• Marcus Vinícius Beck

Diga que é mentira


Por favor, amigo boêmio, amigo secador, diga-me que o texto do apresentador Tiago Leifert não passa de um delírio bêbado deste escrevinhador de costumes, fã de futebol, corintiano nato, esquerdista, defensor da união entre esporte e política e vagabundo profissa. O Brasil, conforme sopra-me o mestre da crônica de costumes deste Brasil à la fitas de Luis Buñuel, Xico Sá, não é para iniciantes, e sim para gente do calibre de Paulo Leminski, Tarso de Castro e doutor Sócrates.


Somente essa galera é capaz de explicar o tal batuque reacionário que corre solto por nossas bandas. Por favor, amigo, diga-me que o texto do apresentador da vênus platinada não foi publicado em nenhum veículo, que não passou de uma mera mistura de palavras confusas, equivocadas e alienadas, mas que ninguém tomou conhecimento dele.


Careço de algum combustível para seguir em frente neste Brasil que vem sendo tomado por forças que flertam com o que há de mais antiquado no que diz respeito à transgressão.


O futebol é política, sim, meu caro Leifert. Num país que vivera durante 21 anos sob a batuta de uma Ditadura Militar, nada melhor do que reverenciar a Democracia Corintiana e lembrar de craques como Afonsinho – o primeiro a ser dono de seu próprio passe. Aliás, nesses tempos confusos e, por vezes estranhos, não é de se espantar que uma cara pense, escreva e interprete mal os fatos ao seu redor, bradando coisas do tipo “esporte e política jamais devem ser confundidos”.


Vamos lá: em 1936, nas Olimpíadas de Berlim, o corredor Jesse Owens fora medalhista de ouro. No momento em que recebeu a medalha, Owens recusou-se a pegar na mão do nazista Adolf Hitler, então chanceler da Alemanha. Nos Jogos Olímpicos de 1968, Tommie Smith e John Carlos repetiram o gesto consagrado pelos Panteras Negras. O maior boxeador do mundo, Muhammad Ali, abdicou de combater na Guerra do Vietnã por saber a dimensão que sua decisão teria sobre quem estava condenado a morrer na batalha. Recentemente, atletas da NBA foram na mesma linha e criticaram o governo de Donald Trump.


Fora os casos conhecidos no futebol. Esporte mais popular do mundo, o futiba formou inúmeros craques que, além de serem cerebrais dentro das quatro linhas, também tinham consciência política, não raro eram chamados de rebeldes pela parte reacionária da imprensa esportiva. Piada à parte, eles quebraram, de certo modo, a máxima de que jogador de futebol não sabe pensar, tampouco articular um pensamento relevante. Ora, diante de tal afirmação, onde ficariam gênios como Maradona, Afonsinho e Sócrates?


As histórias do argentino já são conhecidas. Do doutor, nem se fala. Afonsinho, como disse acima, era rebelde e influenciou a canção Meio de Campo, do tropicalista Gilberto Gil.


Relatada pelo jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano, em O futebol à luz e à sombra, as críticas que Maradona teceu aos mandatários do esporte bretão fizeram eco nas estruturas corrompidas da Federação Internacional de Futebol (FIFA). Como consequência de suas declarações, diz Galeano, os cartolas tentaram boicotá-lo inúmeras vezes, o que culminou na retirada de Dieguito da Copa de 1994. O argentino ainda é fã dos revolucionários Fidel Castro e Hugo Chávez.


Cá entre nós, titio Nelson Rodrigues, sei que tu eras um sujeito avesso a essa coisa de esquerda e tal, inclusive denominava-se reacionário. No entanto, com licença, tenho de evocar uma frase sua: “Muitas vezes é a falta de cárater que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”. Digo mais: não se escreve qualquer texto com bons sentimentos, mas evita-se mau-caratismo intelectual, pois o mundo não precisa de ideias rasas, superficiais e bobós.


Ainda que bem que temos a sapiência do ex-jogador Walter Casagrande... grande Casão.


Por fim, seu garçom, faça-me um favor, desce um rabo-de-galo na mesa que estou mais para José Trajano do para o tal Tiago Leifert, mesmo que o assunto da galera seja essas ideias que tem a intenção de desmoralizar quem curte uma boa partida de futebol, chamando-nos de alienado. Agora, passo a bola para Wilson Simonal, que canta: “Aqui é o país do futebol”.E da política, nas arquibancadas.