Crônica dos esquecidos

October 10, 2017

Estávamos a caminho da pauta, conversando sobre futebol e discutindo a possibilidade de a Argentina ficar fora da Copa do Mundo do ano que vem. Naquela tarde, uma tarde como outra qualquer, tínhamos a missão de entrevistar os moradores da Vila São José, uma das maiores áreas de risco de Goiânia, que pelo menos uma vez por ano é alvo de enxurradas que devastam moradias com águas que chegam ao pescoço em época de chuva torrencial.

 

A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de declarar poemas para a pessoa que amo, de mergulhar no pitoresco e conseguir colher um relato fidedigno da realidade. Como jornalista, quero apenas retirar do cotidiano algo diferente do que é estabelecido nas redações. Neste teatro do absurdo, quer num depoimento de moradores da Vila São José, quer nas palavras ditas pela criança que pede esmola no semáforo da Avenida 136, torno-me um simples espectador, um ignorante em potencial e perco a noção do essencial – será? - para um jornalista: a imparcialidade.

 

Foda-se a tal da imparcialidade. Sem mais nada para delirar, curvo a cabeça para fora do carro e comento algo sobre a desigualdade social. Não sou poeta, tampouco artista. Um mero jornalista em busca de um relato perdido. Lanço então um último olhar para fora de mim, onde aquela criança passa de Mercedes em Mercedes blindados por ar-condicionados pedindo um vintém para comer um sanduíche e beber um café na padaria da esquina.

 

O motorista do jornal, *Rogério de Oliveira, engatou a primeira em seu Volkswagen Gol e saiu pelas ruas do Setor Marista em direção aos fundos da velha Campinas. *Marcelo, Oliveira e eu conversamos por alguns instantes, passamos pela Avenida Leste-Oeste, na região central da capital, até que nos deparamos com um relato de um náufrago, literalmente. A cena era irrisória e surreal. Enquanto uns ligam seus chuveiros em apartamentos de luxo, outros estão à mercê dos trambiques de nossos gloriosos governantes.

 

Comovido pela imagem que vi, desci do veículo e fui em direção a duas senhoras de aproximadamente 70 anos. Eles estavam com a voz triste, olhar cansado e apreensivas.

 

Apresentei-me a elas, que não disseram nada. O fotógrafo, que tem mais experiências do que eu com situações como essa, tratou de fazer algumas perguntas para acalmá-las e discorreu sobre a ineficiência do Poder Público em praticamente tudo em que põe a mão. Mais confortáveis e à vontade conosco, elas argumentaram que políticos só vão à Vila São José em época de eleição, “para conseguir alguns votos”.

 

Passei a observá-las. Rosângela da Silva, costureira e moradora da Vila São José há 40 anos, queixou-se de que quando chega o período de chuva a tensão e a insegurança prevalece ante a tranquilidade e calmaria. “Basta cair algumas gotas de chuva do céu para tudo ruir pelos ares e, logicamente, a gente fica totalmente apreensiva, né. Nem dormimos à noite”, afirma a costureira.

 

Respirei fundo. “No ano passado, o prefeito Iris Rezende durante a campanha eleitoral veio ao bairro, mas até agora nada foi feito”, relata Rosângela. “Num ato de brincadeira com a nossa cara, ele chegou a andar em cima de um cavalo pelas ruas do Setor”. A costureira, inclinando-se para escorar-se no pilar de sua sofrida residência, olhava-me atentamente, como quem estava fascinada pelo mundo de um reles estagiário. Por alguns minutos, refleti sobre a práxis jornalística, e ponderei: se não é pelo patrão, que seja por gente como a dona Rosângela.

 

“Eu queria mostrar para vocês como é o córrego Cascavel, que passa no fundo de nossos bairros”, disse a costureira. No ano passado, o prefeito Paulo Garcia (PT) tentou barrar a água da chuva com uma obra de eficiência duvidosa, pois era nítido ali que bastaria uma chuvinha de nada para o córrego transbordar e a terra, que deveria conter a enxurrada, virar lama e invadir – mais uma vez – as residências.

 

Olhei à rampa. Era um barranco daqueles que se sobe num passo, num só fôlego, de modo a evitar fadiga tabagista, caso o seja. Brinquei com Rosângela e disse que para subir no local seria necessário estar com o corpo físico em ordem. Ela sorriu, e aquele sorriso fez com que meu dia tivesse valor. Enquanto o fotógrafo conversava com ela, eu analisava a obra “paliativa” que fora feita pela prefeitura no ano passado. Antes de morrer, o ex-prefeito esteve na região, e foi vaiado pela população.

 

“A matéria vai sair na televisão?”, perguntou Rosângela. “Não”, falei, “vai sair em jornal de papel”. Ela ficou por alguns segundos calada, e disse: “e onde eu vou encontrar ele?”. Respondi: “Em alguma banca de revista no centro da cidade”. Rosângela, ao ouvir minha última frase, lamentou e disse que não teria condições de lê-lo, porque o centro era muito longe de seu bairro, e ela fora para lá apenas algumas vezes em toda sua vida. “Aqui nem ônibus passa”, explicou. “Como vou ao centro?”

 

Na padaria da esquina, após entrevistarmos as fontes necessárias para a reportagem, o fotógrafo me alertou sobre as pedras que constituem o caminho do ofício jornalístico em Goiás. Prestei atenção atentamente em tudo o que dissera. Afinal, sou apenas um jornalista – ou escriba? – bêbado, boêmio que até hoje não aprendeu sobre as amarguras do delírio cotidiano.       

Não queria que minha crônica-reportagem fosse assim: um jorro de palavras, sem adjetivos nem brincadeiras, sobre a irrisória realidade dos que vivem à margem dos ricos. Mas a realidade assim a pediu, e assim a concebeu. Até a próxima.

 

*os personagem existem, mas o site Metamorfose preferiu preservar suas identidades

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