• Equipe Metamorfose

Brasil segue em passos largos rumo à escuridão

Pedaços de cobertor, caixas de papelão e barracas surradas. Esta cena é comumente encontrada em 123 empresas que figuram na lista suja do trabalho escravo no Brasil. Porém, a partir de agora, patrões têm motivos de sobra para comemorar. Isso porque o governo impopular e ilegítimo de Michel Temer (PMBD) alterou a portaria do trabalho escravo. Diante disso, é possível que coronéis - com sua barbárie e cretinice - estejam sorridentes com a nova medida. Agora, ficará mais complicado combater a torpe exploração que ainda acomete milhares de trabalhadores pelo Brasil, especialmente em fazendas e indústria têxtil.


O Metamorfose teve acesso a lista suja do Ministério do Trabalho (MT) e calculou que pelo menos 60 empregados em Goiás sejam submetidos a condições de trabalho insalubres. Dentre os empregadores autuados pelos fiscais do MT, que foram aos locais e verificaram que as condições de trabalho realmente beiram a escravidão, há um time de futebol, indústria têxtil e fazendas. Os proprietários, que estão movidos pela lei da bala, chegam a ameaçar seus funcionários de morte, caso eles ousem denunciar as condições subumanas a que são submetidos diariamente.


A sociedade brasileira, que fora seriamente afetada pela tardia abolição da escravidão, foi mais uma vez vítima de um golpe abaixo de Temer e do ‘deus mercado’, com o qual o impopular presidente anda de mãos dadas desde sua carreira política, construída sempre nos bastidores da política.


Último país a abolir a escravidão nas Américas, em 1888, o Brasil tornou-se nos últimos anos referência mundial no combate às formas contemporâneas de escravidão. Desde a década de 1990, quando foi Criado o Grupo Especial de Fiscalização Móvel, foram mais de 50 mil brasileiros resgatados das condições degradantes de trabalho ou submetidos a servidão por dívidas. Tratava-se de um triste resquício do modelo de exploração de mão de obra dos tempos da Colônia e do Império. Porém, os avanços que foram conquistados às duas penas - e deram ao Brasil o título de exemplo no que diz respeito ao combate à escravidão - estão completamente ameaçados, e correm risco que se tornar passado.


Por insuficiência de recursos humanos e financeiros, as fiscalizações de escravidão moderna estão em angustiante declínio no país desde 2013, ano em que foram inspecionados 313 locais e 2.808 trabalhadores foram resgatados. No último ano, por exemplo, o número de estabelecimentos vistoriados caiu para 191, bem como a soma de resgates, que atingiu apenas 885. Se falta dinheiro para combater o trabalho escravo, que é a desculpa mais usada por Temer e sua trupe, sobra para salvar a goela do canalha-mor peemedebista, alvo da justiça pelo crime de organização criminosa, e que teve acusações de chefe de organização criminosas arquivadas por parlamentares de moral duvidosa.


Neste contexto, na última semana, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) se posicionou sobre a mudança na portaria do trabalho escravo promovida por Michel Temer, e afirmou que o País corre o risco de “romper trajetória de sucesso que o tornou um modelo de liderança no combate ao trabalho escravocrata para a região e para o mundo”. A explicação dos governistas, porém, não convence. Em março de 2017, de acordo com a quadrilha, o contingenciamento de gastos da União afetou os recursos destinados à Secretaria de Inspeção do Trabalho, que perdera 70% do orçamento que era oriundo do Tesouro Nacional – R$ 22 milhões de um total de R$ 31 milhões.


Todavia, o Planalto nega que os trabalhos de inspeção possam ser suspensos a partir de agosto. O ministro do trabalho, Ronaldo Nogueira, que deveria verificar o texto da portaria do trabalho escravo, foi exonerado do cargo pelo presidente Temer para votar na Câmara a favor dele na denúncia que o condena de ser chefe de quadrilha. Além disso, em pronunciamento, Nogueira teve a pachorra de dizer que “não houve erro na portaria do trabalho escravo”.


De fato, o Brasil caminha rapidamente em direção à escuridão. Morre-se trabalhadores no campo, na indústria têxtil. Morre-se, triste e sordidamente. E, ao que tudo indica, continuarão a morrer. Por isso, o Metamorfose traz para si as palavras do poeta chileno Pablo Neruda: “Morre lentamente quem se torna escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos percursos, quem não muda a marca, quem não se arrisca vestir uma nova cor, quem não fala com quem não conhece”. Sem mais.