Nelson Rodrigues: Reacionário ou vanguardista?

February 7, 2018

Maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos, o pernambucano Nelson Rodrigues intitulava-se “reacionário, porque era a favor do que é certo”. O escritor, apesar de se dizer anticomunista ferrenho, debochando de marxistas em crônicas publicadas em O Globo, no final da década de 1960, teve vários amigos à esquerda. João Saldanha era um deles. No entanto, apoiou a Ditadura Militar e só reconheceu a brutalidade do regime quando seu filho Nelsinho, membro de grupo clandestino contra os militares, acabou preso.

 

Por outro lado, a obra dramaturga de Nelson foi alvo constante da censura durante todos os anos de sua vida. Denominado como “anjo pornográfico”, o escritor desafiou a igreja, a moral e os bons costumes, o que não é normal a um sujeito com perfil de direitista. No fim, as críticas que tecia ao regime totalitário da União Soviética estavam certas e a esquerda equivocou-se em apoiá-lo. Mesmo com toda peculiaridade que lhe era característica, Nelson alimentou várias imagens acerca de si.

 

Biógrafo do dramaturgo, o escritor e jornalista Ruy Castro retrata inúmeras facetas do cronista futebolístico e de costume, e algumas delas não fazem o menor sentido à figura de reacionário que deu a si mesmo. Nelson, vale lembrar, foi um dos primeiros a denunciar o racismo no Brasil, coisa que a direta até hoje não o fez. Além disso, alcunhou a expressão “Complexo de Vira-Lata” para representar a elite brasileira. Frase, inclusive, atual para designar certos colunistas que usam seus espaços nos jornalões para escrever sobre Miami – nada mais cafona.

 

Em Memórias: a menina sem estrela, o escritor descreve seus dias de fome e pobreza logo após a morte de seu pai. Jornalista de texto refinado, chegou a trabalhar vários dias com a mesma roupa na redação de O Globo. A presença de Nelson provocou mal cheiro, o que levou Roberto Marinho a conversar com seu irmão, Mário Filho. “Nelson anda muito fedido, não dá, não dá”, sentenciou o patrão. Já em outra crônica ele narra a dificuldade em receber o pagamento pelos trabalhos na época do jornal Última Hora, de Samuel Wainer.  

 

Curiosamente, virou ídolo de uma geração de jovens que destilam ódio nas redes sociais, e que nunca chegaram a lê-lo. Ler, aliás, vem tornando-se um hábito cada vez mais raro em determinados segmentos da sociedade, especialmente entre reacionários e jovens que compensam seus déficits intelectuais com piadas sobre minorias. Por conta do texto vanguardista, os moralistas não conseguiriam passar da primeira parte de Vestido de Noiva ou Bonitinha, mas ordinária, afinal um sujeito não é chamado de pornográfico, tarado e cretino à toa, não é mesmo?

 

O Metamorfose escolheu algumas obras que servem para conhecer melhor o universo rodrigueano. Vejamos.

 

A Pátria de Chuteiras Imortais

 

 

Cronista esportivo inteligente e bem humorado, Nelson Rodrigues usava o futebol como metáfora para compreender o brasileiro e a vida. Dizia que qualquer partida guarda mais carga dramática do que a dramaturgia do inglês William Shakespeare. Publicado no Jornal dos Sports e Manchete Esportiva, os textos narram a primeira conquista mundial da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958. Tornou-se épico o eufemismo “Anjo das pernas tortas” que usava para se referir ao craque Mané Garrincha.

 

 

 

 

 

 

 

 

Memórias: a menina sem estrela

 

 

Assim como nas crônicas esportivas, Nelson também usava sua criatividade para frases de efeito e estilo na obra jornalística. Neste livro, reúne os principais textos do período em que trabalhou em O Globo e Correio da Manhã. Em vários trechos, é possível se deparar com a história do jornalismo e do teatro moderno brasileiro, que tem em Nelson a figura de pai. Fumante invertebrado, o cronista dificilmente pagava alguma refeição para os colegas.

 

 

 

 

 

 

 

 

O Beijo no Asfalto

 

 

Um moribundo atropelado pede a um sujeito que passava pela rua, Arandir, um beijo. O ato carinhoso foi transformado pela imprensa sensacionalista. O sogro de Arandir chegou a insinuar que ele é homossexual e parece ter uma relação incestuosa com a filha. No final, porém, revela-se apaixonado pelo genro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bonitinha, mas ordinária

 

 

Humilde, Edgar decide se casar com a filha do próprio chefe por causa de dinheiro. Mas ele é apaixonado por outra mulher. O título da peça fez menção ao escritor e amigo de Nelson, Otto Lara Rezende, a quem é atribuía frase: “O mineiro só é solidário no câncer”. “Maria Cecília, menina rica, simula uma farsa para realizar a fantasia sexual de ser estuprada por cinco negros enquanto grita o apelido do cunhado, “cadelão”, diz um trecho da peça.

 

 

 

 

 

 

 

 

Perdoe-me por me traíres

 

 

Em 16 dias, Nelson escreveu a tragédia carioca de três atos. Um dos personagens é um deputado cliente de uma prostituta. Quando a peça estreou no Teatro Municipal do Rio, um vereador, armado, ameaçou disparar para o alto. “Glorinha mostra-se dividida entre ser a boa moça, que teme suas próprias ações para responder aos ideais do tio, que controla seus passos, ou se oferecer como objeto a outros homens num bordel, segundo o gozo do mesmo tio Raul: Ser traído por uma mulher. Esta divisão nos indica o aprisionamento de Glorinha na cena deste Outro: ela fica entre seu ideal e seu gozo. Mas vai ao bordel, por curiosidade, onde conhece Madame Luba, a cafetina, que em algum momento lhe diz que poderia ser sua mãe”.

 

 

 

 

 

Agora, diga-nos: será que os reaças conseguiriam assistir ou ler Nelson Rodrigues Os jovens do MBL? , Sem dúvida, o universo rodrigueano está mais para subversão do que submissão.  

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

November 19, 2019

November 18, 2019

November 18, 2019

November 11, 2019

November 11, 2019

Please reload

Posts Recentes
  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle

Apoie o jornalismo independente e contribua para que o Jornal Metamorfose continue a publicar.

Fale com a gente: sigametamorfose@gmail.com