“Entender a loucura é saber da existência da sanidade”

March 1, 2018

Lucy fecha os olhos e deixa os ruídos fluírem para além da mente perturbada. Ela desbrava a festa brasileira e observa as realidades se transmutarem pela ocupação das ruas na madrugada. 2018 espera para começar, os movimentos ritualísticos tomam proporções apocalípticas pelas capitais, o povo extravasa todo grito sangrento dos últimos meses pela boemia de se ser brasileiro.

 

 

“Ei Crivela, vai tomar no cu!” ecoa pelos ares do Santos Drummond, no Rio de Janeiro. Os foliões sob o sol de 40 graus do verão carioca ocupam com purpurina e alegria o aeroporto da cidade maravilhosa, caos. Protesto em avenida do desfile de samba mais famoso do Brasil, no sambódromo a escola Paraíso de Tuiuti e o vampiro neoliberalista invadem a rede globo ao vivo, saudados pelo silêncio dos comentaristas. Bloquinhos em bairros elitizados da capital paulista caminham pelas praças sob os gritos do eterno Belchior. O que acontece nesse país?

 

Estruturas mal planejadas pelas principais cidades carnavalescas, transporte público em calamidade, falta de policiamento nas ruas, alegria e purpurina, protestos em forma de festa ocupam os cantos das metrópoles, aviso prévio de um brasil politizado e prestes a enfrentar a pior recessão pós-carnaval vista desde 1968.

 

Uma festa. Ou história da guerra entre a liberdade do oprimido e a censura do opressor? Seria o carnaval o espelho da vida?

 

Subversão, cultos ao deus Dionísio, entrega aos desejos carnais, fantasias... O carnaval tem sua origem na Antiguidade pela Grécia, Roma e Mesopotâmia  como festas para a chegada da abundância com o fim do inverno. A história percorre pela resistência de um povo que é tomado pela moral cristã no século VIII com a criação da quaresma, a instituição católica percebeu que a festa pagã crescia desgovernadamente e logo enquadrou a folia dias antes do sacrifício carnal.  A palavra carnaval vem do latim ‘Carnis Levale’ que significa retirar a carne.

 

Porém a festa resistiu e se resignificou no século XIV no período Renascentista na Itália, onde teatros de rua com desfiles e carros decorados, com a população fantasiada era chamado de commedia dell’art. Em Portugal, a festa inspirada em Roma deu origem ao entrudo, onde máscaras esculpidas na madeira por camponeses eram usadas pelas pessoas na rua. A prática portuguesa chegou ao Brasil no século XVI, porém a folia era dos escravos – que saíam pelas ruas com os rostos pintados enquanto jogavam bolinhas de cheiro nas pessoas, a prática era considerada ofensiva e violenta pela elite.

 

E como é de praxe, o topo da pirâmide criminalizou a festa no século XIX apoiado pela imprensa carioca e enquanto o entrudo era oprimido nas ruas, a elite criava bailes de máscaras em salões pomposos. Nossa história carnavalesca está ligada intrinsicamente em resistir de acordo com as regras dos donos do poder, a moral cristã, e a ressignificação. 

 

Mas voltemos  para o Brasil em 2018, as massas iludidas com o gosto de liberdade ecoam pelos ares da resistência. Tudo torna-se um. Lucy transita pelas bolhas para ver o mesmo ponto de diversos ângulos e assim ter uma visão mais próxima da realidade ofuscada pelos barões da comunicação em massa. Sinto-me estática, caro leitor, do que seria as ruas sem os blocos com pessoas soadas em pleno verão latino? Vazias com o policiamento de uma verdade que ainda não foi dita.

 

Se via de tudo entre os becos escuros, pois foi vomitado a raiva de um governo ilegítimo com corpos dançantes e almas brilhantes no carnaval mais politizado visto em séculos pelos olhares cegos.

 

A maior representação da resistência é o amor ao novo, o respeito nas relações de comunidade, somos todos livres, podemos viver em harmonia e devemos lutar para que a rua não vire espaço privado, onde os carros ocupam mais valia que as vidas humanas. Lucy sente o gosto de liberdade na brisa quente do verão, carnaval é de fato uma festa que transborda experiências. Afinal, qualquer coisa pode acontecer, até mesmo o uso consciente desse direito de existir e se relacionar com a cidade.

