meio-fio.

 

“E aí, tudo bem?”, saudei.

 

“Tudo”, respondeu ele, acendendo um cigarro.

 

“Qual show que você mais espera?”, perguntei.

 

“Ah, cara, Camisa de Vênus, né”, declarou. “Os eles vão tocar Raul, e isso por si só já é massa para caralho”.

 

Conservei com Roberval por longos minutos.

 

Ela era de meia-idade. Deveria ter aproximadamente 50 anos. E dizia ter trabalhado nos melhores jornais do Brasil. Legal. De repente, discorri sobre Odair José e sua clássica obre O Filho de José e Maria. Parecia que eu estava numa plateia e Roberval era meu ouvinte. Coitado! Ninguém merece me ouvir mais do que cinco minutos.

 

Huuummmmm, conheço esse seu discurso. Calma, muita calma, sobretudo calma...

 

Entre algumas sílabas trocadas, descobri que Roberval era assessor da Secretaria de Segurança Pública de Goiás e Administração Penitenciária (SSPAP-GO). Ao me apresentar, ele pegou minha mão e disse que era um enorme prazer ter conhecido. Por pouco deixei me levar pela sua retórica terno e gravata. Certamente, se eu ficasse conversando com Roberval por mais dois minutos já me tornaria um burocrata naquele momento.

 

Marcelo Nova, 66, subiu ao palco. Era o mesmo de 30 anos. O show mais importante da primeira noite iria homenagear o mestre do rock nacional, Raul Seixas. Conhecido como “Maluco Beleza”, Raulzito foi um dos músicos mais geniais que o Brasil já teve. Em sua música, ele gostava de misturar múltiplos gêneros, como brega e rock. O vocalista optou por uma sequência imbatível de clássicos de Raul Seixas: sem parar, a banda mandou Cowboy Fora da Lei, Metamorfose Ambulante, Al Capone e outros.

 

Na apresentação, Marcelo aproveitou para alfinetar os artistas que deixam o público esperando para tocar o bis. “Esse negócio de bis é chato para cacete. Pior que bis é homem de coque”, brincou Marcelo, para delírio de todos que estavam ali. Em seguida, ele mandou os clássicos Simca Chamboard, Eu Não Matei Joana Darc, My Way e dentre outras. Eu me remexia como se estivesse num estádio de futebol domingo às 16h. Camisa de Vênus foi uma das primeiras bandas que ouvi, ainda criança, no interior do Paraná. “Nós vamos alugar o Brasil, nós não vamos pagar nada, é tudo freee”, entoou Marcelo.

 

Acendi um cigarro. E fiquei parado em frente ao camarim da banda, mas a produção do evento não me deixou entrar porque “eu não era de nenhuma banda”. Ora, meu crachá estendido em meu peito não valia merda nenhuma naquele momento. Cogitei seriamente a ideia de mandar alguém ir à casa del carajo, mas achei mais inteligente abrir uma cerveja.

 

Tttttxxxxxiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii... bem melhor. Até hoje não compreendi o que leva um homem a ficar completamente sóbrio. Mulher? Dinheiro? Burrice? Deixe para lá. Sou apenas um jornalista bêbado à lá Hunter numa casa de show onde aconteceu um dos maiores festivais de música alternativa do Brasil. Todavia quando eu estava prestes ao meu domicilio trabalhar, eis que recebo uma proposta indecente: beber uma cervejinha de leve num posto no Setor Jaó.

 

Ora, dizer não numa hora é um ato de extremo indelicadeza. Aceitei, é óbvio, e em nome do jornalismo gonzo.

 

No dia seguinte, por pouco não fracassei em minha tentativa de ir à aula. Bem, sou provavelmente o único filha da puta deste planeta que tem aula aos sábados. Em três ministradas pelo professor, não assisti nenhuma em um nível sério de sobriedade. Aliás, sempre desconfie daquele desgraçado que está sóbrio em pleno sábado de manhã. Os sábados inquestionavelmente foram feitos para encher a cara, de modo a libertar-se das mentiras que são contadas de segunda e sexta.

 

Pânico. Como eu iria redigir a porra da matéria? Fodeu. Eu estava fodido. Sou um irresponsável do caralho que não pode jamais cobrir cultura. Que nada, cultura esses eventos culturais são uma desculpa para o jornalista beber sem se sentir culpado.

 

É verdade. Pena que a bebida não é de graça.

 

À noite, fui exclusivamente para o show do Odair José. O “rei das empregadas” cantou seus clássicos para centenas de pessoas. E, loucamente, todas gritaram “Odair, eu te amo” como se o amanhã fosse um amigo distante que vemos apenas no final do ano. Odair conduziu sua apresentação com alguns de seus clássicos como Vou Tirar Você Desse Lugar, Cadê Você, Nunca Mais, Essa Você Vai Ser Minha e outras.

 

Sim, Odair foi um dos artistas que descobri já adulto e jamais deixei de ouvi-lo. Suas letras, mesmo com um uma pegada brega, era boas de analisar: tinha histórias que remetiam às lutas das minorias.

 

Ao findar a apresentação, porém, fiquei por mais alguns minutos no pátrio do Jaó Music Hall. Conversei com alguns amigos, mas nada muito sério: eu estava completamente cansado. Em seguida, com seus olhos piscando, parei em frente ao mesmo bar e pedi uma dose de Montilla.

Escorreguei uma cédula de R$ 5. De repente, um amigo chegou e perguntou se eu não tinha uma grana para beberemos um destilado. Como não sou de negar, aceitei e brindamos um Red Label, mas a proprietária não estava nada feliz em nos ver ali em condições lamentáveis.

 

“A gente é jornalista”, tentou se explicar José. “Vai sair texto no Diário da Manhã e no Metamorfose sobre você”.

 

Ela não disse nada. “Acho melhor a gente virar as costas e vazar, cara”.

 

Sim. Boa ideia.

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