Sejamos docemente pornográficos

November 28, 2017

Reinaldo Moraes, 67, segurando óculos de grau para leitura e vestindo camisa social branca de manga cumprida, calça jeans preta e tênis Oakley de solado baixo, entrou lentamente por volta das 14h do último sábado (25) no auditório da União Brasileira de Escritores secção Goiás (UBE-GO). “Vamos trabalhar, moçada”, disse ele, arrancando risos do público. Minutos antes, o escritor havia passado aos presentes alguns exercícios sobre construção de narrativas literárias aos alunos.

 

Eram atividades da oficina de escrita criativa. Todos os textos, de alguma forma, evidenciavam a cultura goiana. Era comum de se ouvir trechos que faziam referência a Leandro e Leonardo, o que acabou suscitando ares de curiosidade por parte de Reinaldo. “É bem forte a música sertaneja na cultura daqui, né”, comentou.

 

Autor de clássicos como Tanto Faz e Pornopopéia, Reinaldo é uma espécie de beat brasileiro, embora ele não se sinta à vontade com a alcunha. O escritor, aclamado pela crítica na década de 1980, quando lançara seu primeiro romance, fora durante muito tempo frequentador assíduo da Vila Mariana, em São Paulo. Reinaldo não é apenas um escritor que conta histórias simplistas, com enredos que vão agradar os editores e vender milhares de cópias pelos quatro cantos do Brasil.

 

Reduto da boêmia intelectual paulistana, os bares da região ajudaram Reinaldo a compor suas obras. “Ter vários amigos escritores, que também frequentam os mesmos bares, é fundamental para o cara que deseja se tornar escritor”, recomenda o autor, cujos botecos, como a Mercearia São Pedro, acabaram virando marca registrada de seu último romance, Pornopopéia.

 

Reinaldo é uma mistura que envolve o doidão-mor estadunidense Jack Kerouac com o modernista brasileiro Oswald de Andrad marcado levemente pela narrativa machadiana – só que com um sabor que lhe difere de tudo o que fora produzido no âmbito da literatura na terra tupiniquim nos últimos anos. Especialmente no aspecto da linguagem: Reinaldo possui um assombroso domínio do idioma.

 

Como suas influências confirmam, Reinaldo é uma espécie de porra-louquice em níveis absurdos e hilários. Isso porque quando lançara Pornopopéia, em 2009, o que faltou não foram entreveros com as editoras, que enxergavam o romance como uma coisa obscenamente esquisita. Logo após o lançamento, a obra caíra no gosto da crítica especializada, e o resto todos que curtem a boa e velha sacanagem no campo das letras conhece.

 

Aliás, qual o sujeito em sã consciência iria publicar a obra?

 

Boa pergunta, de fato. Na verdade, sempre tem por aí algum maluco disposto a correr riscos. Depois de enviar o original da obra para várias editoras de São Paulo, e todas religiosamente dizerem ‘não’ ao livro, Reinaldo encontrou um cara que achou que Pornopopéia (uma epopéia pornográfica, na visão do própria autor) tinha alma. “A editora amou o livro e decidiu publicá-lo”, relatou o escritor.

 

Todavia, a ideia de fazer um livro que rompesse com todos os padrões conhecidos do romance moderno rondava-lhe a mente há tempos. No entanto, fazê-lo era uma questão delicada, visto que o mercado editorial brasileiro opta por nomes de youtubbers, que nunca pitaram um baseado, foderam e encheram a cara, a um escritor do quilate de Reinaldo, que possui os dois pés na marginalidade literária.

 

Reinaldo, brilhantemente, curte provocar o mercado editorial, o que a gente percebe após 10 minutos conversando com ele. “Na verdade, a intenção era fazer um livro de conto que tivesse 11 textos, por uma razão meramente futebolística. Num dos textos, porém, havia o personagem que viria a ser o Zeca, de Pornopopéia. A abertura do conto era uma grande suruba, o que contribuiu para que o livro não fosse aceito pelo editor. Mas só que o cara adorou a ideia, mas resolveu tirá-lo do livro, já que ninguém sabia quem era o personagem, o que ele fazia e essas merdas todas. Daí, nasceu o cerne do romance”, contou.

 

Pela enésima vez, Reinaldo relatou o sentimento de foda-se que acometera-lhe enquanto estava escrevendo Pornopopéia. “Para criar textos com vida, é preciso bagunçar as técnicas literárias”, sugeriu, acrescentando que a forma mecânica de escrever possui apenas uma única função. “Dar um norte se o cara se perdeu no meio do texto”.

 

“Eu sentava em frente ao computador, embalado por um uisquinho ou o que quer que seja, e ia pondo no papel um monte de loucuras. Aí, em determinado momento, eu disse: ‘ah, quer saber de uma coisa, foda-se isso tudo”, relatou. Atualmente, ele está trabalhando em seu quarto romance. Mas a obra toma-lhe bastante tempo. Por isso, a demora em finalizá-la. Previsto para ser lançada em breve, hoje em dia o escritor não faz a mínima ideia de quando o texto saíra da memória do computador para as livrarias.