 

 

Mas afinal, porque o carnaval foi deliberadamente não estruturado? Veja bem, no Rio de Janeiro temos um prefeito evangélico que decidiu tirar férias na Europa enquanto sua cidade recebia milhões de pessoas. O resultado gritava em manchetes sensacionalistas nos jornais controlados pelos barões da comunicação, Lucy via dados e estatísticas por todos os lados mas observava a distância de cor e bairro dos problemas descontextualizados pela mídia. Ora bolas, afinal, porque a zona sul teve dias ensolarados e um metrô que funcionava perfeitamente? Mas qual tipo de humano precisa de aplicativos  que avisem a hora dos ônibus até os pontos? Em qual situação é válido um policial pra cada 5 pessoas?  Parecia o paraíso carnavalesco que a globo mostrava nas novelas. Mas e o resto da cidade?! Rio de Janeiro é uma cidade de 6.520,266 milhões de habitantes, e a zona sul tem apenas 997.478 mil pessoas. A baixada e o resto da cidade caía descaradamente em calamidade pública, a falta de policiamento se transformou violência bárbara, mortes e assaltos, brigas e caos.

 

Mas quem se importa com o Rio de Janeiro que não tem turismo? Cerca de 3 bilhões de reais são movimentados pela zona sul nessa época do ano, o mundo ama essa festa! Temos um prefeito que usa da moral evangélica acreditando que a fé de seus eleitores não duvida de sua pessoa. Porém, deixa a população que votou nele na invisibilidade indo pra Europa ficar longe da bomba quando estourasse. Vemos aí a militarização do rio por a situação estar ‘grave, mas nem tanto’.

 

Já em São Paulo o carnaval vem sendo financiado pela Ambev, que em 2018 financiou 30 cidades, atingindo uma média de 40 milhões de pessoas. O edital de patrocínio oficial do carnaval foi  publicado no governo Haddad, que especificou   um ponto importante para decidir a empresa vencedora: a proposta tinha que ter o maior gasto em interesses públicos que as outras. Em maio de 2017, o Ministério Público abriu investigações com o ganho da Dream Factory – empresa de eventos contratada pela Ambev para produzir o carnaval da Skol em São Paulo. Existem áudios e documentos que comprovem que a equipe Dória tenha informado a Ambev que mudasse números para justificar os 15 milhões, vencendo assim as concorrentes.

 

O que o MP descobriu é que o valor que a Skol investiria em interesse público era 2,6 milhões, e que sua concorrente SRCOM – parceira da Heineken, teria o orçamento de 8,5 milhões investindo 5,1 milhões em interesses públicos. O resultado disso? Um carnaval que o policiamento era somente para a retirada dos ambulantes de outras marcas, ou autônomos, de forma agressiva e punitiva. Roubos, socorro médico, banheiros, estrutura de mobilidade urbana e confusões não foram prioridade nesse carnaval, prejudicando a população que enfrentou uma semana intransitável pelo centro da cidade. Porém, em bairros como Jardins se via blocos de 50 pessoas brancas passeando normalmente num bloquinho que reverenciava Belchior. Ônibus e metrôs? Lotados e preparados para dar merda. Havia linhas fechadas por ter “gente demais”, policiamento nas portas das estações para impedir que as pessoas entrassem.

 

 

Lucy se pergunta o que se deveria fazer quando seu país sofre um golpe, existe alguma etiqueta que deve ser seguida como norma padrão de reação? Alguma coisa se espera dessa sociedade que transborda os sintomas da desigualdade gerada pela implantação da crise. Afinal, perde-se os direitos trabalhistas, privatize tudo! Estão no poder apenas para gerar mais lucro com o suor das pessoas, enquanto multinacionais e o FMI ganha mais e mais poder político. Alguma coisa se espera desses humanos!

 

Acredita-se que a fuga para as sub-realidades são necessárias em tempos de trevas, quiçá se superarmos a dor podemos reverter essa situação, embreaga-se então, deixe queimar a existência desse sentimento de claustrofobia, somos todos livres, não consegue ver? Alguns andam pelas ruas acreditando pensar ser uma tradição sem explicação, outros sabem do poder político que esse ato pode ter mas ao mesmo tempo esquece a importância que isso tem. Mistura-se, cria-se, viva e olhe, nosso carnaval é um espelho de uma sociedade dionisíaca que é controlada por uma soberania que tenta a cada ano transmutar nossas festas em pão e circo.

 

“Cuidado! Você está sendo manipulado!”

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