• Equipe Metamorfose

Sim, somos racistas

Zumbi dos Palmares morreu no dia 20 de novembro de 1695 após anos de luta defendendo o quilombo dos Palmares das garras dos senhores feudais. Em 2003 inclui-se a data como Dia Nacional da Consciência Negra, o objetivo é promover a reflexão sobre a inserção do negro nos espaços sociais, assim como a importância da cultura afro-brasileira na construção da nossa sociedade.


É sabido que os ensinamentos dos professores Florestan Fernandes, à quem vivíamos sobre a égide da falsa democracia racial, Darcy Ribeiro, que acreditava desde a abolição da escravidão o negro fora parar à margem da sociedade, e Gilberto Freyre, que via a miscigenação como um componente importantíssimo à sociedade brasileira. Hoje, não se esquece, as práticas racistas ganharam visibilidade nos meios de comunicação através de propagandas que buscam, ainda mais, sacramentar posicionamentos criminosos. Com isso, nota-se que pouco ou quase nada avançou-se desde 1888. E a tão sonhada igualdade racial parece uma utopia.


A Lei 10.639, que institui o ensino de História e Cultura Afro-Brasileiras nas escolas, não cumpriu aquilo que era se esperado dela nos últimos 14 anos: o entendimento, a compreensão e a reflexão acerca dos espaços – não ocupados – pelo negro na sociedade. Em 2004, a Universidade de Brasília (UNB), tentando apaziguar o problema, fora a primeira instituição de ensino superior a aderir o sistema de cotas raciais. À época, reservou-se 20% das vagas para quem se autodeclarasse negro. Mas somente em 2012 aprovou-se a lei 12.711 que destinava 50% de suas matrículas a estudantes que se autodeclarassem negros.


Antes das cotas, porém, o número de afrodescendentes matriculados em instituições de ensino superior chegava a índices baixíssimos. A Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), por exemplo, contabilizou 2,2% de pardos e 1,8% de negros, entre 18 e 24 anos que cursavam o ensino superior, em 1997. As cotas tinham o intuito de promover a igualdade, mas atitudes de injúria racial vinham de dentro do próprio ambiente universitário. Era comum de se ver jovens promovendo o ódio dentro dos campos universitários.


Já nas universidades particulares, desde o advento do Prouni, os negros passaram a ocupar pelo menos a metade das bolsas. Em 2013, formou-se 400 mil estudantes, número ainda muito baixo se analisarmos pela perspectiva de que a população brasileira é composta por 50,8% de negros e pardos, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, o grupo ainda é minoria no ensino superior.


Diante disso, vê-se que o racismo não pode jamais ser tratado como uma forma amadora, tampouco pela ótica do vitimismo. Não dá, sob hipótese alguma, para parafrasear o antropólogo Sérgio Buarque de Holanda, abraçar a ingênua tese de que o brasileiro é cordial. Temos, sim, um racismo intrínseco, que atrapalha e segrega os humanos por meio da cor da pele. Ainda grita-se em estádio, vibe o caso Aranha, ainda faz-se comentários pífios, vide aquele que ficou famoso nas redes nos últimos dias, ainda crê-se que a mulher negra é hipersexualizada, vide os meios de comunicação.


O Site Metamorfose salienta que o movimento negro cumpre um papel de protagonista na luta pela liberdade dos humanos, porque uma pessoa só é livre quando todas são, independentemente de gênero, raça ou credo. Por isso, é de suma importância consolidar-se as liberdades de classe social, pois as práticas racistas estão diretamente ligadas à condição socioeconômica – resquício, como mostrou-nos Aluízio de Azevedo, em O Cortiço, do longo período escravocrata que até hoje perpetua-se por meio da escravidão moderna.


Diante disso, fazemos do famoso discurso do ativista estadunidense Martin Luther King o nosso mantra neste 20 de novembro de 2017: “Eu tenho um sonho, que os negros e os brancos andassem em irmandade e sentassem-se na mesma mesa em paz”. Sem mais.