• Marcus Vinícius Beck

A beleza por trás homem mal diagramado

Amigo bebum, tim-tim, eis que escreverei a epistola do homem feio, do homem mal diagramado, do homem desfavorecido, do homem alvo de piadas nas discussões da alta sociedade. Como é tradição de toda discussão alcoólica e boêmia, não poderia deixar de publicar este rabisco semanal em prol dos seres que são esteticamente desfavorecidos. Ajudá-los e compreendê-los é a minha verdadeira tese antropológica de boteco, o que resto é resto.

Traz mais uma, seu Xavier, a firma pagou o contra cheque que estava em atraso e a próxima, juro, é por minha conta. Sou mais um devoto da boêmia de cada dia, provavelmente um literato com sérias tendências ao alcoolismo e severamente feio. Sim, feio, qual o problema? Independentemente de qualquer coisa, lembre-se: se a vida dói, drinque caubói.

Carpinteiro Libanês, figura carimbada nas instituições boêmias, tirou um pandeiro do porta malas do carro, e começou a tocar Adoniran Barbosa. Todos, simplesmente todos que estavam no boteco, entoaram cânticos entusiasmados sobre a letra do rei do samba paulista. Em seguida, num ato de extrema delicada lírica e bêbada, Carpinteiro apelou para o clássico Mulheres, de Martinho da Vila. Por pouco, muitíssimo pouco mesmo, não chorei. Evitei um baita vexame.

Imagine só: um jovem jornalista, tiozão em potencial, totalmente embriagado, chorando por ser mal diagramado. Porra, não dá! Aliás, caso tivesse feito uma merda dessas, me tornaria persona non grata no clube dos esteticamente desfavorecidos. E, para meu e seu consolo, nosso clube já contou – e conta – com integrantes de peso, como Nelsão, Vinícius, Henry Miller e Hunter Thompson.

Resumindo: a beleza é passageira e a feiura, meu caro Xico Sá, outro integrante ilustre do grupo, é para sempre, então nos resta apenas aturá-la e entendê-la. O francês Serge Gainsburg, o tio que pegava Brigitte Bardot e Jane Birkin, na década de 1960, autor da canção mais orgástica de todos os tempos, Je T'aime Moi Non Plus, era horripilantemente feio. Veja só!

As mulheres, é bom ter em mente, ao contrário do que a maioria dos homens pensa, são empáticas com sujeitos desfavorecidos, algumas fazem até caridade. E não me venha com essa de que elas estão atrás de grana, porque se fosse assim o cara que mora embaixo da ponte estava sozinho, e não com seu amor ao lado. Corta essa, rapaz!

E, para fechar com chave de ouro este breve manifesto sobre o charme da feiura masculina, homem que é homem não trabalha apenas com senso-estético. Aquele bonitão, com o braço malhado, que corre por longos quarteirões no crepúsculo diário, tenta ganhar por nocaute, mas nós triunfamos por pontos corridos.

Boa sorte, camarada mal diagramado, a humanidade é foda, mas sempre há o boteco, e é importantíssimo ficar bem colocada nele, de preferência na primeira mesa que encontrar. A gente nunca sabe o que elas procuram pela noite, vai que rola! Até a próxima sexta. Tchau, obrigado!