 

Além disso, Reinaldo Mores disse que os anos de bar e porres homéricos já ficaram para trás. É difícil acreditar, vamos e venhamos, mas o escritor já chegou aos seus 60 e poucos anos. Nessa época da vida, creio, o cara deve procurar sossego. Exceto um outro esquisitão, como o Keith Richards, que queima tudo, cafunga e enche a cara, sem acontecer porra nenhuma. Reinaldo, igualmente aos mestres da literatura marginal, gente do tipo de John Fante, William Burroughs e Charles Bukowski, procura destruir a sociedade.

 

Basta ler seus livros para se constatar.

 

Maluco?

 

Não. Seria uma tremenda injustiça reduzi-lo a uma mera reprodução dos gênios bêbado, drogados e buceteiros que romperam com a estética vigente na primeira metade do século XX nos EUA. Reinaldo, que já traduziu malucos do calibre de Jean Cocteu, é um autêntico escritor experimentado, daqueles que já fizeram vários frilas literários. Em sua trajetória, escreveu para televisão, para cinema e, nos últimos anos, escrevia para o jornal online Nexo uma coluna de crônica, que saiu do ar recentemente.

 

“Ele é uma pessoa maravilhosa”, admitiu a musicista Lorena Aparecida, 54, que estava na oficina promovida pela UBE-GO. Ela, que nunca havia lido um texto de Reinaldo, mas que gosta da boa e velha sacanagem literária, salientou que a primeira coisa que faria quando chegasse em casa era procurar os escritos dele. “Ele foi premiado no país inteiro, né?”, pergunta, retoricamente. “Eu vim meio deslocada financeiramente para a oficina”, completou.

 

Pois é, eu também. Reinaldo, por sua vez, participou da Feira Literária de Paraty (Flip) em várias edições. E não dava para negar que ele era uma figura destoante entre os debatedores. O escritor, ao contrário do pessoal da própria UBE-GO, que adora usar camisas sociais por dentro da calça, não usa palavras rebuscadas, tampouco frases complexas que deixariam o tio Marcel Proust com inveja.

 

Pelo contrário. Ele adora um palavrão e uma gíria.  Para compreender, por exemplo, a áurea literária de Reinaldo, é necessário a seguinte colocação: quem não gosta de um cheirinho de amor não gosta, de jeito nenhum, de sexo. Número dois: quem chama “fluídos fisiológicos” de fluídos fisiológicos não gosta de trepar porra. Caralho.

 

Veja como é a coisa: até outro dia, Reinaldão ganhava a vida fazendo umas traduções para a revista National Geographic. Reverenciado por críticos como Nelson Motta, de O Globo, e Alcir Pécora, da Folha de São Paulo, o escritor pode ser facilmente diferenciado de Xico Sá, a quem já comparou ao mestre-mor da crônica brasileira, Nelson Rodrigues, num único ponto: Reinaldo não se vê como progressista.

 

Ele acredita que, para ar voz a personagens deletérios, falar sobre sexo e esbórnia, é necessária uma carga um pouco conservadora. Mas, durante a vida, teve contato com o colunista da revista Caros Amigos, Gilberto Felisberto Vasconcellos, por exemplo.

 

A putaria literária esteve presente em tudo o que Reinaldo escreveu até aqui 

 

Esteve, é claro. Amigo de Reinaldo e autor das biografias de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmem Miranda, o jornalista Ruy Castro afirmou que o complexo de Bukowski foi responsável por estragar várias gerações, embora o próprio tenha sido um frequentador assíduo dos bares da zona sul carioca, o que pode ser confirmado lendo suas obras. “Por que tantas pessoas veem esse farsante [Bukowski] como um modelo? O Reinaldo é dez vezes melhor”, declarou o jornalista e escritor em um perfil sobre Reinaldo, publicado na Folha.

 

De fato, o caminho aberto por Reinaldo em Tanto Faz teve inúmeros seguidores, a ponto de seus livros terem lugares garantido em qualquer lista sobre obras literárias com bom humor, boa prosa e muito, mas muito, sexo. No entanto, ele ficou mais de duas décadas sem escrever ficção, porém o que a gente lê na primeira frase de Pornopopéria é como se fosse um disco dos Rolling Stones sendo tocado numa vitrola.

 

Sessentão, mas sabendo como pouco como se redige uma boa putaria literária, Reinado é um vanguardista. Veja só:

 

Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopéia, não é arte. É — repita comigo — vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora “bloqueio criativo” por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor.

