• Rosângela Aguiar

Não tive tempo…

Não tive tempo de chorar a morte da minha avó. Não tive tempo de chorar minhas perdas. Não tive tempo. Fui atropelada pelos acontecimentos da minha vida, do país, do mundo. Fui atropelada pela vida. Fui atropelada pela depressão.

Não é uma tristeza. Não é uma melancolia pelas perdas. É depressão.

Um dia o céu azul me encanta, apesar do calor. No outro o céu azul é insuportável e vai perdendo a cor até ficar cinza pelo meu olhar.

Um dia acordo me achando linda, gostosa, poderosa. No outro não reconheço na imagem do espelho a mulher que já fui um dia. Me acho feia. O cabelo está ruim, a pele estranha. Uma sombra no olhar.

Às vezes olho para minha tatuagem na perna e a Fênix ali desenhada me lembra de quem sou e do meu poder de renascer das cinzas. Às vezes olho para esta tattoo e só vejo rabiscos.

Às vezes troco palavras, troco letras de lugar ao escrever. Às vezes começo a escrever uma frase, decido escrever de outro jeito e esqueço de consertar o início. O raciocínio, às vezes, fica incompleto, embaçado, confuso, incongruente.

Às vezes cometo erros inimagináveis de gramática ou de ortografia. E não me reconheço. Não reconheço a profissional que sempre fui.

As vezes a criatividade que me é peculiar fica escondida atrás de uma nuvem cinza que insiste invadir meus pensamentos.

Domingo não dormi direito. O sono fugiu no meio da madrugada. Levantei e fui para a rede na varanda. Uma claridade surpreendente invadia a varanda. Era a lua, linda e majestosa. Fiquei a observa-la, extasiada com sua beleza, com sua intensidade, com sua força e energia. Como clareava a noite escura e silenciosa. Como clareava meus pensamentos.

Numa outra noite a lua estava tão bonita quanto. Iluminava ainda mais a minha varanda. Mas a sua majestosa claridade me incomodava.

Os dias têm sido assim. Instáveis. Um dia bom, outro ruim, outro mais ou menos. A depressão é assim. Ela nos rouba o que temos de melhor e nem sempre quem convive com a gente vê que estamos diferentes. Não enxerga como estamos.

A depressão nos atropela como um trator e nem sempre nos damos conta. E entorpecida pelos remédios, o azul fica mais azul, os dias ficam mais constantes. A alegria volta com mais frequência e todos, inclusive nós mesmos, achamos que estamos bem. Mas não estamos. É apenas o torpor.

Somos tomados por este torpor. Muitas vezes não somos quem realmente somos. A vida roubada pela depressão não volta. O caminho é árduo e árido para retomarmos de onde paramos. Para retomarmos as rédeas de nossas vidas, mas temos que seguir em frente.

A vida segue seu fluxo. Por isso caros leitores e internautas, eu peço desculpas pela minha ausência nas últimas semanas. Peço desculpa pela ausência de textos novos. E que este sirva para que todos reflitam sobre a importância de sermos mais empáticos com quem está ao nosso lado. Para que haja mais empatia e sororidade pelo outro.