Assalariados sentem o bolso pesado

January 15, 2018

Marco Polo, 44, respira fundo, e é taxativo: “não aguento mais arcar com a alta nos preços das contas de gás de cozinha e luz”. Ele, que possui um rendimento mensal de pouco mais de R$ 1.500, sentiu o aumento dos impostos em seu bolso. Antes, gostava de sentar na mesa de bar e bebericar uma cerveja com amigos e esposa. Hoje, lazer parece um sonho distante. “Ou eu encho a cara, ou eu pago as contas de casa e vivo”, lamenta o vendedor, que é graduado em economia. Antes, poderia pôr gasolina e rodar pela cidade para esfriar a cabeça – iniciativa muito comum nas cidades do interior. Hoje, o tanque sai por mais de R$ 130,00.

 

O custo de vida aumentou em geral. Em sua casa, todos os eletroeletrônicos ficam a maior parte do dia desligados e fora da tomada. Assim, assevera o economista, “será mais fácil de economizar”. Ou nem sempre. Nos últimos meses, as contas de luz não abaixaram de R$ 150. E ele passa a maior parte do tempo fora de casa, trabalhando e vendo degringolar todo seu salário em despesas fixas, que só aumentam. Mas a saída adotada pelo vendedor para diminui-las é escolher minuciosamente os horários em que tomará banho e usará os aparelhos eletrônicos. “Não pode ser, em hipótese alguma, nos horários de pico, porque o preço é o dobro”, diz.

 

O mesmo corte nas despesas fora sentido pelo jornalista Carpinteiro Libânes. Meses atrás, ele trabalhava num dos maiores jornais de Goiás, mas conviva com atrasos frequentes em seu pagamento, o que fez repensar em suas escolhas profissionais. Morando com os pais, nem sentia o impacto da alta em sua vida, pois “tudo era mais brando”. Mas foi apenas eles saírem de casa para que Libânes passasse a ter “responsabilidades financeiras”. “Antes, eu morava com a minha mãe. A vida era bem mais fácil do que é hoje”, queixa-se ele, que mesmo diante das dificuldades bate ponto no Serra Dourada, em dia de jogo de seu ‘Vila Nova’.

 

No momento, ele trabalha como garçom num dos bares de maior movimento da noite goianiense. “Desisti de ser jornalista”, afirma o ex-cronista esportivo. “Hoje, ganho melhor, porém sinto uma enorme dificuldade em fechar as contas no final do mês”, diz. E ganha, realmente. Se antes, quando batia ponto nas redações do Estado, sempre faltava grana para biritar, atualmente a preocupação é outra. Mais madura. “É preciso muito ginástica”, afirma. Dois mil nem dá para custear tudo. Adeus crônica esportiva rodrigueana, adeus piadas que abriam a edição de esportes de um jornal. “Eu quero ganhar o meu”, relata.

 

Aumentos

 

Anos atrás, era possível pagar menos de R$ 80 nas contas de luz. E um botijão de gás não custava mais do que os exatos R$ 80. Mas, de uns tempos para cá, precisamente no segundo semestre do último ano, o preço dos mantimentos básicos para a vida subiu desproporcionalmente. E, logicamente, o bolso do assalariado passara a sentir os impactos das medidas. Ode ao imposto. Esse parece ser o lema de meia dúzia de burocratas, que divertem-se perversamente quando a vida das pessoas de baixa renda mudam, ou seja, tornam-se “apertadas”.

 

Para se ter uma ideia, pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) informou que os assalariados mais pobres foram os mais afetados pelo aumento das contas de luz e gás. Esses serviços tiveram alta de 4,6%, o que representa um impacto de quase três vezes maior sobre a inflação dos mais pobres, ante os mais ricos.

 

A onda de aumentou não parou por aí. Ir ao supermercado também vem sendo uma tarefa capaz de fazer um cidadão suar, mas os números mais uma vez mostram que está vai de vento em polpa. De acordo com dados do Instituto de Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os alimentos completaram sete meses seguidos mais baixo, pois diminuíram 0,38%. Para o órgão, essa quantia significa um recuo de 0,16% no impacto da inflação, enquanto para os mais ricos foi de 0,05%.

 

Desde 2014

 

O bolso do assalariado vem sentindo os impactos do aumento na tarifa de luz desde 2014. E tudo isso desde quando a ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) anunciou em rede nacional uma redução na taxa, ainda que inédita e que tenha desagradado os que desejam lucrar com a dificuldade alheia. Mas figuras ilustres, que integravam a equipe que (des) governa o País, irão dizer que a gestão anterior, no caso o petismo, é o principal vilão dessa história. É o verdadeiro toma lá da cá.

 

Nos últimos anos choveu pouco. E a geração de energia foi diretamente afetada, o governo federal teve de tomar algumas medidas para tentar pôr a casa no lugar, o que de fato não aconteceu e cujo reflexo está sendo sentido no bolso de quem ganha pouco. Para tentar ‘conter’ a crise no setor, o governo acionou usinas térmicas, que são movidas a combustível fóssil, como petróleo e carvão, e custam os olhos da cara. Logicamente, a alta foi repassada pelo consumidor, pois é ele quem tem de arcar com o preço.

 

Nada mais justo, na cabeça dos burocratas da máquina estatal. Especialistas dizem que, ao forçar a redução da conta de luz, empresas ligadas ao setor tiveram de fazer empréstimos e, com isso, o custo foi repassado ao consumidor final, que somos nós. Três anos depois os reservatórios começaram a voltar ao normal. De acordo com o jornal Folha de São Paulo, com o fechamento das usinas térmicas, o valor da tarifa deve abaixar. Mas em tratando-se de governo, ainda mias ilegítimo, o discurso tem pinta de ser falacioso.

 

Bandeiras

 

No ápice de crise, o governo tentou criar o sistema de tarifas verde, vermelha e amarela. A lógica é simples: quanto mais cheios tivessem os reservatórios, mais perto do verde ficaria a bandeira. Já quando houvesse escassez de chuva, as usinas voltavam a apelar para as térmicas, o que contribuía para a que a bandeira flertasse com o vermelho. E, por isso, havia acréscimo no valor total das tarifas, que chegavam no final do mês. Na bandeira amarela, por exemplo, cada quilowatt-hora fica R$ 0,025 mais caro. Na vermelha, por sua vez, o aumento é de R$ 0,045.

 

Contudo, o acionamento das usinas térmicas não pode ser considerado o único motivo para a alta na tarifa de luz. Cogita-se que empréstimo realizados pelo governo, e tomados pelas distribuidoras de energia, também foram parar na mesa do consumidor, aumento o preço das tarifas. A Medida Provisório 579, que fora responsável por ‘reduzir’ a conta, chegou no momento em que custos estavam subindo descontroladamente por conta do acionamento das térmicas. Em contrapartida, as empresas afirmam que começaram a arrecadar cada vez menos, e que os empréstimos tinham de ser pagos.

 

Em outras palavras: o setor elétrico brasileiro enfrenta dificuldades desde que o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso enfrentou uma crise no começo dos anos 2000. Economistas consultados por mim para esta matéria dizem que houve de fato uma negligencia dos governantes, que culminou com alta da tarifa e impactando diretamente a vida dos trabalhadores assalariados em cheio. Será que formas sustentáveis de geração de energias não poderiam ser mais em conta? Eis a questão.

 

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