• Fernando Morreu

Ação direta: o princípio ativo do amor e do ódio

Embora a ação direta seja um método utilizado por várias tendências políticas, por organização espontânea dos trabalhadores, mesmo que esses não tenham seu conhecimento teórico (quando moradores fecham as ruas com barricadas, quando usuários do transporte urbano depredam ônibus, quando ocupam prédios ou fazendas, por exemplo), e até mesmo por setores e sindicatos ligados à política partidária, atualmente, ela está presente em todas as revoltas populares. Historicamente seus maiores defensores são os anarquistas, pois o nosso papel não é dirigir nem liderar a massa trabalhadora, e sim incentivar o uso dessa tática. Os reformistas buscam o voto pela democracia burguesa, os socialistas buscam uma centralidade por meio de partidos, o anarquismo tem como método a ação direta. De forma simples, a ação direta é quando um grupo militante, uma parcela da população, um grupo explorado ou os trabalhadores se auto organizam sem depender de políticos, ou de quem quer que seja para chegar a solução de um problema social, solução decidida de forma horizontal democrática direta, ou seja com a participação de todos na decisão, através de uma assembléia por exemplo.

Ação direta é um método ou tática que busca mudanças em curto prazo, reformas, não como o reformismo (movimento que busca a transformação política e econômica da sociedade mediante a introdução de reformas graduais e sucessivas na legislação e nas instituições já existentes, esperando pelos mesmos que controlam o estado e suas leis, que são instrumentos de controle dos ricos, dos políticos, por meio da política partidária, negociações e até a submissão e conciliação de classes como temos exemplos dos governos do PT que adotou políticas sociais mas se aliava aos responsáveis pela miséria e concentração de riqueza nas mãos de poucos, como é o caso do agronegócio e o grande empresariado, e como vimos, esse método nunca funcionou porque deixa de lado a base estrutural desse problema, sem necessidade de mudanças bruscas nessa estrutura) beneficiem as classes exploradas, que instiga e mobiliza os trabalhadores à luta e forçar o estado, governo e/ou o empresariado - a classe dominante - a atender as reivindicações desses. Ela é o elo do pensamento e ação do povo sem esperar que alguém faça por eles, é a pressão popular contra o estado e as classes privilegiadas (os que detêm as riquezas ou os meios de produção, fábricas, indústrias, empresas) em tempo real que se adapta de acordo com as necessidades, sem deixar de lado a revolução social por completa, porém, buscando no aqui-agora melhorias para o povo até que cheguemos a ela.

Um exemplo histórico de ação direta são os quilombos, por decisão própria segundo as suas necessidades, os negros, escravizados da África que vieram para o Brasil, não dependeram de ninguém a não ser da própria vontade e criaram esses espaços livres, de resistência, eles por eles, e até hoje a resistência quilombola permanece viva!

As ocupações das escolas, tema atual no nosso país, também é uma forma de ação direta, pois com princípio de horizontalidade -ou seja, sem lideranças hierárquicas, independentes de partidos políticos - se auto organizando e auto gerindo. Sendo assim, uma forma de pressionar o governo e impedir o avanço de um projeto extremamente excludente e baseado em interesses econômicos particulares e de seus amigos empresários, de chamar a atenção da outra parcela da população para se atentarem a um tema que os afeta diretamente. Os alunos não precisaram pedir autorização para ocupar as escolas, eles simplesmente foram por livre e espontânea vontade, e assim o fizeram. Diferentemente do método de ensino aplicado no nosso país, esses alunos aprenderam em pouco tempo o que é tomar as rédeas da própria vida, geri-las, aprender a viver e se organizar quanto coletivo e se ver como um indivíduo responsável pelo futuro da sociedade que planejam construir.

A luta pelo transporte público que deu início a jornada de 2013, é outro exemplo recente na nossa história. O grupo MPL (Movimento Passe Livre), de acordo com os próprios, “é um movimento social autônomo, apartidário, horizontal e independente, que luta por um transporte público de verdade, gratuito para o conjunto da população e fora da iniciativa privada”.

O MPL movimento batizado na Plenária Nacional pelo Passe Livre, em janeiro de 2005, em Porto Alegre. Antes disso, há seis anos, já existia a Campanha pelo Passe Livre em Florianópolis. Alguns fatos históricos importantes na origem e na atuação do MPL foram a Revolta do Buzu (Salvador, 2003) e as Revoltas da Catraca (Florianópolis, 2004 e 2005), também é um outro exemplo atual, persistente, já que as empresas do transporte público (que na verdade são privadas ou de parceria público/privada) insistem nos ataques contra os trabalhadores com aumentos abusivos, visando apenas o aumento do lucro, a resistência continuará e crescerá até que por fim nossos direitos e reivindicações sejam atendidos. É o povo nas ruas fazendo barricadas, fechando terminais, trabalhando de forma direta.

Rob Sparrow, no artigo “Política Anarquista e Ação Direta”, explica que:

“Os exemplos de ação direta incluem bloqueios, piquetes, sabotagens, ocupações, colocações de barras de metal em árvores (um tipo de ação, conhecido em inglês pelo termo “tree spiking”, não tem uma boa tradução em português. É uma forma de sabotagem que consiste em introduzir uma barra de metal ou outros tipos de material (geralmente martelando-os) no tronco de uma árvore, com o objetivo de intimidar aqueles que têm o objetivo de derrubá-la. Apesar de ter sido desenvolvida no século XIX, essa técnica voltou a ser aplicada, com ênfase, pelos ambientalistas dos EUA na década de 1980), greves parciais, reduções no ritmo de trabalho, e a greve geral revolucionária. Na comunidade, ela envolve, entre outras coisas, o estabelecimento de nossas próprias organizações como as cooperativas de alimentos, as televisões e as rádios às quais a comunidade tem acesso, e que expõem nossas necessidades, o bloqueio da construção de uma rodovia que divide e envenena as nossas comunidades e a ocupação de moradias por necessidade. Nas florestas, a ação direta interpõe nossos corpos, nossa vontade e nossa ingenuidade entre a selva e aqueles que a destruiriam. Além disso, ela age contra os lucros das organizações que dirigem a exploração da natureza e contra essas próprias organizações. Na indústria e nos locais de trabalho, a ação direta tem também por objetivo aumentar o controle dos trabalhadores ou atacar diretamente os lucros dos patrões. As sabotagens e as reduções no ritmo de trabalho são técnicas populares e consagradas pelo tempo ao negar aos patrões os lucros da exploração de seus escravos assalariados. As greves parciais e as greves selvagens, sem participação ou consentimento de sindicatos, são formas de iniciar o conflito industrial que ataca diretamente os lucros dos patrões. No entanto, a ação industrial que é empreendida meramente como uma tática de parte das negociações para ganhar um aumento de salário ou outras concessões de um patrão, não é um exemplo de ação direta.”

A "ação direta" é a contribuição particular dos anarquistas no campo do método político.

Referências:

Rob Sparrow "Política Anarquista e Ação Direta” traduzido por Felipe Corrêa e disponível no anarkismo.net

Sérgio Augusto Queiroz Norte "Autogestão e Ação Direta ontem e hoje"

A luta de classes:

https://www.significadosbr.com.br/luta-de-classes

Indicações:

Anarquismo e Anarquia Errico Malatesta

TÁTICA E DISCIPLINA DO PARTIDO

REVOLUCIONÁRIO

Mikhail Bakunin