• Marcus Vinícius Beck

Será que vale R$ 4,05?

Fotos: André Costa

Ana Karoline, 18, entrou no ônibus linha 401 – Terminal Praça A à Praça da Bíblia. Natural de Goiânia, ela sabe que para apanhar o coletivo e, facilitar sua vida, é necessário estar com o cartão fácil ou dinheiro em mãos. Mas neste dia ela não tinha nenhum dos dois. Carregava apenas o cartão de estudante. Apreensiva por não conseguir usá-lo, ela não passou pela catraca e ficou em pé até o destino final. Ao faltar umas duas quadras para findar o trajeto, Ana arriscou passar a carteirinha, que continha crédito e validou sua viajem.


Assim como Ana, milhares de pessoas vivem todos os dias esse temor. Além de aturar mal humor por parte de motoristas que defendem com entusiasmo seus chefes, os cidadãos estão cada vez mais insatisfeitos com a organização altamente burocrática do transporte público. Mas o caos não para por aí. A novidade da vez é a alta no preço da passagem, que foi tema de editorial do Metamorfose na última semana e alvo de protesto por parte de usuários na sexta-feira passada. A reivindicação de trabalhadores e estudantes já é conhecida: repúdio aos meandros duvidosos dos mafiosos do volante.


Com concentração na Praça dos Bandeirantes, no Setor Central, os manifestantes empunhavam cartazes e entoavam cânticos em que deixaram explícitos suas insatisfações. Os transeuntes e comerciantes, que acompanharam a iniciativa do Movimento Contra a Catraca (MCC), afirmavam que “era necessário, mais do que nunca, lutar por diretos e garantias que deveriam ser direito básico da população”. Por outro lado, policiais, raivosos e com sangue nos olhos, estavam esperando um deslize para incendiar a passeata com seus meandros irritantemente repressores.


Mas foi apenas isso. O protesto ocorreu sem maiores problemas, e a mensagem da galera ficou bem clara: se a passagem subir, a cidade vai parar. Segundo os manifestantes, a luta contra o aumento ganhou força depois da manifestação. “Cartazes, queimas de pneus, faixas e muitas palavras de ordem mostraram a indignação de estudantes e trabalhadores e trabalhadoras que seguem firmes na luta”, diz manifestante.


Mais que o salário mínimo


Imagine pagar R$ 4,05 para andar de busão. Irreal, é óbvio - menos para os engravatados que discutem os passos do transporte público de portas fechadas. A passagem de ônibus na região metropolitana de Goiânia deve subir nos próximos dias. Mas a iniciativa do Movimento Contra a Catraca adiou a reunião entre a Câmara Deliberativa de Transporte Coletivo (CDTC), que está com o valor auditado, e a Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC), órgão ligado ao Paço Municipal.


O aumento proposto pela CDTC pretende subir a passagem de R$ 3,70 para R$ 4,05. Caso a alta seja deliberada, o aumento, em proporção ao salário mínimo, será de 9%. Por meio de nota aos veículos de comunicação na última semana, o prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha (PMDB), disse que, caso haja o aumento, a tarifa deve ficar congelada durante todo o ano de 2018. A justificativa da CDTC é que, como o preço do combustível subiu 100 vezes nos últimos meses, o aumento é necessário em função “do preço do transporte”. Enquanto os burocratas recuam, os movimentos sociais deixaram claro que é inadmissível a passagem elevar mais do que o rendimento mínimo dos assalariados de baixa renda.


Como serão as cenas do próximo capítulo? É preciso esperar para ver, pois, até o momento, o roteiro está sendo como planejado. No entanto, ao tratar com burocratas e apertar-lhe as mãos, é sempre uma tarefa que requer atenção redobrada. Afinal, eles gostam de agir pelas costas, com salas fechadas, repletas de regalias e piadas sem graça por parte de políticos ávidos por cifras. Aguardemos.