Em defesa dos pelos pubianos

February 2, 2018

Prezado boêmio, venho por meio desta crônica, com um tremendo peso no coração, para dizer o seguinte: a patrulha asséptica ataca-nos mais uma vez. Dizem por aí que, após dar uma trepada com a moça amada, vão diretamente para o banheiro, pois o cheiro do sexo lhes incomoda. Dá para acreditar?

 

Que mundo chato: é sexo sem cheiro, café sem cafeína, cerveja sem álcool, cigarro sem nicotina, porre sem declarações líricas ao pé do ouvido da moça, ressaca sem reflexões ontológicas, bares sem copo americano sujos de gordura nas bordas, poesia sem vida, literatura sem novas emoções, amor sem sofrimento, jornalismo sem gastar papel, caneta e sola de sapato. O que era com ficou sem.

 

Mulheres da minha vida, depois destas minhas genuínas figuras de linguagem, tão ridícula quanto um tiozão discorrendo sobre a arte da sedução numa sexta-feira pós expediente, quantos mistérios vocês aguardam em seus belos bosques pubianos. Não os decepem sob hipótese alguma. São lindos, agradáveis e reconfortantes.

 

A discussão em torno dos pelos ganhou força nos últimos anos por conta da capa da revista Play Boy que teve como estrela a atriz Nanda Costa. Integrante do elenco da clássica fita do cinema nordestino, A Febre do Rato, ela apareceu nas páginas da revista exatamente como veio ao mundo, e com uma zona da mata bem cuidada.

 

De longe, a moça chegou a bater o ensaio de Claudia Ohana e da estrela das pornochanchadas na década de 1970, Vera Fischer. Ah, esses moços, pobres hombres desalmados da porra, com o cérebro – se é que os tem – totalmente tomado por um padrão universal de beleza, com tesão em mulheres robóticas e forçosamente produzidas. Patrão pouquíssimo excitante de beleza, por sinal.

 

Outro dia, na companhia de algumas amigas, lancei a seguinte campanha: por mais pelos pubianos. Contra o todo e quaisquer indícios de desmatamento dos pelinhos delas. Cheguei seriamente a cogitar a ideia de redigir um manifesto apoiando a causa. Sim, hoje e sempre, por uma política sustentável de preservação da flora pubiana.

 

Lembre-se, jovem rapaz, do escritor cubano Pedro Juan Gutierrez, autor da Trilogia Suja de Havana e Rei de Havana: “O suor, o cheiro humano, me excitam muitíssimo... digo a minha mulher: não use desodorante!”. Mais uma vez: contra a devastação criminosa da relva das Lolitas e as lindas filhas de Balzac.

 

Leia, também, o tal livro que ilustra esta crônica. O mestre Henry Miller, o cara que curtia cheiro de sexo, tem muito a vos ensinar acerca da arte sexual. Esse negócio de findar a foda e ir correndo com tudo ao banheiro denota um certo asco àquilo que mais é lúdico no corpo feminino: os tais pelos púbicos.

 

Ratifico: Por um mundo que os valorizam e os amam. Sou da turma do contra. E meu motivo para esse posicionamento é simples: sexo sem pelo não é sexo. Homem que é homem gosta de permanecer por longas horas com aquele cheirinho de amor.

 

Porque, nos pelos púbicos, há erotismo suficiente para evitar guerras durante os próximos 50 anos. A depilação total deve funcionar apenas como agrado ao amado, mas não deve ser permanente como a Revolução Cultural. Porra, onde estão o Greepeace, o S.O.S Mata Atlântica e outras ONGs que impedem esse assassinato ecológico?

 

E digo mais: que exploremos oralmente o relevo, que naveguemos por mares que desaguam em águas prazerosíssimas. Abaixo os infames trocadilhos “pelos melhor não tê-los”. Por um mundo menos chato e com mais, muito mais, pelos púbicos.

 

Amigo canalha e boêmio, até a próxima crônica do louco amor e do lirismo cafajeste. Forte abraço. Boa bebedeira a todos.

 

 

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