 

Ok, chega de papo. É só dirigir a porra da tua mente pra nova linha de embutidos de frango da Granja Itaquerambu. Podia ser qualquer outro tema, os cristais de Maurício de Nassau, a cavalgada das Valquírias, a vingança dos baobás contra o Pequeno Príncipe. Que diferença faz? Pensa que são os embutidos de frango do Nassau, a cavalgada das mortadelas, a vingança dos salsichões contra o Pequeno Salame. Pensa no target do vídeo: seres humanos a quem coube o karma nesta encarnação de vender no atacado os produtos da Itaquerambu. Pensa no evento em que o teu vídeo vai passar — vários eventos, aliás, todos no mesmo dia em todas as filiais do Brasil. Os seres humanos vendedores de embutidos verão teu vídeo e serão apresentados ao salsichão, ao salame e até à mortadela de frango, heresias saudáveis em matéria de junkyfood que a Itaquerambu vai lançar no mercado. Mesmo a tradicional salsicha e a insuperável lingüiça de frango vão ser relançadas com outra formulação, segundo eles dizem. Quer dizer, em vez do jornal reciclado de praxe, os putos vão adicionar algum tipo de pasta de lixo orgânico pasteurizado na mistura, imagino, mais uma contribuição da Itaquerambu para um planeta sustentável.

 

Porra, mas eu sou cineasta, caralho. Artista. Não nasci pra rodar vídeo institucional. E de embutidos de frango, inda por cima, caceta!

 

Calma, calma. Pensa que o teu vídeo será visto “de Passo Fundo a Quixeramobim, do Rio de Janeiro a Corumbá”, como disse o Zuba, ao sentir minha reação pouco eufórica diante do tema. “E capricha na linguagem brasileira universal, tá?”, foi o que ele me pediu, como se linguagem brasileira universal fosse uma das opções do Final Draft ou do Magic Screen Writer. Você clica em LBU e seu texto será entendido nos pampas, serrados, praias, selvas, semi-áridos e caatingas do país, sem contar os aglomerados urbanos e seus múltiplos guetos. Teu único filme de cinema até agora, por exemplo, nunca passou em tantos lugares ao mesmo tempo. Na caatinga, por exemplo, nunca foi visto. Não que se saiba.

 

Volto a perguntar: qual a diferença entre arte e embutidos de frango? Ou melhor: por que embutidos de frango não podem se transformar em arte?

 

Mas não precisa pensar nisso agora, nem em merda nenhuma que não seja frango embutido. Faz logo essa porra, porra. É bico: oito minutos de duração, um curta-metragem. Não vai matar o artista que há em você, amice. Ou havia. Ou nunca houve nem haverá. Foda-se.

 

É isso aí: vídeo institucional, embutidos de frango, Granja Itaquerambu. Beleza.

 

O que fode é o prazo. Sempre a porra do prazo. Tá ligado que esse roteiro tem que estar escrito, aprovado, rodado, entregue em mídia DVCAM, e exibido pros vendedores até 15 dias antes do lançamento da campanha na mídia? Ou seja, daqui a nove dias. Você devia ter chamado um bosta dum roteirista qualquer pra te ajudar, desses que filam cigarro e cerveja de mesa em mesa na Merça e não perdem chance de puxar uma lousa e dar aula sobre Hal Hartley e a narrativa cinematográfica interior aos substratos descontínuos da consciência dos personagens pra alguma gostosinha basbaque de peitinhos soltos dentro de uma camiseta de pano fino. Conheço vários roteiristas desse naipe. Dúzias deles, na verdade. Tudo uma corja de bebum cafungueiro desempregado du caraio. Por uma peteca de pó e duas Original você contrata na hora um deles. Se calhar, o infeliz ainda leva teu carro no mecânico pra trocar a fricção e te faz o obséquio de encarar uma fila de banco pra pagar tuas contas atrasadas.

 

Bullshit. Não preciso, nunca precisei de roteirista nenhum. Merda por merda, deixa que eu mesmo chuto. Só que dessa vez travei geral. E o cara da Itaquerambu tá no pé do Zuba, que tá no meu pé, que tô em pé de guerra com os embutidos de frango. Ridículo, isso. Fala sério: nem uma réles ideiazinha pro vídeo pintou ainda na tua cabeça, meu filho. Nem a porra duma idéia de merda.

 

Pois é, nem a idéia.

 

Tá foda.

 

Embutidos de frango.

 

Foda.

 

Reinaldo Moraes findou a oficina na UBE-GO. Tirou fotos com alguns senhores que creem que boa literatura se faz com mesóclises. Entre uma piada e outra, ele estava com notável pressa para ir molhar a palavra no Bar do Gaúcho II, na esquina. Sem grana, despedi-me dele e disse: “quero te enviar meu livro, cara”. Pouco antes de sentar-se no bar, ele passou por mim e bateu em minhas costas. É foda ser quebrado, pensei. Mas o que importa é que eu conheci o mestre. E ele é foda.

 

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