• Metamorfose

Texturas de uma nova realidade – BNegão Bota Som convida Russo Passapusso

Dias de revolução corriqueira, um corte novo no cabelo, autosuficiente. Dias de leveza, talvez seja do feriado à natureza. Ponte construída, quiçá a vida voltou a ser pluralmente desses seres, tão humanos. Se o conhecimento é a performance da consciência que reverbera no coração da arte, a cultura é a única saída para a ignorância.


Andar rumo a autonomia é construir um mundo habituado para uma nova sociedade, mais coletiva. Experiências de vida são essenciais pra que cada um de nós acredite no novo. Coragem? Por quê? A escolha de não se acomodar, aceitar o que não te agrega, medo de criar?


De um mar de opressões nasceu um momento, Pacabá. A produção de uma realidade construída para deixar gozar a diversidade. “É um movimento, uma nova era”, sussurra a cantora Lorranna Santos ao pé de meu ouvido sobre a festa BNegão Bota Som, que aconteceu na chácara Sete Pontas na véspera de feriado (11/10).


Os cômodos da nova realidade se abrem com as paredes escancaradas de oportunidade, abertura da consciência. “Existe um estereótipo, acho que as pessoas deveriam procurar outros caminhos. Deveria ter porta pra tudo, sabe? Existe, mas o problema é: quem vai bater a mão no peito e falar ‘eu vou fazer’. Entendeu?” continua Lô.


E se alguém fizesse? Como seria a expressão humana se chocando com a resistência?


Sentados à espera do momento a se criar, ao meu lado esquerdo, BNegão diz “são várias novidades, o lançamento da produtora Pacabá, o Russo Passapusso estreando como DJ, e isso eu acho fundamental pra vida. Uma coisa que eu sempre achei é que a gente tem que agir nas frestas, saco? Por mais que nego tenta fazer coisa fechada de forma hermética sempre existe frestas. A gente tem que botar as sementes, umas pólvoras, umas coisas diferentes ali e esse é o nosso trabalho, deixar o mundo novo florescer.”


A festa começa com a discotecagem anárquica de sons sem amarras de Monike Goyana. “Eu vou misturar tudo, Peru, Chile, África. Eu quero incomodar hoje”, me dizia algumas horas antes, enquanto arrumava os vinis em seu aconchegante apartamento no centro da cidade. Dito e feito, seu set incomodou os corpos estáticos que chegavam à festa, o corpo queria mexer ao som desconhecido pela mente.


Pausa. Primeira intervenção. Intervalo entre DJs.


As forças poéticas da pura liberdade de expressão, a indignação nas palavras de Zé Ninguém e Siririca Poética. Opressão cotidiana revoluciona os hábitos da própria existência. Talvez essa seja realmente a nova era, um aquário laboratorial da nova humanidade.


Chega a hora de Bruno Caveira subir ao palco e levar seu set latino aos átomos dançantes. As projeções, cores e movimentos me levaram ao chão da terra que pulsa quando nos movemos em passos ritmados.


Dançou demais e bateu uma larica? Ué a festa nem começou, já tá com sono? Calma, dentro da casa tinha opção vegana com a galera do Gnomos gastronomia, café e todo um universo perfeito pros gostos de qualquer pessoa na banca da Tia Nana. Comida garantida com preço acessível.


Pausa. Segunda intervenção. Intervalo entre DJs.


Grupo de mulheres do coró de pau invadem o espaço e ecoam o poder do som. Tambores de psicodelia no caleidoscópio ao ver pessoas atentas, em cada singularidade o universo no grito de êxtase. Complemento. Ritmos sincronizados, batidas de um coração em movimento, energia ferve os neurônios que grita a voz da revolta.


O artista Geovanni Santos surge das cinzas da opressão ensanguentado de realidade, em sua performance. “Ô cirandeiro, ô cirandeiro â. A luz do seu anel brilha mais do que o sol..” O coro preenche as palavras ensaiadas do sistema que ecoa por nossa perdida mente. Poder feminino, tambores de resistência, coró de pau. Ritmo de luta. Gê com sua arte da realidade, ilusão em forma de expressão retratando a própria escuridão da censura cotidiana.


“O formato, você vê que tem banda de percussão aqui, eu não esperava, eu vim poucas vezes pro centro oeste, e pra mim foi encontrar o ambiente perfeito pro diálogo. As pessoas que eu encontrei que produzem eventos, tem a mesma linha de raciocínio, e isso faz com que fique mais fácil encontrar algo novo.” Explica Russo Passapusso sobre a experiência no evento.


A Bahia invade as projeções com a discotecagem de Russo, vocalista do Baiana System. Cultura distante da realidade goiana, controlada por produtores culturais burgueses. “Eu sou negão e meu coração é a liberdade ”. Folhas canábicas se transformam em realidade projetada atrás do palco. Passapusso ri, e grita a história do negro com o calor das batidas intensas de seu coração.


O furor do suor com o corpo construído no swing latino. A lua minguante observa a energia harmônica que lançamos com sua iluminação em arco-íris.


BNegão assume, e ora. A arte ecoa entre as pessoas hipnotizadas com a força de Iemanjá e as bruxas dançavam para a mãe lua. Os corpos foram ocupados pelo OMN dos espíritos de amor e realização. É a festividade da nova era.


“Tem um dito oriental clássico que é ‘caminhe e o caminho aparecerá’. É isso, se a gente ficar parado não acontece nada, tem que se mexer. Eu venho de uma parada completamente sem horizonte, então assim, a gente tem que esperar ter um horizonte pra fazer as coisas. Tudo o que eu fiz em toda minha vida, até as coisas fantásticas e impressionantes – até pra mim mesmo, tudo sem horizonte. Eu não esperei o momento propício, existia o momento não propício. É dai que nasce o novo, só que é ai que tá, tem que ter uma coragem, não é um cenário convidativo e você tem que se jogar ali, sabe qual é? Tipo tem o abismo ali e tem um monte de mato e você quer água, talvez tenha água ali, talvez não, você não tem como saber, mas você se joga mesmo assim. Isso é fazer o novo, é arriscar.” Filosofa BNegão.


Que Goiânia seja uma cidade que continue a construir novos universos de convivência, cultura, arte e experiências. Espero que mais eventos façam as pessoas se sentirem livres o suficiente para se expressarem genuinamente, e principalmente, o respeito seja sempre alimentado por nós humanos. Que esse mundo se espalhe e inspire qualquer área da sociedade à mudar, pois precisamos de um mundo novo. E, qual seria a melhor forma de começar, se não pela cultura?