Um escritor profissional: assim era Carlos Heitor Cony

January 10, 2018

Tudo o que permeia o universo da escrita era comum ao romancista e jornalista Carlos Heitor Cony. E jamais assustou-o. Membro da Acadêmica Brasileira de Letras (ABL) desde 2000, ele fez do deadline sua arte e encarnou a figura do escritor num País que é pouco ávido à leitura. Sua vasta obra vai de relatos jornalísticos aos vários romances que escreveu, passando pela crônica semanal – que era publicada no jornal Folha de São Paulo, adaptações de clássicos literários, biografias, roteiros de cinema e argumentos de telenovelas.

 

Cony nasceu no Rio de Janeiro, em 1926. Sua estreia na literatura deu-se por volta de 1958, com as obras A Verdade de Cada Dia e Tijolo de Segurança. Contudo, antes da estreia na ficção, ele já tivera uma sólida carreira como jornalista – função que não abandonou até o último suspiro, que aconteceu na madrugada da última sexta-feira, no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. Em 1952, portanto anos antes do primeiro livro, ele já integrava a equipe do Jornal do Brasil e, posteriormente, foi redator do Correio da Manhã, sendo preso inúmeras vezes durante a Ditadura Militar por conta dos seus ácidos editoriais e de suas líricas crônicas. A obra O ato e o fato reúnem os melhores textos desse período.

 

Na década de 1960, Cony publicara oito livros, fora os intermináveis escritos de ficção e coletâneas de crônicas. De acordo com o jornalista Ruy Castro, também cronista e autor das biografias de Nelson Rodrigues, Carmen Miranda e Garrincha, era difícil para a editora Civilização Brasileira, cujo proprietário era ligado ao Partido Comunista, não ter o escritor em seu quadro de publicados, pois ele tinha uma alta veia produtiva. “Cony era talvez o maior escritor profissional do Brasil – produzia um romance por ano, formara um público certo e não dava bola para critérios”, escreveu o jornalista, no Estadão, no final da década de 1990.

 

No entanto, uma obra especificamente iria trazer dores de cabeça para Cony. Isso porque quando lançou o romance Pessach, a Travessia, em pleno ápice das lutas armadas, em 1967, cujo personagem era um escritor carioca alienado, falatórios sobre sua própria alienação tornaram-se constantes. O livro, em sua essência, contém críticas ao Partidão. Em 2002, o escritor voltou ao tema com a continuação da obra, Romance Sem Palavras.

 

Ainda sobrara tempo para homenagear seu pai. Misturando humor e ternura, o texto de Quase Memória marcou, em meados da década de 1990, o retorno do escritor ao romance, gênero que havia abandonado durante a década de 1970, quando lançara Pilatos – obra que transita entre ficção e memória. “Abandonei a literatura para poder viver”, dizia Cony.

 

Escritores

 

A notícia da morte do escritor e jornalista Carlos Heitor Cony repercutiu rapidamente entre os escritores nas redes sociais. Eles lembram a genialidade do romancista, que, muitas vezes, era tachado de conservador pela esquerda, mas também desagradava o pessoal à direita. Até o presidente Michel Temer, poeta medíocre e fã do emprego da mesóclise, decidiu homenageá-lo.

 

“É com tristeza que recebo a notícia da perda de Carlos Heitor Cony, um dos mais cultos e preparados pensadores nacional. O jornalista, membro da Academia Brasileira de Letras, atuou nos principais jornais e revistas do país. Meus sentimentos à família e aos amigos”, escreveu Temer, em seu twitter, desta vez optando por usar uma linguagem que possa atingir vários níveis sociais.

 

Companheiro de redação, o jornalista Sérgio Augusto disse que Cony era “um dos maiores escritores brasileiros da segunda metade do século passado”. De acordo com ele, que foi colega de Cony no Jornal do Brasil, o autor se consagrou ao criar apenas dois livros. “Já seria um dos grandes se tivesse escrito apenas Pessach e Quase Memória.

 

O escritor Marcelo Rubens Paiva, autor do best-seller Feliz Ano Velho, também prestou suas condolências ao escritor. “Nosso último encontro no ano passado foi tão frutífero, que te fiz personagem do roteiro que escrevi. Você é eterno como Pompeia”, disse o escritor, arrematando: “Muito bom ter de conhecido”.

 

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