• Maria Luiza Graner

Retrato Nu: a fotografia de nu artístico


Minha tarde no Centro de Goiânia começou despida. Despida de expectativas, às quatro da tarde eu me encontrava de frente a dois paus e um par de tetas, prontos para concepção de um ensaio na casa verde de mesmo nome. Pela hora seguinte, eu tive a disposição do meu desejo artístico, três corpos nus.


O diálogo sobre o nu, na fotografia, ainda é muito atrelado à palavra sensualidade. Essa leitura, para mim, é perigosa. Principalmente porque o nu e a sensualidade - no subconsciente de quem cresceu sabendo das edições da revista Playboy escondidas no banheiro - são ainda sinônimos de corpos perfeitos e femininos, prontos para o prazer dos olhares masculinos. Por isso, mergulhei nesse ensaio sem planejamento, apenas com a leveza da natureza dos corpos que sucediam as lentes da minha câmera.


Apesar da sede de espontaneidade e improviso, eu suspeitava que o ensaio levantaria uma discussão interessante. A minha suspeita foi confirmada quando, na sexta-feira, uma das fotos foi removida pelo Instagram. Minha foto foi escolhida para denuncia e remoção, entre as inúmeras publicações pornográficas no aplicativo. E é aí que nasce um objetivo para a fotografia: não ter objetivo.


O nu é um estado que carrega consigo inúmeros fardos. A exigência de um biotipo específico e a exigência de amar seu corpo a qualquer custo, também. A obrigatoriedade de uma leitura exclusivamente sexual. Negar a natureza dos detalhes que compõem os corpos humanos, seus pelos, curvas, rugas, poros, fendas.


Escondemos tanto os nossos corpos que, quando vemos o outro despido, despimos também nossa mente, há tanto tempo amarrada em camadas de diferentes tecidos. E num frio rasgado, como veio ao mundo, a mente pede por uma finalidade explícita, plausível e clara. Porque sem ela, a nudez arregaça.