• Metamorfose

Ressignificar o elitismo com luta: Jóquei Club de Goiás

Fundado em 1938, o Jóquei Club foi uma grande obra construída pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha, localizada no coração da cidade o espaço trás em sua história não somente os carnavais e momentos de lazer, mas a forte cultura elitista da jovem capital. Um espaço criado para o bom cidadão que ocupava a nova cidade, todos que vinham para a terra do Pequi sabiam das possibilidades de trabalho, com um mercado propício para o empreendedorismo e principalmente, de escalada política.


Nos tempos de ouro do Jóquei as reuniões sociais giravam em torno da Praça Cívica e suas avenidas que englobavam praticamente toda sua população ativa. Lugares como o Teatro Goiânia, Grande Hotel, Lago das Rosas eram a vida da comunidade goianiense, que cresceu como uma cidade 'planejada', bem estruturada e com moradores que vestiam a camisa moral e ética que compunha a economia da época. E o que isso tudo tem a ver com o tombamento do Jóquei Club pela prefeitura?


São 21,9 mil metros quadrados no centro da cidade, o que faz a propriedade valer em torno de 40 milhões de reais. O terreno conta com uma estrutura idealizada por um dos maiores nomes da arquitetura brasileira, tendo diversas opções para ser inteiramente usufruída pelo público goiano. Pois o club declarou falência e hoje deve cerca de 40 milhões em impostos não pagos, que inclusive aumentou de 7 milhões para os 40 em apenas 10 meses.


A ideia da diretoria do Jóquei é clara: vender o terreno para reconstruir uma sede com o dinheiro e recomeçar a empresa do zero. O problema aqui é que o terreno só pode ser vendido pelos metros quadrados pois a estrutura 'não tem' valor financeiro, dando a possibilidade do comprador demolir um dos patrimônios da história arquitetônica da cidade. Houve a proposta de se vender o terreno para a Prefeitura de Goiânia em troca do quitamento da dívida, o lugar seria um club social para a população, a diretoria do club não aceitou a proposta.


O que mais uma batalha comercial tem a ver com nós, meros cidadãos da pacata e nova Goiânia? Bem, caro leitor, o Jóquei Club foi construído com o intuito de ser um local de confraternidade e encontro da população, com uma construção reconhecida internacionalmente o projeto do arquiteto Paulo Mendes tem espaços fundamentais para o desenvolvimento na educação social, o lugar é uma integração cultural. Mas, o club ficou abandonado nos últimos anos, o que é uma prática comum no famoso 'migue dos impostos', você deixa o patrimônio se deteriorar e com a falta do pagamento pelos impostos por falência se pode vender o terreno de tal forma que a importância histórica e cultural não seja levada em conta, pois o capital sempre diz mais alto que a função social dos terrenos.


Políticos como Iris Rezende tem o Jóquei como pilar fundamental na construção da vida 'representativa'. Afinal, ali tudo ocorria, era onde a elite encontrava em privado e em momentos específicos a conexão com o povo acontecia paralelamente com os famosos carnavais e festas que eram abertas ao público em geral. Um lugar de se fazer política evidentemente, o que mais quer um jovem em ascensão política? A falta de importância pelo qual nosso senhor prefeito deu ao assunto só mostra como o governo do estado de Goiás e a prefeitura de Goiânia não sabe valorizar sua história, pois de nada a importa se o dinheiro corre solto nos bolsos de quem sempre teve poder. Não é uma luta pelo povo, nunca foi. É uma luta pelo capital, quem se importa com um prédio velho com arquitetura premiada? Uma empresa ta falindo, temos que salva-lá! Salve os espaços para a burguesia! Foda-se nossa história!


Eu até entendo, uma luta pela história e sua ressignificação com espaços dedicados ao povo soa muito utópico em momentos de engajamento e coligações entre os partidos para as eleições de 2018, e nossos queridos representantes estão mais preocupados com quem vai continuar ou não com o poder em mãos, pena que às vezes se esquece que tudo é pelo povo e para o povo. Afinal, vivemos numa democracia representativa, não é mesmo?


Mas, se você acha que a história passaria batido estão muito enganados, estudantes de arquitetura, professores, especialistas em Art Déco e arquitetura moderna, movimentos sociais de diversas vertentes e parte da população em geral está se organizando para lutar contra a demolição do espaço. O primeiro protesto - que estão representadas nas fotos acima - foi de animação e expectativa para a continuidade da luta, a esperança pairava ao ar e tudo que se ouvia era: quando será o próximo ato? Dia 17 de dezembro manifestantes se reuniram novamente.